A estabilidade de preços constitui um dos principais pilares para o crescimento económico sustentável. Em economias emergentes, particularmente nas africanas, a inflação elevada e volátil tem representado um desafio recorrente para a formulação de Políticas Económicas eficazes (Ndulu et al., 2007; Reinhart & Rogoff, 2009).
Angola não foge a esta realidade. Desde meados da década de 2010, a economia atravessou sucessivos episódios de aceleração inflacionária, associados à queda do preço internacional do petróleo, à depreciação do Kwanza e às fragilidades estruturais da sua base produtiva (FMI, 2023; INE, 2024).
A inflação angolana atingiu níveis particularmente elevados em 2016 (cerca de 42%, segundo as séries revistas do INE/BNA) e voltou a acelerar em 2021 e em 2024, ano em que se fixou em torno de 27,5%.
Contudo, o biénio 2025–2026 introduz um elemento novo e relevante na trajectória da série: a inflação homóloga recuou para 15,7% em 2025 e prosseguiu uma desaceleração praticamente ininterrupta ao longo de 2026 — 12,42% em Março, 10,88% em Maio, 10,11% em Junho, cerca de 9,3% em Julho e cerca de 8,7% em Agosto de 2026 —, assinalando o vigésimo segundo mês consecutivo de abrandamento e o primeiro registo sustentado de um dígito em vários anos (INE, 2026; BNA, 2026). Esta reversão da tendência constitui o principal facto estilizado novo que esta actualização do artigo procura incorporar e discutir.
A dinâmica recente reflecte a interacção de múltiplos factores: a gestão mais prudente da liquidez monetária, a relativa estabilização cambial em 2025 (após anos de forte depreciação), a vulnerabilidade externa face aos preços do petróleo, e um ciclo de flexibilização gradual da Taxa de Juros Directora do BNA ao longo de 2025–2026 (BNA, 2023; Banco Mundial, 2023).
É de notar, adicionalmente, que a desaceleração dos preços tem coincidido com uma aceleração do ritmo de crescimento económico: segundo o INE, o PIB cresceu 5,32% em termos homólogos no primeiro trimestre de 2026 e 8,74% no segundo trimestre, impulsionado sobretudo pelos sectores Não Petrolíferos, um padrão que se afasta da leitura tradicional de trade-off entre desinflação e crescimento e que merece leitura própria nesta actualização.
Compreender estes determinantes é fundamental não apenas para a formulação de Políticas Monetárias mais eficazes, mas também para orientar reformas estruturais capazes de reduzir a vulnerabilidade da economia e consolidar simultaneamente a trajectória de desinflação e de crescimento em curso.
O presente estudo tem como objectivo central analisar empiricamente os determinantes da inflação em Angola no período 2015–2025, com leitura complementar da dinâmica de preços e de crescimento observada até Setembro de 2026. Para tal, estima-se um modelo econométrico que relaciona a inflação com o crescimento da oferta monetária (M2), a Taxa de Juros Directora e a inflação defasada, de forma a captar tanto o efeito monetário quanto a inércia inflacionária, complementado por uma leitura descritiva do novo binómio desinflação-crescimento que caracteriza 2026.
A principal contribuição desta versão actualizada do artigo é incorporar dados mais recentes — o ano de 2025, a trajectória mensal da inflação em 2026 e as taxas de crescimento trimestral do PIB em 2026 —, permitindo avaliar se os padrões identificados na literatura e nas versões anteriores do estudo se mantêm válidos perante este novo ciclo.
Revisão da Literatura
A Teoria Quantitativa da Moeda estabelece que a inflação é, no essencial, resultado do crescimento excessivo da oferta monetária (Fisher, 1911; Friedman, 1968). Abordagens alternativas, como a curva de Phillips, associam a inflação a pressões da procura e a expectativas (Lucas, 1976; Woodford, 2003). Em economias emergentes, a taxa de câmbio e os choques externos desempenham igualmente um papel fundamental (FMI, 2022).
