Simpósio destaca papel do crítico na validação das obras literárias

O papel da universidade na formação de críticos literários foi um dos destaques do terceiro Simpósio Nacional de Crítica Literária, que decorreu de quarta a sábado, no qual especialistas defenderam que é nesta instituição onde se deve aprofundar o trabalho de interpretação, questionamento e avaliação da produção literária.
Durante a última sessão, realizada no sábado, na União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda, o professor Joaquim Cahundo, ao abordar o tema “Ensino da crítica literária nas universidades angolanas: crise de método e desafios curriculares”, explicou que para a existência de um maior número de críticos literários no país, é fundamental que as universidades assumam a formação de leitores críticos. No entanto, acrescentou que, neste domínio, as instituições de ensino superior ainda enfrentam desafios por não conseguirem formar um número significativo de leitores com capacidade analítica e crítica a fim de interpretar e avaliar a produção literária. De acordo com Joaquim Cahundo, esta realidade deve-se, em parte, ao facto de os programas académicos, sobretudo dos cursos de Línguas e Literatura, estarem excessivamente centrados em períodos históricos, movimentos literários e escolas estéticas. Embora considere esses conhecimentos fundamentais, o professor defende que a formação não pode estar limitada a esses conteúdos. "Deve-se permitir aos estudantes desenvolver plenamente as competências de interpretação de textos, aplicação de métodos de análise, formulação de hipóteses de leitura, construção de argumentos, confronto entre diferentes teorias e produção de conhecimento crítico", disse. O professor defendeu que as disciplinas devem ser articuladas para permitir que os estudantes, no fim da formação, adquiram competências para teorizar, proble- matizar e analisar criticamente a literatura. "O estudante não deve ser apenas submetido à memorização de teorias. É necessário que seja estimulado a estabelecer um contacto crítico com o texto desde o início da formação", afirmou. Por outro lado, a professora e escritora Domingas Monte, ao abordar o tema “A crítica literária como saber académico: entre ciência, interpretação e ensaio”, explicou que a crítica constitui um dos campos fundamentais dos estudos lite- rários, ocupando um lugar de destaque na investigação universitária. “A crítica literária consolidou-se como disciplina científica a partir do século XIX quando estudos epistemológicos, históricos e comparatistas passaram a integrar o campo académico”, sublinhou. Segundo Domingas Mon- te, a crítica literária apresenta uma natureza híbrida, por reunir características científicas e interpretativas. Para a académica, embora recorra a métodos, teorias e instrumentos de análise próprios, a crítica literária envolve também sensibilidade, reflexão e diferentes possibilidades de interpretação dos textos. Por essa razão, defendeu a importância do seu estudo no espaço universitário, por ser na academia onde se desenvolvem ferramentas capazes de formar leitores mais preparados para analisar, questionar e compreender a complexidade das obras literárias. “A crítica literária não se limita à apreciação estética, precisa de elementos analíticos capazes de justificar racionalmente as interpretações produzidas”, afirmou. Organização satisfeitaReunindo escritores, investigadores, docentes, estudantes e outras figuras ligadas à literatura, o coordenador do Movimento e Círculo de Estudos Literários e Linguísticos Litteragris, Helder Simbad, mostrou-se, no fim do encontro, satisfeito com a terceira edição do simpósio, realizada ao longo de três dias, ao contrário das edições anteriores que decorreram num único dia. De acordo com o responsável, o alargamento da programação permitiu aprofun- dar os debates, promover uma maior interação entre os participantes e criar mais oportunidades para a partilha de conhecimentos e experiências em torno da literatura. "Apesar de a programação se ter estendido por cerca de seis horas diárias, a sala manteve-se sempre cheia, o que demonstra o interesse do público. Isso significa que as pessoas apreciaram a iniciativa e confirma que eventos desta natureza são necessários no país", afirmou. Helder Simbad explicou que um dos temas que mais despertou os participantes no sábado foi “o papel da universidade na formação de críticos literários”. Na sua visão, é no meio académico que se constroem as bases indispensáveis para o exercício da crítica literária, capacitando leitores e investigadores para uma análise mais rigorosa das obras. O evento teve como lema “ A Critica Literária em Ango- la, Centralismo, Reconfigurações na Era Digital” e teve o arranque na Maka à Quarta Feira da UEA.


