A economia angolana registou em Julho de 2026 uma inflação de um dígito, um resultado que não era observado desde 2012, e que representa um dos marcos mais relevantes do processo de estabilização macroeconómica do país.
A taxa de inflação anual situou-se em 9,33%, reflectindo uma trajectória consistente de desaceleração dos preços e evidenciando os resultados das políticas económicas implementadas nos últimos anos.
Este desempenho resulta da conjugação de diversos factores, com destaque para a condução prudente da Política Monetária, a consolidação fiscal, o aumento da oferta interna de bens essenciais, a melhoria da cadeia de distribuição e a implementação de reformas orientadas para o fortalecimento do sistema financeiro nacional.
A estabilidade de preços constitui a principal missão do BNA, nos termos da Lei n.º 24/21, de 18 de Outubro. Neste sentido, a convergência da inflação para níveis inferiores a 10% representa não apenas um resultado estatístico relevante, mas também um sinal da crescente eficácia das políticas adoptadas para assegurar a estabilidade macroeconómica.
INFLAÇÃO REGRESSA A UM DÍGITO APÓS MAIS DE UMA DÉCADA
Após o alcance da paz em 2002, Angola registou um período de crescimento económico sustentado pelo aumento das receitas petrolíferas, pela acumulação de reservas internacionais e pela relativa estabilidade cambial, factores que contribuíram para a redução gradual da inflação.
Contudo, a partir de 2014, a queda dos preços internacionais do petróleo provocou uma redução significativa das receitas externas, originando fortes pressões sobre o mercado cambial e sobre os preços internos.
A depreciação da moeda nacional, associada à elevada dependência de importações e às limitações da capacidade produtiva interna, contribuiu para o agravamento das pressões inflacionistas. Entre 2016 e 2021, a inflação manteve-se em níveis elevados, tendo atingido 41,13% no final de 2016. Durante este período, a economia enfrentou diversos desafios, incluindo ajustamentos cambiais, aumento dos preços administrados, os efeitos da pandemia de Covid-19 e as perturbações nas cadeias mundiais de abastecimento.
A partir de 2022, iniciou-se uma trajectória consistente de desinflação, sustentada pela melhoria progressiva do ambiente macroeconómico e pelo reforço da eficácia da Política Monetária. Neste processo, a actuação do BNA desempenhou um papel central, através de uma gestão prudente da liquidez e da utilização da taxa directora como principal instrumento de ancoragem das expectativas dos agentes económicos. Estas medidas contribuíram para moderar a procura agregada (restringir o excesso de liquidez), conter as pressões sobre o mercado cambial e reforçar a credibilidade da Política Monetária. Adicionalmente, a moderação das pressões inflacionistas externas também contribuiu para a trajectória descendente da inflação, reflectindo o peso ainda relevante dos bens importados na economia angolana.
Esta trajectória culminou em Julho de 2026 com a redução da inflação para 9,33%, representando uma desaceleração acumulada de 31,80 pontos percentuais (pp) face ao pico observado em 2016.
Trata-se, igualmente, do valor mais baixo registado desde a introdução do Índice de Preços no Consumidor Nacional (IPCN). Neste contexto, o resultado evidencia avanços importantes no processo de estabilização macroeconómica e sugere uma maior eficácia do quadro de políticas económicas adoptado nos últimos anos, reforçando a confiança dos agentes económicos, criando condições mais favoráveis ao investimento e ao crescimento sustentável. A eficácia das medidas adoptadas foi acompanhada por um fortalecimento gradual da credibilidade institucional do BNA, que resultou da consistência entre os objectivos anunciados e os resultados alcançados, a adopção de uma postura monetária prudente e da consolidação da transparência e da comunicação com o mercado através dos comunicados do Comité de Política Monetária, dos relatórios de análise e conjuntura económica e financeira, bem como da divulgação regular das decisões de Política Monetária, por via de conferências de imprensa.
O aumento da credibilidade do BNA reflectiu-se na progressiva ancoragem das expectativas dos agentes económicos e na redução da volatilidade cambial.
Não obstante os progressos alcançados, a preservação deste resultado dependerá da capacidade de manter a estabilidade macroeconómica, aprofundar as reformas estruturais, reforçar a diversificação da economia e continuar a melhorar os mecanismos de transmissão da Política Monetária.