No caso de Angola, relatórios do Banco Nacional de Angola (BNA, 2023) e do FMI (FMI, 2023) apontam para a relevância conjunta da Política Monetária e da depreciação cambial como determinantes da inflação.
Estudos semelhantes em países africanos (Nigéria, Ghana, Moçambique) reforçam a importância da inércia inflacionária (Ndulu et al., 2007).
A literatura mais recente sobre episódios de desinflação em economias exportadoras de matérias-primas sublinha ainda que processos de queda sustentada da inflação tendem a estar associados a uma combinação de âncoras nominais credíveis — cambial e monetária — com disciplina fiscal, e não apenas a um único instrumento de política (Mishkin, 2019).
Teoria Quantitativa da Moeda
A Teoria Quantitativa da Moeda (TQM), desenvolvida por Irving Fisher, parte da identidade fundamental, conforme a Equação 1 abaixo.
Onde M representa a quantidade de moeda em circulação, V a velocidade de circulação da moeda, P o nível geral de preços e Y o produto real da economia.
Os pressupostos centrais da TQM são: (i) a velocidade da moeda (V) é relativamente estável no curto prazo; (ii) o produto real (Y) é determinado por factores reais da economia (capital, trabalho e tecnologia); (iii) variações na quantidade de moeda (M) reflectem-se proporcionalmente no nível de preços (P).
A implicação central é que a inflação é essencialmente um fenómeno monetário, sobretudo quando não acompanhado por crescimento proporcional do PIB real (Friedman, 1968).
Relevância Económica para Angola
No contexto angolano (2015–2025), a oferta monetária tem crescido de forma heterogénea entre anos, reflectindo tanto necessidades de financiamento quanto decisões de gestão da liquidez bancária (BNA, 2023).
Esse crescimento monetário, num ambiente de fraca diversificação da economia e forte dependência de importações, intensificou historicamente a transmissão do mecanismo da TQM: mais moeda em circulação pressiona a procura agregada e, por consequência, os preços internos e cambiais.
Entretanto, ao contrário do pressuposto clássico de velocidade constante, em Angola a velocidade de circulação da moeda tem sido volátil, devido à dolarização parcial da economia e à confiança variável no Kwanza (FMI, 2023).
Os dados mais recentes (2023– 2025) ilustram bem esta não linearidade: o crescimento de M2 acelerou fortemente em 2023 (cerca de 37,8%) sem uma resposta inflacionária proporcional em 2024, e desacelerou de forma expressiva para cerca de 5,0% em 2024 e 8,5% em 2025, período em que a inflação, após o pico de 27,5% em 2024, recuou para 15,7% em 2025.
Este descolamento temporário entre as duas séries sugere que, embora a TQM continue a explicar em larga medida a ligação entre expansão monetária e inflação no médio prazo, a dinâmica de curto prazo em Angola exige considerar também a taxa de câmbio, as expectativas inflacionárias e a orientação activa da Política Monetária.
Abordagens Complementares sobre os Determinantes da Inflação em Angola
Embora a Teoria Quantitativa da Moeda seja um ponto de partida fundamental, diversos estudos sublinham que a inflação em economias emergentes, como a angolana, resulta de um conjunto mais vasto de factores (Ndulu et al., 2007; Sargent & Wallace, 1981; Woodford, 2003). Três dimensões complementares merecem destaque:
1.Factores fiscais: níveis de despesa pública e saldos orçamentais recorrentes, quando financiados por emissão monetária, amplificam pressões inflacionárias (Sargent & Wallace, 1981).
O saldo orçamental global angolano oscilou entre superavitário (2021–2022, impulsionado pela subida do preço do petróleo) e deficitário (2023, 2025), situando-se em cerca de −4,0% do PIB em 2025, num contexto ainda assim compatível com uma trajectória descendente da inflação, o que sugere que o financiamento desse saldo não terá recorrido de forma significativa à emissão monetária.
