Por ocasião dos 70 anos de vida de Ndungidi Daniel, a serem celebrados HOJE, o Jornal dE ANGOLA traz, nesta edição, uma abordagem PARa assinalar a efeméride. A propósito, fomos aos arquivos e recuperámos excertos da última presença da estrela do futebol angolano, no Programa “A Voz dos Kotas” da Rádio Cinco. Entre lamentos e resignação, o antigo fabuloso futebolista falou das vezes em que viu travada a transferência ao estrangeiro. Sporting de Portugal e Sport Lisboa e Benfica chegaram a manifestar interesse: “Isso foi uma falha, na altura, do Estado angolano…”
Honorato Silva
Sem fugir do tema, como fez várias vezes com a bola colada ao pé, começou por contextualizar, ao explicar a situação na qual se deu o impedimento da transferência.
“É sabido que o sistema político vigente na altura proibia que os atletas fossem jogar para o exterior do país. Eu paguei por tabela, porque se não seria o primeiro atleta angolano a transferir-se para o futebol profissional em Portugal, após a Independência. Isso foi em 79, quando veio cá o Sporting. Fiz uma grande exibição. O presidente, na altura, era o João Rocha. Gostou da minha exibição e falou com o Comandante Ndalu, que, na altura, estava à frente do Comité Desportivo Nacional Militar (CODENM)”.
Mais ao detalhe, o antigo avançado concretizou, ao falar da abordagem dos dirigentes sportinguistas.
“Apresentou um cheque em branco, para me levarem. Mas eu estava com as mãos atadas, porque não havia legislação (que permitia a saída dos jogadores), a dizer que os jogadores podiam ir para o futebol internacional. Isso foi uma falha, na altura, do Estado angolano, que não permitia que os atletas que se distinguissem no desporto fossem para o exterior. Foi uma pena.”
Ndungidi recuou no tempo, num apelo aos tempos de praticante da modalidade na infância: “Era meu sonho de miúdo enveredar pelo futebol profissional. Seguir o exemplo do Jacinto João, Dinis, Inguila, Laurindo… Esses todos que foram para Portugal. O Jordão. Então, nós os garotos, sabíamos das notícias, na altura, da metrópole. Também queríamos ir a Portugal. Não fui também em 73, quando foi o Lito Lobo. A primeira vez seria em 71 ou 72. Também estava para ir para Portugal. Tinha 16, 17 anos. Foi o Lito e eu fiquei. Depois da Independência, quando veio cá o Sporting, após a morte do Presidente Agostinho Neto. Não fui, paciência!
Sport Lisboa e Benfica/1990
“Isso foi em 90, quando o Benfica veio cá jogar em Luanda. Na altura eu já estava no Petro. Também fiz uma excelente exibição. O treinador era o Erickson. Ficou maravilhado com a minha exibição. Lembro-me que no cocktail que a direcção do Petro ofereceu à equipa do Benfica, aí no Restinga, na Ilha, estavam lá a equipa do Petro, a equipa do Benfica, os dirigentes do Benfica e do Petro. Soube que o Erickson estava interessado em mim. Quem me deu a notícia foi o falecido Totoi Monteiro. Mas dois indivíduos, não vou citar aqui os nomes, foram dizer à direcção do Benfica que não me levassem. Que já era um jogador velho. Estava em fim de carreira. Então abortou-se também a minha ida ao Benfica de Lisboa”, desabafou.
Trajectória do craque
Zugu Epalanga
Ndungidi Daniel é detentor de uma história que se confunde com a de Angola independente. O nome é uma marca do futebol nacional e, nas celebrações de mais um aniversário, o Jornal dos Desportos dedica algumas páginas ao célebre autor do primeiro golo angolano nas afrotaças ao serviço do 1.º de Agosto e da Selecção Nacional de futebol.
Os primeiros passos no futebol foram dados na tenra idade nas ruas de Luanda, onde a família desembarcou em busca de melhores condições de vida. Nos arredores do bairro Congolenses, cresceu e fez-se homem. O petiz integrou a Escola Fernando Peyroteo, no Campo de São Paulo, na segunda metade da década de 60 do Século XX. Lá, iniciou o processo de formação futebolística e partilhou o balneário ao lado de Zeca Lobo, Lito Russo, Mateus Ndisso, Chico Afonso, Horácio Cangato, José Pedro “Zargatero”, Matateu Sabino e outros sob a orientação dos monitores Garrido da Costa, António Barata e Vasconcelos de Sousa.
Cedo, a intimidade com o esférico e os recortes técnicos valeram-lhe a alcunha de Pelé, nome atribuído por Peyroteo, em homenagem ao célebre futebolista brasileiro, Edson Arantes do Nascimento.