SALDO DA CONTA DE BENS DA BALANÇA DE PAGAMENTOS REGISTA SUPERÁVIT DE 11,34 MIL MILHÕES DE DÓLARES
No primeiro semestre de 2026, segundo dados preliminares, o saldo da Conta de Bens da Balança de Pagamentos registou um superávit de 11,34 mil milhões de dólares, o que representa um aumento de 41,92% face aos 7,99 mil milhões de dólares registado no mesmo período de 2025. O desempenho da Conta de Bens resultou do aumento das receitas de exportação em 28,87%, decorrente do incremento das receitas de petróleo bruto, como consequência do aumento do preço de petróleo.
No período em análise, registou-se um aumento das importações de 14,23%, explicado pelo aumento das importações de com bustíveis. Relativamente aos bens alimentares, registou uma diminuição de 11,69%. A redução da importação de produtos alimentares essenciais para o consumo final foi de 20%, como resultado do aumento da produção interna desses bens, o que tem contribuído para a desaceleração do ritmo de crescimento de preços.
ANGOLA REGISTA MELHORIA CONSISTENTE DO INVESTIMENTO DIRECTO ESTRANGEIRO
No que se refere aos fluxos da conta financeira da balança de pagamentos, o país tem observado uma melhoria consistente do Investimento Directo Estrangeiro (IDE) com uma contribuição importante do sector Não Petrolífero. Após vários anos de saldo negativo, ou seja, fluxos de entrada inferiores aos de saída, em 2025, registou-se um saldo positivo do IDE de 2,09 mil milhões de dólares, face ao saldo negativo de 1,14 mil milhões de 2024, justificado tanto pela contracção dos fluxos de recuperação (cost oil) em cerca de 20,10%, quanto pelo crescimento de 171,39% do IDE no sector Não Petrolífero, ao passar de 353,50 milhões de dólares para 959,36 milhões de dólares em 2025. No primeiro semestre de 2026, registou-se, igualmente, um saldo positivo de 739,17 milhões de dólares, como resultado de entradas estimadas em 5,47 mil milhões e saídas em 4,73 mil milhões de dólares.
Conceptualmente, os fluxos de saída de investimento não significam necessariamente desinvestimentos, pois existe a recuperação de investimento no sector Petrolífero nos termos da legislação em vigor no país, devido à necessidade de estimular o sector com incentivos para a atracção de investimentos. Deste modo, as companhias mobilizam ingressos de fundos para investimentos nas fases de pesquisa, desenvolvimento e exploração de petróleo e gás, o que demanda capitais intensivos. Como consequência, para garantir a consistência e manutenção dos investimentos, as companhias têm a prerrogativa de recuperar, por meio de barris de petróleo, o investimento realizado, ficando as infra-estruturas para o país. Para além da recuperação do IDE no sector Petrolífero, as saídas contemplam, igualmente, o investimento angolano no exterior, por exemplo, investimento no mercado imobiliário, investimentos em acções e participações. Os fluxos de entrada de IDE para o sector Não Petrolífero tem estado a impactar positivamente o crescimento da economia, com maior incidência para os investimentos na Indústria Transformadora, Agricultura, Construção, Comércio, Transportes, Prestação de Serviços, Sector Financeiro e Sector Mineiro.
Os referidos fluxos aliados aos do sector Petrolífero e Mineiro têm estado a contribuir no aumento da oferta regular de moeda estrangeira no mercado cambial, sendo que, no primeiro semestre de 2026, a compra regular de divisas pelos bancos comerciais registou um crescimento de 6,04% face ao mesmo período de 2025.
CRÉDITO À ECONOMIA REFORÇA CAPACIDADE PRODUTIVA
A estabilidade de preços não depende exclusivamente da contenção da procura agregada. Em economias caracterizadas por elevada dependência de importações, o fortalecimento da oferta interna de bens e serviços assume, igualmente, um papel determinante na redução das pressões inflacionistas.
Com este objectivo, o Banco Nacional de Angola tem vindo a implementar instrumentos destinados a promover o financiamento da economia real e estimular o investimento produtivo.
Neste contexto, destacam-se os Avisos n.º 10/202 e n.º 09/2024, que introduziram mecanismos de incentivo ao financiamento dos sectores produtivos prioritários da Economia nacional e da Habitação, da Construção de Imóveis Habitacionais, do Turismo, da Restauração.
Os resultados alcançados demonstram a importância destes instrumentos para o desenvolvimento económico. No segundo trimestre de 2026, o Stock de Crédito concedido ao abrigo do Aviso n.º 10/2024 atingiu 1,40 bilião de kwanzas, representando um crescimento de 9,29% em termos homólogos. Estes financiamentos contribuíram para a criação de 85 638 postos de trabalho e apresentou uma taxa de crédito malparado de 4,11%, evidenciando a qualidade da carteira financiada.
