O presidente da Associação Angolana de Teatro (AAT), Tony Frampênio, defendeu segunda-feira, em Luanda, durante a abertura de uma Masterclass sobre dramaturgia, a necessidade de fortalecer a qualidade da produção dramatúrgica em Angola.
Falando na abertura da Masterclass, que decorre até ao dia 26 do corrente mês, no Elinga Teatro, em Luanda, o encenador destacou a formação como instrumento para desenvolver novos autores, promover a reflexão social e contribuir para a construção de uma sociedade mais consciente.
Tony Frampênio explicou que a iniciativa surgiu por impulso do Elinga Teatro, tendo em conta a existência do Prémio de Escrita para Teatro José Mena Abrantes.
Segundo o dramaturgo, têm sido constatadas dificuldades na participação no prémio e, entre os textos dramáticos apresentados, tem se verificado diversas deficiências na estruturação dos mesmos.
O segundo factor, aclarou, está relacionado com a análise dos espectáculos teatrais apresentados em festivais, salas de teatro e por grupos que produzem as suas próprias obras, reforçando que muitas dessas produções carecem de aprofundamento psicológico, filosófico, sociológico e até antropológico dos conteúdos apresentados.
“Às vezes, colocamos em cena um assunto que é um problema social ou algo imaginário, mas que carece de conteúdo, porque não tem uma base textual. Ou seja, é tudo à base de improviso. E, quando não é improviso, quem escreveu é um jovem que aborda determinado assunto de forma muito superficial”, afirmou.
Neste sentido, avançou, a Masterclass surge com o propósito de fornecer instrumentos metodológicos para a construção de textos dramáticos, de modo que estes consigam abordar os assuntos sociais com maior profundidade psicológica, sociológica e antropológica.
“O objectivo é que os formandos consigam apreender os conhecimentos que aqui passamos e começar a construir peças dramatúrgicas, de facto, dentro daquilo que é o nosso contexto social”, explicou.
O formador revelou que a iniciativa recebeu mais de 200 inscrições, tendo os participantes sido seleccionados de forma criteriosa, pois a organização procurou privilegiar não apenas a quantidade, mas sobretudo a qualidade e a diversidade dos participantes.
A turma de 21 formandos integra igualmente críticos, estudantes de Literatura, professores, jornalistas, actores e outras pessoas ligadas à escrita e à crítica social.
Para Tony Frampênio, o teatro, além da sua dimensão lúdica, desempenha também uma função didáctica, contribuindo para a instrução dos indivíduos e para a promoção de valores e virtudes na sociedade.
Segundo o responsável, mesmo quando o público procura o teatro para se divertir ou rir, é nessa dimensão lúdica e humorística que podem ser transmitidas mensagens relacionadas com valores e questionamentos críticos.
O dramaturgo defendeu ainda que as artes devem desempenhar um papel mais activo na construção da sociedade angolana, ao lado de instituições como a família, escola, igreja e a política, reforçando que não deve ser apenas a igreja, a família, a escola ou a política, pois as artes têm também um papel fundamental.
Para o presidente da AAT, é por meio da música, da dança e do teatro que também podem ser transmitidas mensagens de instrução, valores e consciencialização para a cidadania, desde o respeito pelo outro até ao sentimento de pertença.
“A nossa expectativa é que, no fim desta formação, tenhamos um grupo de pessoas que possa, a partir desta experiência, desenvolver e escrever textos com alguma qualidade, tendo em conta o nosso contexto e, talvez também, outros contextos e realidades”, avançou.
O responsável manifestou, entretanto, preocupação com a forma como os conteúdos dramatúrgicos chegam ao público. “Não queremos que a dramaturgia tenha um papel degradante. Pelo contrário, os gregos, através da filosofia e do teatro, tentaram contribuir para a construção do homem e para a sua relação com os outros, e é o que queremos fazer na sociedade”, disse.




