O historiador Marcelo Bittencourt defendeu, na quinta-feira, que a Independência de Angola foi conquistada pelos angolanos, ao sublinhar que foi a luta de libertação anticolonial que forçou as autoridades portuguesas a acabar com o trabalho forçado e o indigenato.
A tese foi apresentada na conferência “Colonialismo, Luta de Libertação e Historiografia”, a primeira do ciclo de Novembro das Conversas da Academia à Quinta-feira, promovida pela Academia Angolana de Letras, no ano em que assinala o 10.º aniversário da sua proclamação.
Sob moderação do escritor Frederico Cardoso, o evento contou com a presença de académicos de Angola, Bélgica, Brasil, França, Moçambique e Portugal.
O orador distinguiu os estudos sobre o colonialismo dos dedicados à luta de libertação, normalmente tratados separadamente, e propôs uma leitura da Historiografia angolana como um “pêndulo analítico” entre as duas abordagens.
Professor Catedrático na Universidade Federal Fluminense, Marcelo Bittencourt tomou posse, no mesmo dia, como membro correspondente da Academia Angolana de Letras. Defendeu que a História da luta armada deve ser estudada sem descurar a vida quotidiana na sociedade colonial, sobretudo na última fase do domínio português, para se compreenderem as influências mútuas entre a guerrilha e a sociedade, urbana e rural.
Autor do livro “Estamos juntos! O MPLA e a Luta Anti-colonial (1961-1974)”, o historiador referiu que a resistência anticolonial é anterior aos movimentos de libertação, citando a acção do grupo dos “Filhos da Terra”, nos finais do século XIX e inícios do século XX. Abordou também a actuação dos movimentos, tanto na luta armada como na resistência clandestina nas cidades e vilas.
Segundo o conferencista, o colonialismo desenvolveu dois tipos de acção: uma voltada para o exterior e outra para o interior de Angola.
“O lusotropicalismo apresentava ao exterior uma imagem distorcida da realidade colonial, propagando uma suposta igualdade, quando, de facto, se mantinham o trabalho forçado e a discriminação racial dos africanos”, afirmou.
Já o programa “Angola Combatente”, emitido pelo MPLA a partir de Brazzaville, chegava a toda a colónia, retratava a realidade social vivida em Angola e transmitia orientações de táctica de guerrilha à população.
Fim ao trabalho forçado e ao indigenato
Marcelo Bittencourt sublinhou que foi a luta de libertação que forçou as autoridades coloniais a pôr fim ao trabalho forçado e ao indigenato, estatuto que não conferia à maioria dos angolanos a cidadania portuguesa. Concluiu salientando que, além da luta armada e da acção clandestina dos movimentos, a sociedade angolana dispunha de formas de contestação de natureza social e cultural.
A próxima serie da Conversas da Academia à Quinta-feira está agendada para 12 de Novembro, às 19 horas, também sob moderação de Frederico Cardoso. O crítico literário Giorgio de Marchis vai abordar o tema “Algumas considerações à margem das seis Traduções Italianas de ‘Adeus à Hora da Largada’”, na cerimónia de posse como membro correspondente da Academia Angolana de Letras. A participação via Zoom é livre.




