Luanda – Usuários de telefonia móvel em Angola defendem a criação de mecanismos tecnológicos mais robustos, para prevenção de crimes cibernéticos em tempo útil e salvaguardar as necessidades vitais dos cidadãos e das empresas.
Luanda – Usuários de telefonia móvel em Angola defendem a criação de mecanismos tecnológicos mais robustos, para prevenção de crimes cibernéticos em tempo útil e salvaguardar as necessidades vitais dos cidadãos e das empresas.
Em declarações à ANGOP, esta segunda-feira, em Luanda, a propósito do recente ataque cibernético sofrido pela operadora de telefonia móvel UNITEL, alguns clientes afirmaram que este incidente, além de comprometer as comunicações, também colocou à prova a resiliência das infra-estruturas críticas de telecomunicações no país.
O incidente deliberado à infra-estrutura tecnológica dessa operadora ocorreu às 02h20 do dia 28 de Julho último, provocando corte dos serviços móveis de voz, dados e acesso à Internet em todo o território nacional. A reposição total destes serviços foi feita nove dias depois do ataque (dia 5 de Agosto).
Para Watuzemba Frederico, um dos usuários, o problema foi identificado quando tentou efectuar uma chamada telefónica, sem sucesso, tendo causado consequências directas nas suas actividades profissionais, causando falhas em reuniões e perda de oportunidades de negócios.
Segundo o cliente, “não recebeu qualquer comunicação imediata da operadora sobre a ocorrência”, sendo surpreendido pela ocorrência através de meios alternativos.
Por isso, Watuzemba Frederico advoga a adopção de mecanismos mais robustos de prevenção e resposta a incidentes cibernéticos por parte das operadoras de telecomunicações do país, que desempenham um papel estratégico para o funcionamento de diversos sectores da sociedade.
“A interrupção dos principais serviços de telecomunicações, como da maior telefonia móvel em Angola, afecta directamente bancos, instituições públicas e famílias, facto que exige as operadoras a adoptarem medidas mais eficientes para dar resposta atempada aos incidentes informáticos”, acrescentou.
Já Júlia Bragança, outra usuária, classificou “ruim” a experiência vivida durante a interrupção dos serviços da operadora, facto que afectou directamente o seu trabalho, uma vez que depende da internet para executar as suas actividades profissionais.
Para minimizar o impacto da falha da principal operadora do país, a cliente recorreu a uma rede móvel alternativa.
Na sua opinião, a UNITEL devem adoptar uma posição de responsabilidade perante os clientes afectados.
“Os clientes precisarão sim de um posicionamento que compense a interrupção dos serviços dessa operadora, tendo em conta os constrangimentos causados aos utentes”, referiu.
Para a proprietária de um salão de beleza Nelly Silva, a interrupção dos serviços impactou negativamente no funcionamento do seu negócio, comprometendo a comunicação com os clientes e a realização de pagamentos electrónicos.
Segundo a empreendedora, cerca de 50% da actividade do salão depende de chamadas telefónicas para marcação de serviços, enquanto aproximadamente 40% dos pagamentos são efectuados através de Terminais de Pagamento Automático (TPA). Com a indisponibilidade da rede, ambas as operações foram severamente afectadas.
Como consequência do incidente, Nelly Silva disse que registou perdas significativas de clientes e de vendas, uma vez que muitos consumidores “não conseguiram entrar em contacto com o estabelecimento nem efectuar os pagamentos pelos serviços prestados”.
Na sua avaliação, a situação teve um impacto negativo na confiança dos clientes e gerou constrangimentos para o funcionamento normal do negócio.
Especialistas alertam reforço da cibersegurança em Angola
O perito digital e director-geral da CyberSecur, Hélio Pereira, considera que o ataque cibernético que afectou a maior operadora do país deve ser encarado como um alerta para o reforço da cibersegurança no país, realçando que o incidente ultrapassa a dimensão de um problema empresarial, devido aos impactos registados em diversos sectores do país.
Segundo o especialista, as consequências da interrupção dos serviços demonstram a importância das telecomunicações como infra-estrutura crítica.