2.Factores cambiais: em economias fortemente importadoras, como Angola, a depreciação da moeda nacional tem efeito directo nos preços internos através da transmissão cambial (exchange rate pass-through) (FMI, 2022). Após depreciações acentuadas em 2018–2020 e em 2023–2024 (com o kwanza a depreciar-se cerca de 27% face ao dólar em 2024), o ano de 2025 regista uma estabilização relativa da taxa de câmbio (variação de apenas cerca de 5% face a 2024), o que ajuda a explicar parte da desaceleração inflacionária observada.
3.Factores estruturais e externos: choques nos preços do petróleo, volatilidade internacional e constrangimentos produtivos internos afectam a oferta agregada e, consequentemente, os preços (Reinhart & Rogoff, 2009). Neste domínio, é de assinalar a evolução recente da estrutura sectorial do PIB: o peso do sector Petrolífero caiu de cerca de 20,3% do PIB em 2023 para 13,9% em 2025, enquanto o peso da Agro-pecuária e Silvicultura subiu de 18,7% para 23,1% no mesmo período — um sinal, ainda que preliminar, de diversificação produtiva que tende a reduzir a exposição da economia a choques externos de preços.
Assim, a inflação em Angola não pode ser vista apenas como um fenómeno monetário. Esta reflecte igualmente a posição fiscal do Estado, a dependência das importações e a exposição a choques externos, elementos que justificam a inclusão de variáveis como a taxa de câmbio, o saldo orçamental e a estrutura sectorial em leituras mais abrangentes da dinâmica inflacionária.
Evidência Empírica para Angola
A Figura 1 apresenta a evolução comparada da taxa de inflação e do crescimento da oferta monetária (M2) em Angola, no período 2015–2025, com base em dados do INE e do BNA.
Observa-se uma trajectória globalmente próxima entre as duas variáveis ao longo da maior parte do período, sugerindo uma relação positiva consistente entre a expansão monetária e a dinâmica inflacionária, particularmente visível em 2016–2017 e em 2019– 2020.
Em contraste, o triénio 2023–2025 evidencia um desfasamento mais pronunciado: o forte crescimento de M2 em 2023 (37,8%) antecede o pico inflacionário de 2024 (27,5%) com uma defasagem que reforça a hipótese de inércia e de transmissão não imediata, enquanto a subsequente desaceleração monetária de 2024–2025 é acompanhada, com o desfasamento típico da literatura, pela queda da inflação para 15,7% em 2025 e para valores de um dígito ao longo de 2026.
O gráfico de dispersão (Figura 2) reforça visualmente a co-relação positiva entre as variáveis, ainda que com dispersão relevante explicada por choques externos (pandemia de Covid-19 em 2020, flutuações dos preços do petróleo em 2021–2022) e pela actuação mais activa da Política Monetária em 2024–2025.
A Figura 3 ilustra a evolução do peso relativo do sector Petrolífero e da Agro-pecuária no PIB, evidenciando o processo gradual de diversificação sectorial referido acima.
Este padrão empírico é globalmente consistente com a proposição central da Teoria Quantitativa da Moeda — o excesso de liquidez na economia angolana tende a traduzir-se em aumentos de preços, sobretudo num contexto de forte dependência de importações e baixa diversificação produtiva —, ainda que a evidência mais recente sugira uma transmissão menos mecânica e mais sensível à orientação da Política Monetária e Cambial.