A distribuição sectorial do crédito demonstra, igualmente, o seu contributo para o reforço da capacidade produtiva nacional. As Indústrias Transformadoras absorveram 56,52% do financiamento concedido, seguindo-se as Indústrias Extractivas com 22,48% e a Agricultura com 21%.
Por sua vez, o crédito concedido ao abrigo do Aviso n.º 09/2024 atingiu 102 mil milhões de kwanzas, no segundo trimestre de 2026, representando cerca de 36,24% do crédito disponibilizado para habitação no sistema financeiro.
Ao estimular a produção nacional e aumentar a capacidade de resposta da economia à procura interna, estes instrumentos contribuem para mitigar constrangimentos estruturais e apoiar a estabilidade dos preços no médio e longo prazo.
INCLUSÃO FINANCEIRA FORTALECE A EFICÁCIA DA POLÍTICA MONETÁRIA
O aprofundamento da inclusão financeira constitui outro elemento relevante para o fortalecimento da estabilidade macroeconómica.
Quanto maior for o acesso das famílias e das empresas aos produtos e serviços financeiros formais, maior será o impacto das decisões de Política Monetária, produzindo efeitos sobre o crédito, os níveis de liquidez e a actividade económica.
Nos últimos anos, foram registados avanços significativos neste domínio, impulsionados pela expansão dos serviços bancários, pela digitalização dos meios de pagamento e pela implementação da Estratégia Nacional de Inclusão Financeira (ENIF).
O Índice de Inclusão Financeira aumentou de 49,97% em 2025 para 54,80% em 2026, reflectindo uma expansão gradual do acesso aos serviços financeiros formais. Paralelamente, observou-se um crescimento expressivo da utilização dos canais digitais de pagamento, com destaque para as transferências instantâneas KWiK, os pagamentos por Código QR e o canal Multicaixa Express.
A utilização crescente dos meios electrónicos de pagamento também se reflecte no volume de operações processado pelo sistema financeiro nacional.
No mês de Julho de 2026, foram realizadas mais de 190 milhões de operações electrónicas, correspondentes a um montante superior a 8 biliões de kwanzas. Estes avanços contribuem para reforçar a intermediação financeira e aumentar a eficácia da transmissão das decisões de Política Monetária aos diferentes segmentos da actividade económica.
INTEGRAÇÃO REGIONAL REFORÇA O PAPEL DO KWANZA
Um marco, igualmente, relevante para o desenvolvimento do sistema financeiro nacional foi a integração do kwanza no Sistema de Liquidação a Bruto em Tempo Real da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC-RTGS), formalizada em Julho de 2026.
A adesão ao sistema permitirá que empresas e instituições realizem, através dos seus bancos, pagamentos transfronteiriços directamente em moeda nacional nas transacções com os países participantes, reduzindo custos operacionais, aumentando a rapidez das liquidações e promovendo uma maior integração financeira regional.
Para além dos ganhos operacionais, a participação do Kwanza no SADC-RDGS contribui para reforçar a confiança na moeda nacional, fortalecer a credibilidade institucional do Banco Nacional de Angola e aprofundar os mecanismos de transmissão da Política Monetária.
A modernização das infra-estruturas de pagamentos representa, assim, um passo importante para a construção de um sistema financeiro mais eficiente, inclusivo e integrado com os mercados da região.
PERSPECTIVAS DA ESTABILIZAÇÃO ECONÓMICA
O regresso da inflação a níveis de um dígito constitui um sinal encorajador dos progressos alcançados pela economia angolana no processo de estabilização macroeconómica.
A redução das pressões inflacionistas, o fortalecimento do financiamento à economia real, o aprofundamento da inclusão financeira e a modernização dos sistemas de pagamentos demonstram os avanços registados no reforço das instituições económicas e financeiras do nosso país.
A preservação destes resultados exigirá, contudo, a continuidade das políticas orientadas para a estabilidade macroeconómica, o aprofundamento das reformas estruturais, a diversificação da economia e o aumento da produtividade nacional.
A consolidação destes ganhos deverá traduzir-se em benefícios crescentes para as famílias e empresas, através da protecção do poder de compra, da redução da incerteza económica, da expansão das oportunidades de financiamento e da criação de condições mais favoráveis ao investimento, ao emprego e ao crescimento económico sustentável. &