“Com preocupação, metade dos angolanos ficou sem telefonar, sem Internet e sem pagar num TPA. Houve gente que naquela noite não conseguiu chamar uma ambulância. Quando isso acontece, já não estamos a falar de um problema comercial de uma operadora”, explicou.
Segundo o especialista, os atacantes conseguem frequentemente acesso através de credenciais legítimas, muitas vezes obtidas por intermédio de fornecedores externos.
Relativamente ao horário em que esses ataques costumam ocorrer, Hélio Pereira considera que existe um padrão associado aos períodos de menor vigilância.
De acordo com perito, o que se pode dizer com prudência é que o comportamento de começar o ataque à madrugada, derrubar voz, dados e Internet, ao mesmo tempo, e demorar mais de um dia para recuperar, aponta para sistemas centrais comprometidos e não para uma sobrecarga vinda de fora.
Questionado sobre a protecção dos clientes, o especialista manifesta preocupação com a eventual exposição de dados pessoais, pois esta é a parte que preocupa mais e a que menos se discute.
Entre as medidas que considera prioritárias para evitar incidentes semelhantes, destaca a realização de uma auditoria forense independente, a separação entre a rede corporativa e os sistemas centrais da operadora, a revisão dos acessos privilegiados, a manutenção de cópias de segurança isoladas, a monitorização permanente e o reforço da formação dos profissionais.
Para o país, Hélio Pereira defende o reconhecimento das telecomunicações como infra-estrutura crítica, o reporte obrigatório de incidentes, a criação de uma equipa nacional de resposta a incidentes cibernéticos e mecanismos de emergência que permitam assegurar a continuidade das comunicações em situações de crise.
Por outro lado, o técnico de fiscalidade Osvaldo Funa disse que o ataque cibernético que afectou a UNITEL representa um sinal de alerta para a economia nacional e a necessidade de reforçar a resiliência das infra-estruturas críticas e criar planos de contingência interoperáveis entre operadoras.
Para o também economista, devido a posição dominante da UNITEL no mercado nacional, os impactos económicos de uma interrupção dessa natureza são amplificados, por ser a operadora que detém a posição dominante, com cerca de 20,8 milhões de clientes.
O economista aponta que entre os sectores mais vulneráveis, identifica a banca digital, os serviços financeiros, o comércio electrónico, as plataformas de transporte e entrega, a logística e a administração pública electrónica.
Já o informático Nkanza Geraldo Lumeca entende que a interrupção dos serviços da UNITEL é uma situação muito crítica e de extrema gravidade, apesar de muitas pessoas fora da área tecnológica poderem encarar o problema como algo simples.
Para si, uma falha desta dimensão afecta directamente as condições de trabalho, facturação das empresas, segurança dos sistemas informáticos e vários serviços essenciais no país.
Na perspetiva familiar, Nkanza Geraldo Lumeca destaca que a principal preocupação está relacionada com os dados e a comunicação, uma vez que muitas pessoas ficaram impossibilitadas de contactar familiares, instituições de saúde, serviços de viagem e outros meios importantes do dia-a-dia.
No sector empresarial, explica que a situação afecta empresas que dependem da comunicação para funcionar, incluindo a gestão de frotas, transportes, comércio electrónico, serviços de entrega e outras actividades.
A ausência de Internet móvel e comunicação com operadores dificulta a localização de viaturas, o contacto com motoristas, pagamentos e diversos processos de negócio.
“Pequenas e médias empresas são as mais vulneráveis, porque muitas não possuem Internet de banda larga ou outras alternativas de comunicação. Enquanto grandes empresas geralmente possuem mais recursos e infra-estrutura, muitos pequenos negócios localizados em zonas periféricas acabam por ficar sem meios para continuar as suas actividades”, sublinha.
Reforçou que, apesar do impacto económico elevado, a confiança dos cidadãos nos pagamentos digitais deverá continuar, pois esses serviços tornaram-se parte da realidade actual.
Contudo, considera que o incidente deve servir como uma lição sobre a necessidade de maior investimento em tecnologia, segurança informática, infra-estrutura e conhecimento digital, tanto nas empresas como na sociedade em geral. HM/QCB