Dados para o Período em Estudo
O modelo utiliza dados reais anuais de 2015 a 2025, actualizados a partir de séries do INE e do BNA:
• A inflação em Angola foi de 14,27% em 2015, atingiu um pico de 42,0% em 2016, recuou progressivamente até 7,5%–9% no biénio 2013–2014 (período pré-amostra), voltou a subir para níveis elevados em 2021 (27,0%) e em 2024 (27,5%), e caiu de forma expressiva para 15,7% em 2025, prosseguindo a desaceleração ao longo de 2026 (cerca de 8,7% em Agosto);
• A Taxa de Juros Directora do BNA evoluiu de 11% em 2015 para níveis entre 15,5% e 20% ao longo do período 2016–2024, fixando-se em 18,5% em 2025; ao longo de 2026, o BNA prosseguiu um ciclo de cortes sucessivos, reduzindo a Taxa Directora para 17,5% no início do ano, 17,0% em Maio e, mais recentemente, para 15,75%, justificando a decisão com os ganhos observados na desaceleração da inflação;
• O crescimento da oferta monetária (M2) foi particularmente elevado em 2019 (30,0%), negativo em 2021 (−9,3%) e voltou a acelerar fortemente em 2023 (37,8%), desacelerando depois para 5,0% em 2024 e 8,5% em 2025;
• O Saldo Orçamental Global oscilou entre +1,8% do PIB (2022) e −5,7% do PIB (2017), situando-se em −1,2% em 2024 e −4,0% em 2025;
• A Taxa de Câmbio (Kz/USD) depreciou-se significativamente entre 2015 e 2024 (variações anuais superiores a 25% em vários anos), tendo a variação anual moderado para cerca de 5% em 2025, o que representa uma estabilização relativa importante face ao padrão da década anterior;
• O crescimento real do PIB, que se situara em 1,32% (2023), 4,95% (2024) e 3,13% (2025), acelerou de forma expressiva em 2026, com taxas homólogas trimestrais de 5,32% (1º trimestre) e 8,74% (2º trimestre), segundo o INE, impulsionadas predominantemente pelos sectores Não Petrolíferos.
Fontes dos Dados
Inflação (IPC anual): Instituto Nacional de Estatística de Angola (INE) e Banco Nacional de Angola (BNA);
• Taxa de Juros Directora e Oferta Monetária (M2): Banco Nacional de Angola (BNA);
• Saldo Orçamental, Taxa de Câmbio e estrutura sectorial do PIB: BNA, Ministério das Finanças e dados sectoriais compilados pelo autor;
• Indicadores de 2026 (inflação homóloga mensal, decisões de Política Monetária, projecções de crescimento): comunicados oficiais do BNA, contas nacionais trimestrais do INE e imprensa económica especializada (BNA, 2026; INE, 2026a,b; Banco Mundial, 2026).
Materiais e Métodos Utilizados
Para analisar os determinantes da inflação em Angola, especifica-se o seguinte modelo de regressão linear múltipla, conforme a Equação 2:
onde: INFt é a taxa de inflação anual (IPC, em %); ∆lnM2t é a taxa de crescimento da oferta monetária (M2); it é a taxa de juros de referência (Taxa Directora do BNA); INFt−1 é a inflação defasada (capta a inércia inflacionária).
Dados para o Período em Estudo
O modelo utiliza dados reais anuais de 2015 a 2025, actualizados a partir de séries do INE e do BNA:
• A inflação em Angola foi de 14,27% em 2015, atingiu um pico de 42,0% em 2016, recuou progressivamente até 7,5%–9% no biénio 2013–2014 (período pré-amostra), voltou a subir para níveis elevados em 2021 (27,0%) e em 2024 (27,5%), e caiu de forma expressiva para 15,7% em 2025, prosseguindo a desaceleração ao longo de 2026 (cerca de 8,7% em Agosto).
• A Taxa de Juros Directora do BNA evoluiu de 11% em 2015 para níveis entre 15,5% e 20% ao longo do período 2016–2024, fixando-se em 18,5% em 2025; ao longo de 2026, o BNA prosseguiu um ciclo de cortes sucessivos, reduzindo a Taxa Directora para 17,5% no início do ano, 17,0% em Maio e, mais recentemente, para 15,75%, justificando a decisão com os ganhos observados na desaceleração da inflação.
• O crescimento da oferta monetária (M2) foi particularmente elevado em 2019 (30,0%), negativo em 2021 (−9,3%) e voltou a acelerar fortemente em 2023 (37,8%), desacelerando depois para 5,0% em 2024 e 8,5% em 2025.
• O saldo orçamental global oscilou entre +1,8% do PIB (2022) e −5,7% do PIB (2017), situando-se em −1,2% em 2024 e −4,0% em 2025.
