Lubango – Um estudo científico, defendido em tese de mestrado na semana passada na Faculdade de Economia da Universidade Mandume ya Ndemufayo, sugere a implantação de infra-estruturas de apoio ao turista, para transformar a Fenda da Tundavala num produto turístico de valor.
Lubango – Um estudo científico, defendido em tese de mestrado na semana passada na Faculdade de Economia da Universidade Mandume ya Ndemufayo, sugere a implantação de infra-estruturas de apoio ao turista, para transformar a Fenda da Tundavala num produto turístico de valor.
Trata-se de uma tese de Mestrado em Empreendedorismo e Desenvolvimento de Negócios, do académico Osvaldo José Lunda António, com o título “O turismo em Angola - O caso específico do planeamento turístico da Fenda da Tundavala”, cuja dissertação foi feita na Faculdade de Economia da Universidade Mandume ya Ndemufayo na semana passada, com a classificação qualitativa de “Muito Bom”.
Em entrevista hoje, terça-feira à ANGOP, a partir de Lisboa onde reside, o académico angolano assinala que o principal problema da Tundavala não é a falta de potencial turístico, mas a necessidade de transformá-lo num produto turístico planeado, organizado e sustentável.
O estudo, segundo o mestre, demonstra que possuir um recurso natural excepcional não é suficiente para constituir um destino turístico, pelo que é importante o planeamento, governação, infra-estruturas adequadas, conservação ambiental, participação das comunidades e capacidade de transformar a visita em valor económico e social para o território.
Osvaldo Lunda, que foi director da Hotelaria e Turismo da Huíla (2017-2025), admitiu que esse activo possui um elevado valor paisagístico, ambiental, cultural e simbólico, sendo um dos recursos turísticos mais emblemáticos da Huíla, contudo ainda acumula um desfasamento significativo entre o potencial e as condições existentes para a sua afirmação como destino turístico estruturado.
Entre os principais constrangimentos, o investigador destaca a ausência de um instrumento específico e integrado de planeamento turístico para a Tundavala, associada a fragilidades na articulação entre as diferentes instituições com responsabilidades sobre o território.
Para ele, essa situação dificulta a definição de prioridades, a coordenação das intervenções e a continuidade das políticas de valorização turística.
Explicou que o estudo identificou limitações a nível das infra-estruturas, equipamentos e serviços de apoio ao visitante, bem como uma oferta turística ainda pouco estruturada.
“A Tundavala continua, em grande medida, a ser visitada como um ponto de contemplação da paisagem, sem que todo o seu potencial seja convertido numa experiência turística organizada, capaz de estimular maior permanência dos visitantes e gerar benefícios económicos para o território”, argumentou o entrevistado.
A tese revela que um outro problema relevante prende-se com a participação reduzida das comunidades locais na cadeia de valor do turismo.
Nesta senda, assinalou que a valorização turística da zona não deve ser realizada apenas com investimentos físicos, mas olhar em oportunidades para a população circundante, mediante acções de prestação de serviços, no empreendedorismo, no artesanato, na gastronomia, na interpretação do património e noutras actividades associadas ao turismo.
O estudo identificou ainda desafios relacionados com a conservação ambiental, gestão de resíduos, ordenamento da utilização turística e necessidade de mecanismos permanentes de monitorização, sobretudo considerando que um eventual aumento da procura turística poderá exercer maior pressão sobre um espaço ambientalmente sensível.
Como resposta aos problemas identificados, a dissertação propõe a elaboração e implementação de um modelo estratégico de planeamento turístico para a Fenda da Tundavala, capaz de transformar o actual recurso turístico de elevado valor paisagístico num destino organizado, sustentável e competitivo.
Esse protótipo deverá assentar numa governação colaborativa, envolvendo a administração pública, autoridades provinciais e locais, entidades responsáveis pelo turismo e ambiente, sector privado, comunidades e outros atores interessados, com o objectivo é reduzir a fragmentação institucional e estabelecer responsabilidades claras na gestão do destino.
Ao nível das infra-estruturas, recomenda uma intervenção orientada pelos princípios da sustentabilidade e da integração paisagística, privilegiando equipamentos e serviços efectivamente necessários à experiência do visitante sem descaracterizar o património natural da Tundavala.
A investigação aconselha, também, a integração efectiva das comunidades locais na actividade turística, através da formação, capacitação, estímulo ao empreendedorismo e criação de oportunidades económicas associadas à cadeia de valor do turismo.
No domínio ambiental, propõe o estabelecimento de mecanismos de conservação, ordenamento, controlo e monitorização da actividade turística, incluindo medidas relacionadas com resíduos, circulação de visitantes e protecção das áreas mais sensíveis.
Apela ainda para a importância de a Tundavala deixar de ser promovida isoladamente apenas como um ponto paisagístico e seja integrada numa oferta turística mais ampla da Huíla e da Região Turística Sul, articulando natureza, cultura, património, gastronomia e outros recursos do território.
Por dentro do fenómeno geológico
A 18 quilómetros do Lubango, ergue-se um dos cenários naturais mais impressionantes de Angola, a Fenda da Tundavala, um gigantesco corte na montanha marca o limite ocidental do Planalto Central e oferece uma das vistas mais dramáticas do país.
Geólogos consideram a zona uma das mais significativas fracturas naturais do território angolano, testemunho de movimentos tectónicos e erosões que remontam a eras pré-históricas.
Entre as narrativas mais marcantes está a ideia de que a Tundavala funcionou como um tribunal natural. Tribos locais acreditavam que o abismo permitia separar o justo do injusto, o puro do impuro. Os condenados por crimes graves, desde roubos a actos de feitiçaria, eram levados até ao topo da falésia e, segundo a tradição, lançados para a escuridão.
Diz-se que muitos espíritos permaneceram ali, agarrados às paredes rochosas, perpetuando um lamento que ainda hoje se mistura ao sopro do vento. Para alguns habitantes locais visitar a Tundavala é também um acto de respeito, um gesto silencioso perante um passado que nunca desapareceu por completo.
A zona tornou-se também um espaço privilegiado para actividades de ecoturismo, desportos de parapente, fotografia de paisagem, observação geológica e até práticas de desporto radical. Além disso, o miradouro tem-se afirmado como ponto de encontro cultural, onde visitantes se cruzam com histórias locais e tradições orais que continuam vivas.
Trata-se de um enorme abismo de cerca de mil e 200 metros. É nos penhascos da Tundavala que termina o Planalto Central de Angola, local onde este excede os dois mil e 200 metros de altitude e cai abruptamente para cerca de mil metros.
É mais uma das Sete Maravilhas Naturais de Angola, em que a partir do topo é possível ter a visão de terras que se encontram a uma distância de milhares de dezenas de quilómetro, com particular realce ao município da Bibala (Namibe).
Outros estudos revelam que a Tundavala existe há milhares de ano, e no início de sua existência, antes da quarta era geológica que deu a configuração actual do mundo, esse lugar estava submerso no oceano. MS




