Empresa israelita associada a operações de influência político-eleitoral em Angola sob investigação em França

Uma empresa israelita identificada pelas autoridades francesas como tendo desenvolvido operações de influência digital em Angola encontra-se sob investigação em França por alegadas acções de interferência político-eleitoral, revelou o jornal francês Le Monde.
A empresa, denominada BlackCore, é apontada pela agência francesa Viginum — organismo responsável pelo combate à interferência digital estrangeira — como estando ligada a campanhas de manipulação de informação durante processos eleitorais em território francês.
Segundo o Le Monde, as conclusões preliminares dos investigadores indicam que a BlackCore integra uma estrutura especializada em operações de influência digital, recorrendo a redes de contas falsas, campanhas coordenadas nas redes sociais e outras ferramentas destinadas a moldar o debate público em diferentes países.
Nos documentos analisados pelas autoridades francesas, Angola surge entre os países onde a empresa terá desenvolvido actividades ligadas à gestão de narrativas políticas e influência digital. Embora o relatório não detalhe a natureza exacta das operações alegadamente realizadas em território angolano, a referência ao País despertou particular atenção junto dos investigadores.
As revelações surgem numa altura em que cresce a preocupação internacional com a utilização de empresas privadas para influenciar processos políticos, eleitorais e de comunicação estratégica em várias regiões do mundo, particularmente em África.
De acordo com o Le Monde, as autoridades francesas acreditam que a BlackCore poderá fazer parte de uma rede mais vasta de empresas e subcontratadas especializadas em operações de influência, circunstância que tem dificultado a identificação dos verdadeiros financiadores e beneficiários das campanhas sob investigação.
Fontes ligadas ao processo, citadas pelo jornal francês, indicam que os investigadores trabalham com a hipótese de existirem múltiplos actores envolvidos nas operações, incluindo estruturas tecnológicas privadas com capacidade para actuar simultaneamente em diferentes países.
Nos bastidores, o aparecimento do nome de Angola no processo francês está a gerar interrogações sobre a dimensão das operações de influência digital que poderão ter ocorrido no espaço político angolano nos últimos anos, sobretudo num contexto em que as redes sociais assumem um papel cada vez mais relevante na formação da opinião pública.
Até ao momento, não foram divulgadas conclusões públicas que permitam estabelecer qualquer impacto directo dessas alegadas operações nos resultados eleitorais angolanos. Ainda assim, o caso coloca Angola no centro de uma investigação internacional que está a expor os métodos utilizados por empresas privadas na nova guerra global pela informação.
A BlackCore apagou entretanto a sua presença digital após o início das revelações da imprensa internacional, enquanto as autoridades francesas prosseguem as diligências para determinar quem financiou e coordenou as operações atribuídas à empresa.
Recorde-se que está em curso, em Luanda, o julgamento de cidadãos russos acusados pelo Ministério Público de envolvimento em operações de influência política e comunicacional no País. Apesar de não existir qualquer elemento público que estabeleça ligação entre os dois casos, ambos expõem um fenómeno cada vez mais presente nos bastidores da política internacional: a utilização de estruturas privadas, tecnologia e campanhas digitais para influenciar percepções, agendas e narrativas políticas.