• A taxa de câmbio (Kz/USD) depreciou-se significativamente entre 2015 e 2024 (variações anuais superiores a 25% em vários anos), tendo a variação anual moderado para cerca de 5% em 2025, o que representa uma estabilização relativa importante face ao padrão da década anterior.
• O crescimento real do PIB, que se situara em 1,32% (2023), 4,95% (2024) e 3,13% (2025), acelerou de forma expressiva em 2026, com taxas homólogas trimestrais de 5,32% (1º trimestre) e 8,74% (2º trimestre), segundo o INE, impulsionadas predominantemente pelos sectores Não Petrolíferos.
Relevância para Angola
A estimativa original (período 2015–2024) foi realizada através de Mínimos Quadrados Ordinários (MQO), complementada por um modelo ARDL (Auto-Regressive Distributed Lag) para avaliação de relações de co-integração entre inflação, M2 e taxa de juros (Pesaran, Shin & Smith).
A robustez do modelo foi avaliada através de testes de estacionaridade (ADF), autocorrelação dos resíduos (Durbin-Watson e Breusch-Godfrey), heterocedasticidade (White e Breusch-Pagan) e multicolinearidade (Variance Inflation Factor).
Nesta actualização, procedeu-se adicionalmente a uma reestimação indicativa do modelo com a amostra alargada até 2025 (n=11 observações anuais). Dada a reduzida dimensão amostral — uma limitação inerente ao uso de dados anuais, amplamente reconhecida na literatura econométrica (Wooldridge, 2016) —, os resultados desta reestimação devem ser interpretados como um exercício de robustez preliminar, e não como substituto da estimação original.
Os sinais dos coeficientes mantiveram-se globalmente consistentes com os esperados pela teoria para a relação entre M2 e inflação, mas a significância estatística individual dos coeficientes revelou-se sensível à inclusão dos anos mais recentes, em particular ao ano de 2025, marcado por uma ruptura estrutural na relação entre crescimento monetário e inflação.
Este resultado é, em si, informativo: sugere que o processo de desinflação em curso não decorre apenas da desaceleração de M2, mas também da actuação mais activa da Política Monetária e da maior estabilidade cambial, factores que um modelo linear simples de três variáveis não capta integralmente.
Recomenda-se, para trabalho futuro, a utilização de dados de maior frequência (mensal ou trimestral) e a extensão do modelo a variáveis cambiais e fiscais, de forma a permitir uma reestimação plenamente robusta do período 2015–2025.
Resultados e Discussão
A estimação original pelo método de Mínimos Quadrados Ordinários (MQO), para o período 2015–2024, forneceu os resultados resumidos na Tabela 1, confirmando os sinais esperados para as variáveis monetárias e de inércia inflacionária.
Testes de Diagnóstico do Modelo
Para validar a robustez da regressão, aplicaram-se testes clássicos da literatura econométrica:
1. Teste de estacionaridade (ADF): as séries de inflação, crescimento de M2 e taxa de juros foram submetidos ao teste de Dickey–Fuller aumentado (Dickey & Fuller, 1979; Said & Dickey, 1984). Os resultados rejeitaram a hipótese nula de raiz unitária em primeira diferença, confirmando que as variáveis são integradas de ordem 1 (I(1)).
2. Autocorrelação dos resíduos: o teste de Durbin–Watson (Durbin & Watson, 1951) apresentou estatística próxima de 2, sugerindo ausência de autocorrelação de primeira ordem; o teste de Breusch–Godfrey (Godfrey, 1978) confirmou a ausência de autocorrelação serial de ordem superior.
3. Heterocedasticidade: os testes de White (White, 1980) e de Breusch–Pagan (Breusch & Pagan, 1979) não indicaram heterocedasticidade estatisticamente significativa.
4. Multicolinearidade: o cálculo do Variance Inflation Factor (VIF) (Gujarati & Porter, 2011; Wooldridge, 2016) mostrou valores abaixo de 5, sugerindo ausência de co-linearidade preocupante entre as regressoras — resultado confirmado no exercício de robustez com a amostra alargada até 2025 (VIF máximo de 1,7).
