Quem entra na Chicala ao fim de uma tarde de sexta-feira, nos dias de hoje, percebe a requalificação urbana que alterou o panorama comercial de uma das zonas mais dinâmicas de Luanda.
Onde antes existia uma infra-estrutura informal assente em madeira e areia, hoje erguem-se ruas asfaltadas. No entanto, o motor económico da região mantém-se fiel à sua matriz original, o comércio de peixe fresco na brasa, um segmento que atrai cidadãos de vários pontos e impulsiona Micro, Pequenas e Médias Empresas (MPME).
Um ecossistema onde o prato tradicional é composto por peixe grelhado acompanhado por feijão de óleo de palma, farinha de mandioca, banana-pão, batata doce e mandioca fervida.
O menu apresentado representa um produto de forte identidade cultural, alavancado pelo consumo de bebidas nacionais, sumos artesanais e produtos tradicionais como a quissângua.
Um dos indicadores da solidez deste mercado local é o Restaurante Bela Mar Casa do Peixe, um negócio familiar com 22 anos de actividade.
À frente deste império do sabor está Isabel Francisco, ou simplesmente “Dona Isabel”. Em declarações à Reportagem do Jornal de Economia & Finanças, a empresária conta que começou numa roulote onde vendia hambúrgueres e pão.
Passados alguns anos, a empresária capitalizou a procura local e adicionou as vendas a canjica de milho e o feijão de óleo de palma que a sua mãe já comercializava na mesma zona.
Conforme apurou à Reportagem, este passo transformou a pequena iniciativa numa das principais referências e activos gastronómicos da capital.
DIVERSIDADE
Um dos pontos ainda apurados pela Reportagem é que o grande diferencial competitivo deste segmento reside na gestão logística da matéria-prima.
Alguns dos operadores de restauração na Chicala concentram o seu menu em poucas variedades de larga escala como o carapau e o calafate.
Segundo a empresária, o segredo do negócio, assenta na diversificação da oferta como estratégia de mitigação de risco e captação de clientes de nicho.
Como conta, o estabelecimento opera com um portfólio de 27 espécies de peixe e marisco, cuja rotação é ditada pela sazonalidade e pelos ciclos de captura nacional.
Isabel Francisco explicou que para o sustento do seu estabelecimento, conta com o abastecimento local, como a Ilha de Luanda, Praia da Mabunda, Chicala e Cabo Ledo.
A empresa conta ainda com o abastecimento interprovincial, provenientes das províncias do Bengo (Ambriz), Zaire (Soyo), Benguela e Namibe.
A administração do restaurante salienta que, embora o carapau, o calafate e a choupa representem o núcleo duro do volume de vendas e da procura interna, a introdução de espécies de maior valor comercial (como o linguado, garoupa, corvina e gambas) serve para captar o segmento de turismo de negócios.
“Os peixes mais procurados por quem visita o espaço, são o carapau, o calafate e a choupa. Mas como temos muitos clientes turistas, diversificamos o menu com tudo o que temos no mar, do cachucho à corvina, passando pelo linguado, garoupa, gambas, lagosta e o kingole”, explicou Isabel.
Na visão da gestora, esta flexibilidade na ementa permite optimizar as margens de lucro face às flutuações de preços no mercado de peixe fresco.
Olhando para o futuro, numa Luanda que se moderniza e onde novos conceitos de restauração nascem todos os dias, a matriarca da Chicala não teme a concorrência.
Pelo contrário, Isabel vê o crescimento do turismo com optimismo e deixa um conselho para as mulheres angolanas que sonham seguir os seus passos.
“Que saibam realmente o que querem, pois não é uma área fácil. É necessário que sejam resistentes, persistentes e dedicadas”.
Actualmente, o espaço garante o sustento directo de 15 famílias, divididas entre a cozinha (8 pessoas), o bar (2), a manutenção dos WC (2), a área de cocktails (2) e a caixa (1). &




