O ex-presidente guineense Umaro Sissoco Embaló pediu serenidade aos seus apoiantes e negou ter criado no corpo da guarda presidencial "forças especiais de defesa e segurança" para actuarem contra a população do país.
Numa publicação nas suas redes sociais, Sissoco Embaló escreveu que tomou nota e "acompanha paulatinamente" o desenrolar dos acontecimentos políticos e sociais no país, depois de, na terça-feira, as forças armadas guineenses terem desmobilizado e transferido para outros aquartelamentos elementos da guarda presidencial, também designados de "força anti-golpe", criada por Sissoco Embaló.
Duas coligações da oposição a Embaló congratularam o Alto Comando Militar, no poder na Guiné-Bissau, pela decisão de "desmantelamento das milícias", considerando que sempre defenderam que actuavam fora do controlo do Estado-Maior General das Forças, alegadamente cometendo acções contrárias à lei, nomeadamente raptos e espancamentos de cidadãos.
"Em nenhuma circunstância criámos as Forças Especiais de Defesa e Segurança para se voltarem contra o nosso povo ou contra a sociedade guineense. A sua existência era orientada para a protecção do Estado, da população e da ordem constitucional, numa perspetiva de prevenção, segurança e defesa do bem-estar coletivo", escreveu Embaló.
O ex-presidente guineense, deposto por um golpe militar a 26 de Novembro passado, considera que "algumas mensagens e narrativas podem contribuir para aumentar as tensões" no país. Umaro Sissoco Embaló apelou ao "sentido de responsabilidade, à moderação e ao respeito mútuo", sublinhando que optou pela serenidade "para evitar a instabilidade e a divisão social", mesmo após ter sido afastado das suas funções e "transformado em parte do problema". Embaló manifestou preocupação face a "eventuais tentativas" de apagar o legado do seu mandato e de atingir pessoas próximas, reiterando que aceita o "julgamento da História" pelas suas escolhas.
O chefe de Estado deposto exortou, ainda, os simpatizantes e militantes para que evitem qualquer acto que ponha em causa a paz e a tranquilidade, pedindo que deixem as novas autoridades exercerem as suas responsabilidades e permitam que o povo avalie a situação democraticamente. Sissoco Embaló destacou que se mantém "tranquilo e focado" numa estratégia de união das bases políticas e preparação democrática para os próximos embates eleitorais, sublinhando que priorizará a paz, a unidade e o futuro da pátria.
Umaro Sissoco Embaló presidiu à Guiné-Bissau de 27 de Fevereiro de 2020 a 26 de Novembro de 2026, quando foi derrubado por um golpe liderado pelo general Horta Inta-a, seu antigo chefe de segurança na Presidência da República.
Sociedade civil quer que regresse sob custódia
As organizações da sociedade civil guineenses manifestaram-se a favor do regresso ao país do ex-presidente Umaro Sissoco Embalo, mas exigem que ocorra sob custódia, para que "possa responder perante" a justiça pelas acusações que lhe são imputadas. A posição é defendida através de um comunicado assinado pelo Espaço de Concertação das Organizações da Sociedade Civil e a Frente Popular, duas plataformas que reagrupam organizações de jovens, mulheres, sindicatos e ONG.
O comunicado conjunto das duas organizações foi tornado público pelos órgãos de comunicação social guineenses e consultado pela Lusa nas redes sociais. No documento, as duas organizações reagiram ao anúncio do Alto Comando Militar de impedir, invocando "razões de segurança", o regresso ao país de Umaro Sissoco Embalo.
As organizações sublinham que Embalo deve regressar ao país para comparecer perante a justiça sobre as suas eventuais responsabilidades criminais pelos assassínios do activista político Vigário Luis Balanta e do ex-segurança presidencial Mamadu Tanu Bari. Estes dois cidadãos guineenses foram assassinados em circunstâncias ainda por esclarecer, e as organizações da sociedade civil sempre questionaram o ex-presidente do país sobre as duas mortes.
No mesmo documento, as organizações apontam responsabilidades ao antigo presidente guineense e ao então Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, general Biague Na NTan, reiterando que ambos devem ser alvo de "averiguações independentes". Sobre a situação política, as duas plataformas apelam aos militares para abertura de canais de diálogo entre os actores políticos, institucionais e a sociedade civil para se encontrar uma "saída pacífica" para a crise no país e assegurar o regresso célere à ordem constitucional.