5. Elasticidades: o coeficiente associado a ∆lnM2 indica que um aumento de 1 p.p. no crescimento da oferta monetária se traduz, em média, num aumento positivo na inflação, embora de magnitude moderada. A elasticidade da inflação defasada revelou, no período 2015-2024, forte persistência inflacionária, confirmando inércia de preços — persistência que a queda acentuada da inflação em 2025 vem, no entanto, atenuar;
6. Robustez via ARDL: utilizando o modelo ARDL proposto por Pesaran (Shin & Smith), verificou-se co-integração de longo prazo entre inflação, M2 e Taxa de Juros no período 2015–2024. Os efeitos de curto prazo foram significativos, sobretudo para M2, enquanto a Taxa de Juros apresentou impacto limitado, um padrão coerente com a fraca profundidade financeira do Sistema Bancário angolano.
Os resultados obtidos confirmam que a inflação em Angola, no período 2015–2024, foi fortemente determinada pela expansão da oferta monetária (M2) e pela inércia inflacionária. O coeficiente positivo e significativo de M2 está em linha com a Teoria Quantitativa da Moeda (TQM), que prevê uma relação directa entre crescimento monetário e nível de preços.
A evolução empírica dos dados mostra que anos de maior crescimento da massa monetária, como 2016, 2021, 2023 e 2024, coincidiram com picos inflacionários ou antecederam-nos com o desfasamento típico de mecanismos de transmissão monetária.
A presença de inércia inflacionária, captada pela variável defasada da inflação, indica que os choques de preços em Angola tenderam, ao longo da maior parte do período, a persistir no tempo, criando um ciclo de difícil contenção.
Este resultado é consistente com a realidade angolana, onde os agentes económicos formam expectativas com base no histórico inflacionário elevado e na volatilidade cambial, resultando em mecanismos de indexação informal de preços. Por outro lado, a Taxa de Juros Directora mostrou-se, no período 2015–2024, estatisticamente pouco significativa, sugerindo que o canal dos juros ainda não constituía, nesse horizonte, um instrumento plenamente eficaz de Política Monetária no país. Isso pode ser explicado por três factores principais:
(i) a baixa profundidade e intermediação do Sistema Financeiro, que limita a transmissão das Taxas de Juros para a economia real;
(ii) a manutenção de taxas reais negativas em vários anos, reduzindo o poder de ancoragem das expectativas;
(iii) a forte dolarização parcial da economia, que enfraquece a relevância da Política Monetária, baseada exclusivamente em kwanzas.
Actualização e Dinâmica Económica Recente (2025–2026)
A actualização dos dados até 2025, complementada por indicadores mensais e trimestrais de 2026, introduz um elemento relevante de leitura: o início de um processo consistente de desinflação, que contrasta com a persistência inflacionária dominante no essencial do período 2015–2024. Vários elementos ajudam a explicar esta inflexão, sem que tal implique uma ruptura com o quadro teórico adoptado no estudo:
• Desaceleração e maior estabilidade do crescimento monetário: após o pico de 37,8% em 2023, o crescimento de M2 recuou para 5,0% em 2024 e situou-se em 8,5% em 2025, um perfil mais moderado e estável do que o observado em anos anteriores.
• Ciclo de ajustamento da Taxa de Juros Directora: a Taxa Directora do BNA, que se situava em 19,5% em 2024 e 18,5% em 2025, prosseguiu em 2026, um ciclo de reduções sucessivas, passando por 17,5%, no início do ano, 17,0% em Maio e situando-se mais recentemente em 15,75%, acompanhando a trajectória descendente da inflação e reforçando a credibilidade da âncora monetária (BNA, 2026). O próprio BNA reviu em baixa a sua projecção de inflação para o fim de 2026, de valores próximos de 13,5% para cerca de 8,6%, sinal de maior confiança na consolidação do processo desinflacionário.