O talento era visível e despertou interesse de alguns clubes. Aos 15 anos, jogou na equipa de juvenis do Sport Luanda e Benfica. No emblema encarnado, começou a dar nas vistas e, em pouco tempo, tornou-se na figura de proa da agremiação.
Em 1971, o FC Luanda interessou-se pelos préstimos e deu início a uma relação frutífera com o emblema azul e branco. A ascensão foi notória e, no ano seguinte, com 16 anos, já jogava em simultâneo nas categorias juvenil/junior.
Na época de 1973, aos 17 anos, estreou na equipa B de seniores, onde permaneceu até 1976.
Domingos Inguila, Daniel Cata e Chico Ventura foram alguns dos técnicos que mais rendimento conseguiram extrair do jogador, antes de abraçar o desafio no 1.º de Agosto criado no ano seguinte.
Glória no D’Agosto
Foi ao serviço do 1.° de Agosto que conheceu a notoriedade e Ndungidi, não mais Pelé, revelou-se como maior futebolista angolano pós-independência. “Pelé só há um”, terá aconselhado Domingos Inguila. O conselho foi reiterado por Daniel Cata, que o convenceu a chamar pelo próprio nome.
O “eterno” camisola 7 fez a estreia a 12 de Novembro de 1977, numa partida em que o 1.° de Agosto defrontou e empatou com a Selecção de Luanda a dois golos (2-2) no Estádio dos Coqueiros, em Luanda.
Carlos Queirós: “Ndungidi era uma fera de bola”
Edurado Gito
O que Ndungidi fez na Cidadela, a ponto de provocar desequilíbrio da tensão arterial ao treinador, num jogo das Afrotaças?
(Risos, risos, risos) Tive um princípio de AVC. Fomos ao Ghana jogar com o campeão local e perdemos, por 2-4. Fomos muito roubados. Em 10 minutos, sofremos dois penáltis. O melhor jogador, para mim, foi o Quim Sebas. Ele foi para a frente e marcou dois golos. Quinze dias depois, jogámos a segunda “mão”. Ndungidi estava lesionado com um problema no joelho. No jogo na Cidadela, estaríamos a ganhar por 3-1 ou 2-0, mas estávamos a perder por 1-0, com a equipa adversária a dominar. Faltavam 20 minutos para o fim e havia muita pedrada e garrafas atiradas ao banco. Vejo o Ndungidi sentado. O Wilson estava esgotado, tirei-o e mandei o Avelino para a defesa esquerdo. Ndungidi pulou para a quadra. Em 20 minutos, virou o jogo. Ndungidi era um artista. No Brasil, jogámos com o Botafogo e os adversários só diziam: 'Aquele sete é profissional, joga aqui de brincadeira. É fera'.
De volta ao jogo...
Homenageado tem registo ímpar nos emblemas rivais
Betumeleano Ferrão
Em 1991, Ndungidi salvou o Petro em várias ocasiões. Uma delas aconteceu diante do antigo clube, quando marcou no empate a uma bola, na primeira volta do campeonato. Com esse golo inédito, inscreveu o nome na história do clássico como o primeiro futebolista a marcar pelas duas equipas.
A Guerra do Golfo Pérsico também popularizou em Angola o míssil Scud, utilizado pelo Iraque em ataques de longo alcance, sobretudo contra Israel. Quando Ndungidi marcou um livre directo diante do Nacional de Benguela, Manuel Rabelais irrompeu nas antenas do Canal B para exaltar o “Scud” que garantiu a vitória por 3-2, na Cidadela.
As exibições dos dois amigos dominaram as conversas dos adeptos e mereciam reconhecimento generalizado. Ainda assim, Jesus e Ndungidi decidiram pendurar as chuteiras e anunciaram um jogo de despedida na Cidadela.
Ndungidi disputou a primeira parte pelo Petro e a segunda pelo 1.º de Agosto. As jogadas e os gestos do craque reforçaram a ideia de que o seu coração tinha um único amor: o futebol.
O público vibrou com o clássico de despedida e queria prolongar o espectáculo. No entanto, os dois craques cumpriram o que tinham combinado: abandonaram o relvado de mãos dadas, sob uma enorme ovação.
Pela primeira e única vez em Angola, realizou-se um jogo exclusivamente dedicado à despedida de dois futebolistas no final das respectivas carreiras. Infelizmente, o encontro não teve transmissão da Televisão Pública de Angola (TPA).
O Petro enviou os dois eternos craques para o estrangeiro a fim de frequentarem cursos de treinadores. No regresso, Jesus permaneceu no clube tricolor, enquanto Ndungidi assumiu o comando técnico do Sonangol do Namibe. Mais tarde, regressou ao 1.º de Agosto, onde, em 1994, trabalhou como adjunto de Djalma Cavalcanti.




