Não é só parceria de negócios: Sonangol detém fatia milionária na Galp

Numa altura em que se multiplicam os sinais de reaproximação entre as duas petrolíferas, a Sonangol confirmou, à margem da quarta edição da Conferência Doing Business Angola, realizada recentemente em Lisboa, que a Galp prepara um novo ciclo de investimento em Angola, em parceria com a petrolífera angolana, nas áreas de exploração e produção de petróleo.
A revelação coube ao presidente do Conselho de Administração da Sonangol, Sebastião Gaspar Martins, que fez questão de sublinhar o significado do interesse renovado da petrolífera portuguesa: tratar-se-á, no seu entender, de um sinal inequívoco de confiança nas oportunidades que Angola continua a oferecer aos investidores.
Segundo apurado, uma delegação da Galp visitou recentemente a Sonangol e manifestou, nessa ocasião, vontade de voltar a investir em conjunto naquelas duas áreas do negócio petrolífero.
Recorde-se que o anúncio surge cerca de dois anos volvidos sobre a retirada da Galp da produção petrolífera em Angola.
Em 2024, a petrolífera portuguesa alienou à Etu Energias, as participações que detinha nos blocos 14, 14-K e 32, num negócio avaliado em 830 milhões de dólares, pondo assim termo a uma presença de várias décadas no sector produtivo angolano.
Desde então, a ligação da Galp ao mercado angolano cingia-se à Sonangalp, a joint-venture mantida com a Sonangol na área da distribuição de combustíveis — parceria que o presidente da petrolífera angolana não hesitou em classificar como estratégica para ambas as partes.
Convém não esquecer, a este propósito, que a relação entre as duas empresas vai bastante além do terreno operacional. A Sonangol é, desde 2005, accionista indirecta da própria Galp, através da Esperaza Holding, sociedade sedeada na Holanda que detém 45 por cento da Amorim Energia — a accionista de referência da petrolífera portuguesa, com cerca de um terço do capital.
Durante largos anos, a Esperaza foi partilhada entre a Sonangol e a empresária Isabel dos Santos, numa estrutura accionista que chegou a gerar alguma confusão pública quanto à titularidade efectiva da participação angolana.
Em 2021, porém, um tribunal arbitral neerlandês considerou nula a transferência, ocorrida em 2006, de 40 por cento das acções da Esperaza para a Exem Holding, controlada por Isabel dos Santos e pelo seu então marido, Sindika Dokolo, passando a Sonangol a figurar como única accionista daquela holding.
Trata-se, garantem responsáveis angolanos, de um dos investimentos mais rentáveis já feitos pelo Estado no estrangeiro: segundo cálculos publicados pelo Expansão com base nos relatórios e contas da Galp, a mais-valia potencial da participação indirecta angolana chegou a ultrapassar os 2.600 milhões de euros, num investimento inicial que já está, há muito, integralmente amortizado pelos dividendos entretanto recebidos.
A Sonangol tem reiterado, nos últimos meses, a intenção de manter esta posição — a par da que detém no BCP —, por a considerar um activo estratégico na diversificação do seu portefólio e na redução da exposição da empresa aos choques do sector petrolífero.
Adianta ainda a Sonangol que a petrolífera nacional se encontra presente em 41 concessões, dispondo de um portefólio diversificado de oportunidades de investimento aberto tanto a investidores nacionais como estrangeiros.
A empresa liderada por Sebastião Gaspar Martins prossegue, entretanto, o seu processo de transformação, com vista a diversificar investimentos e a reforçar a independência energética do País, muito embora a tão anunciada entrada em bolsa da petrolífera continue, por ora, adiada.
Não é despiciendo notar que este interesse renovado da Galp surge num momento em que Angola tem procedido à licitação de novos blocos petrolíferos — mais de setenta nos últimos anos —, no propósito de atrair investimento estrangeiro para o sector e de dar continuidade ao lançamento de novas concessões até ao final da década.
Entende a Sonangol que a eventual concretização deste investimento virá reforçar a confiança no potencial energético do País, bem como a estratégia da empresa de firmar alianças que contribuam para o desenvolvimento do sector, a criação de valor e o fortalecimento da capacidade nacional de exploração, produção e refinação.