• Maior estabilidade cambial relativa: a variação anual da taxa de câmbio Kz/USD, que ultrapassara 25% em vários anos do período 2018–2024, moderou para cerca de 5% em 2025, atenuando a transmissão cambial para os preços internos.
• Sinais de diversificação sectorial: o peso do sector Petrolífero no PIB recuou de 20,3% (2023) para 13,9% (2025), com o crescimento nominal expressivo da Agro-pecuária e Silvicultura (cujo peso no PIB subiu de 18,7% para 23,1% no mesmo período), reduzindo, ainda que de forma incipiente, a exposição da economia a choques externos de preços das matérias-primas.
A Figura 4 ilustra a trajectória mensal da inflação homóloga ao longo de 2026, evidenciando um abrandamento praticamente contínuo, com a taxa a aproximar-se da meta de 13,7%, fixada no Orçamento Geral do Estado para 2026 já no primeiro trimestre e a ultrapassá-la, em sentido descendente, a partir de meados do ano.
Em conjunto, estes elementos sugerem que a desinflação observada em 2025–2026 resulta da actuação combinada de vários instrumentos e não de um único factor, confirmando a leitura central deste estudo: a inflação em Angola deve ser interpretada como fenómeno multifactorial, no qual a disciplina monetária, a estabilidade cambial, a coordenação fiscal e a diversificação estrutural desempenham papéis complementares. A trajectória recente constitui, nesse sentido, um caso ilustrativo de como a articulação destes factores pode reverter, de forma relativamente célere, um padrão de inércia inflacionária historicamente persistente.
Taxas de Crescimento Mais Recentes: o Binómio Desinflação e Crescimento
Um elemento novo e particularmente relevante desta actualização é a leitura conjunta da desinflação com a aceleração do crescimento económico real, factos que, à luz da experiência angolana anterior, frequentemente marcada por um trade-off entre estabilização de preços e actividade económica, mereciam habitualmente sentidos opostos.
Segundo os dados do INE, o PIB angolano registou um crescimento homólogo de 5,32% no primeiro trimestre de 2026 e de 8,74% no segundo trimestre, em ambos os casos impulsionado predominantemente pelos sectores Não Petrolíferos.
Para o conjunto do ano, o BNA projecta um crescimento real do PIB de cerca de 4,6%, decompondo-se em aproximadamente 4,5% para o sector Não Petrolífero e 1,1% para o sector Petrolífero, este último a registar, ainda assim, uma variação positiva após anos de contracção ou estagnação da produção de crude.
Refira-se que projecções anteriores de organismos multilaterais, nomeadamente do Banco Mundial, apontavam para um crescimento mais moderado (entre 2,4% e 2,6%) para 2026; a diferença, face às estimativas mais recentes do BNA reflecte, em parte, o desfasamento temporal entre exercícios de projecção e a revisão em alta, motivada pelo desempenho observado nos primeiros dois trimestres do ano.
A Figura 5 compara o crescimento real anual do PIB em 2023-2025, com o crescimento homólogo registado nos dois primeiros trimestres de 2026, evidenciando a aceleração recente.
Do ponto de vista da Teoria Quantitativa da Moeda, este padrão é compatível com a leitura de que a desaceleração da inflação não decorreu de uma contracção da procura agregada (o que seria expectável num processo desinflacionário assente exclusivamente na restrição monetária), mas antes de uma combinação de maior disciplina na expansão de M2, estabilização cambial e ganhos de produtividade e de oferta associados à diversificação sectorial, factores do lado da oferta que permitem compatibilizar preços mais estáveis com um ritmo de crescimento mais elevado.
Esta leitura reforça, nesta actualização, a conclusão central do estudo de que a inflação angolana, e, por extensão, a sua desinflação resulta de determinantes multifactoriais, e não apenas do canal monetário estrito.
