O país garante anualmente menos de 40 por cento do financiamento necessário para cumprir os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) por incapacidade de mobilizar e utilizar o capital disponível, revela o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) num relatório divulgado esta Terça-feira.
As conclusões constam do Relatório de Foco do País 2026 – Mobilizar o Financiamento para o Desenvolvimento de Angola em Escala num Mundo Fragmentado, apresentado em Luanda.
Angola precisa de um financiamento anual de 14 mil milhões de dólares para cumprir os ODS e os compromissos da Agenda África 2063 e apresenta um défice anual de 8,6 mil milhões de dólares, refere-se no documento.
Para o BAD, este défice de financiamento "não é apenas devido à insuficiência de recursos”, mas também “à deficiente capacidade do país em mobilizar, intermediar e utilizar eficazmente o seu capital disponível em larga escala, num contexto global fragmentação".
Os níveis de investimento estimados em 10,6 por cento em 2025, acrescenta a instituição financeira, "permanecem abaixo do necessário para sustentarem o desenvolvimento [de Angola]".
O relatório aponta a fraca intermediação financeira, a preparação inadequada de projectos, deficiências no uso de “procurament” (processo para identificar, avaliar, negociar e adquirir bens e serviços) concorrencial, a elevada informalidade [na economia] e escassez de fontes de financiamento de longo prazo entre as razões do referido défice.
Salienta-se igualmente no relatório que a poupança interna estimada em 15,7 por cento em 2025 "é, em grande medida, subutilizada", e o acesso a financiamento externo concessional "é cada vez mais limitado e com taxas de juros elevadas e exacerbado por um ambiente de incerteza global".
Além disso, observa o BAD, a baixa mobilização de recursos internos, a fuga de capitais e o reduzido desenvolvimento dos mercados de capitais domésticos ainda dificultam a transformação da poupança em investimentos produtivos.
Na sua análise, o BAD destaca, contudo, a "forte resiliência" da economia angolana “reflectida na melhoria da estabilidade macroeconómica e com um crescimento de 3,1 por cento em 2025, fortemente influenciado pelo sector não petrolífero”.
De 2020 e 2025, os défices fiscais mantiveram-se abaixo dos 3 por cento do Produto Interno Bruto (PIB); a inflação média anual reduziu de 25,8 para os actuais 8,79 por cento e o rácio da dívida pública sobre o PIB diminuiu de 119 para menos de 50 por cento, refere-se.
O relatório assinala também "alguns progressos" nos indicadores sociais do país, como a esperança de vida (aumentou de 62 para 65 anos), e a redução na mortalidade materna e infantil, "ganhos que embora modestos, se traduziram na melhoria do Índice de Desenvolvimento Humanos das Nações Unidas (…) em 2025".
Entende o BAD que, apesar dos desafios colocados pela atual "fragmentação geopolítica", as perspetivas de crescimento de Angola tornaram-se "mais favoráveis", impulsionadas pela recuperação dos preços do petróleo, com o crescimento real do PIB previsto de 6,15 por cento em 2026 (última projecção do Banco Nacional de Angola).
Contudo, observa a instituição, essa taxa de crescimento "permanece insuficiente para assegurar uma redução significativa da pobreza e responder às necessidades de desenvolvimento do país".
"Estima-se que Angola necessite de crescer pelo menos 7 por cento ao ano para acompanhar o rápido crescimento populacional, de cerca de 3,5 por cento ao ano, enquanto mobiliza recursos suficientes para financiar as necessidades de investimento em infraestruturas (…)", assinala o BAD.
O desafio central [de Angola], diz, consiste em transformar o atual impulso de crescimento numa trajectória mais elevada, sustentável e inclusiva, apoiada pela diversificação económica e aumento da produtividade.
Para o BAD, o sistema financeiro de Angola continua a ser pouco aprofundado, fragmentado e centrado nas zonas urbanas, o que limita a mobilização de capital e o crescimento inclusivo.
Acrescenta que apesar dos "progressos evidentes" em matéria de reformas e mitigação de riscos, subsistem lacunas na capacidade regulatória e na coordenação institucional, defendendo que Angola poderia beneficiar de parcerias mais sólidas com os bancos multilaterais de desenvolvimento.