Implicações para a Política Económica
Os dados sugerem que a inflação angolana não pode ser combatida apenas com política de juros, devendo incluir:
• Maior disciplina fiscal, para reduzir a necessidade de financiamento monetário do saldo orçamental, sobretudo em anos de saldo negativo como 2025;
• Gestão prudente da liquidez monetária, de forma a alinhar o crescimento da base monetária ao crescimento do PIB real, num quadro semelhante ao observado em 2024-2025;
• Continuidade do fortalecimento do regime cambial, dado que a maior estabilidade da taxa de câmbio, observada em 2025, se revelou um factor relevante na desaceleração inflacionária;
• Prosseguimento das medidas estruturais de diversificação da economia e redução da dependência de importações, apoiando-se nos sinais já observados de maior peso da Agro-pecuária no PIB e na aceleração do crescimento não petrolífero registada em 2026;
• Manutenção de uma comunicação clara sobre a trajectória da Política Monetária, de forma a consolidar a credibilidade adquirida com o ciclo de desinflação em curso e a ancorar as expectativas dos agentes económicos, aproveitando a janela criada pela aproximação, e posterior superação, da meta de inflação de 13,7% fixada no Orçamento Geral do Estado para 2026;
• Acompanhamento próximo da composição do crescimento observado nos dois primeiros trimestres de 2026, de forma a assegurar que a expansão liderada pelo sector Não Petrolífero se consolida de forma sustentável, sem reabrir pressões inflacionárias pelo lado da procura.
A análise confirma que a inflação em Angola é simultaneamente um fenómeno monetário e estrutural, exigindo uma combinação de Políticas Monetárias adequadas, coordenação fiscal e reformas estruturais para garantir estabilidade macroeconómica sustentável.
A trajectória de desinflação observada em 2025-2026, acompanhada por uma aceleração do crescimento real, liderada pelo sector Não Petrolífero, constitui um indicador encorajador da eficácia desta abordagem integrada, sem prejuízo da necessidade de consolidação e monitorização contínua, dado o historial de reversões inflacionárias registado no período em análise.
Conclusões e Recomendações
O s resultados apontam que a inflação em Angola, no período 2015–2024, foi determinada principalmente por factores monetários e de inércia inflacionária, num quadro consistente com a Teoria Quantitativa da Moeda. A actualização do estudo com dados de 2025 e com indicadores mensais e trimestrais de 2026 revela, contudo, uma inflexão relevante: um processo de desinflação sustentada — que reduziu a inflação homóloga de 27,5% (2024) para 15,7% (2025) e, ao longo de 2026, para cerca de 8,7% em Agosto (o vigésimo segundo mês consecutivo de abrandamento) — surge acompanhado, pela primeira vez em muitos anos, de uma aceleração do crescimento económico real, com o PIB a expandir-se 5,32% e 8,74% em termos homólogos no primeiro e no segundo trimestres de 2026 respectivamente e com o
BNA a projectar um crescimento anual próximo de 4,6% para o conjunto do ano. Este binómio de desinflação e crescimento, apoiado num ciclo de redução gradual da Taxa de Juros Directora (de 19,5% em 2024 para 15,75% mais recentemente) e por maior estabilidade cambial, constitui o principal facto novo identificado nesta actualização do estudo.
Recomenda-se:
• Reforço da credibilidade da Política Monetária, capitalizando os ganhos já alcançados na desaceleração da inflação;
• Controlo rigoroso e previsível do crescimento da oferta monetária, evitando novos episódios de aceleração como o observado em 2023;
• Coordenação continuada entre Política Fiscal e Monetária, com particular atenção ao financiamento do saldo orçamental;
• Monitorização sistemática das expectativas inflacionárias, de forma a consolidar a ancoragem alcançada;
• Aprofundamento do processo de diversificação sectorial da Economia, com vista a reduzir de forma duradoura a exposição a choques externos de preços de matérias-primas.
Como limitação do presente estudo, e agenda para investigação futura, recomenda-se a utilização de dados de maior frequência (mensal ou trimestral) para permitir uma reestimação plenamente robusta do modelo no período alargado até 2015–2026, bem como a extensão da especificação a variáveis cambiais e fiscais de forma explícita, dado o papel que estas parecem ter desempenhado na recente trajectória de desinflação.
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