Este texto aborda o presente tema porque em Angola também há saberes e ideias relativas à liderança militar aos mais distintos níveis. Para que possamos conhecer o que há em Angola, no domínio da liderança militar, nada melhor do que começar com esta exposição sobre o estilo de liderança militar do primeiro Comandante-em-Chefe da República de Angola, Dr. António Agostinho Neto. Este é o primeiro degrau no âmbito da história da liderança militar em Angola, apesar de essa história possuir inúmeras referências.
Agostinho Neto, ilustre personalidade política de Angola, foi Comandante-em-Chefe no período de 1975 a 1979 e a sua vigência nesse cargo foi um momento excepcional do ponto de vista da liderança militar, na medida em que Angola enfrentava duas guerras – interna e externa. Por esse facto, apresentamos aqui as suas ideias e o seu estilo de liderança militar em dois momentos. No fim, surgem as respectivas conclusões.
1. A Luta Armada e a Liderança Militar
Quanto ao presente ponto, é preciso registar, de antemão, que a História está repleta de exemplos de lideranças militares pujantes e que marcaram significativamente contextos políticos e militares específicos. Há, de facto, uma plêiade de ilustres líderes, que nos deixaram ensinamentos válidos e que perduram ao longo dos tempos.
Mas entre esses líderes uns eram puramente militares, outros eram políticos e militares e os demais eram sacerdotes e teocratas. Estes emergiram dos Estados teocráticos mas souberam liderar, nos momentos de guerra, as suas sociedades teocráticas.
Também a liderança militar é extensiva aos líderes de organizações armadas, revolucionárias e afins. É por isso que alguns desses líderes se tornaram clássicos da estratégia. E as suas obras são estudadas no contexto dos Altos Estudos Militares e de Estratégia.
Por aqui já se pode identificar os tipos de líderes e lideranças militares que existem. Apesar dessas referências, líderes e lideranças militares são exclusivas das organizações militares. Mas isso não inibe que outros se apropriem dos saberes de condão militar e utilizem os mesmos em diferentes domínios da vida. Conforme aconteceu e acontece múltiplas vezes.
Relativamente ao Fundador da Nação Angolana, é sabido que ele era médico e homem de letras. Mas a vida exigiu muito mais da parte dele. Isto é, a grande causa do povo angolano obrigou-lhe a abraçar a luta política. Dessa maneira, a emancipação dos angolanos passou a ser a sua prioridade principal.
Mas as lutas políticas e de libertação nacional eram processos complexos e exigiam conhecimentos. E implicavam, em simultâneo, formação e saberes atinentes às guerras revolucionárias e às guerrilhas. E Agostinho Neto percebeu, desde a marcha, essas realidades e foi a busca desses conhecimentos.
Tanto mais que, em 1967, ele e mais outros camaradas da luta fizeram formação política e militar na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Neste país obtiveram formação militar e conhecimentos de estratégia. Este passo representou um ganho pessoal e da sua organização, o que lhe catapultou para outros níveis do conhecimento sobre as guerras revolucionárias e guerrilhas.
Deste modo, ele passou a liderar, em moldes mais consentâneos, a sua organização e a inspirar os seus combatentes. Era o despontar da liderança militar de Agostinho Neto, porque ninguém nasce líder militar. A liderança é um processo complexo e contínuo. Ela exige aprendizado permanente. Também a liderança assertiva perscruta, de forma duradoura, o ambiente e implica envolver todos.
Ainda assim, a liderança militar resulta das interações e do reconhecimento e auscultação dos demais companheiros. É devido ao presente facto que as organizações militares possuem Estados-Maiores, que são constituídos por gerações com tarimba e diuturnidade. Esta realidade adveio do Exército Prussiano no século XIX. E se mantém viva. Ao ponto dela ter transbordado para organizações não-castrenses.
Outras verdades das lideranças se resumem ao seguinte. Aprende-se a liderar em diferentes contextos e se aprimora a liderança com estudos e com a vivência contínua no seio dos liderados. E foi o que fez Agostinho Neto no percurso da luta de libertação e da guerra de guerrilhas da sua organização política. A marca da liderança militar de Agostinho Neto começou nesse contexto e prosseguiu com os demais instantes da vida.
Por isso, Agostinho Neto chegou a Luanda, no fim de 1974, mas já vinha com carisma, elevada personalidade e com o sentido do rumo militar dos acontecimentos. E, ao mesmo tempo, mostrou-se disponível para liderar militarmente os seus combatentes no turbilhão político e militar do contexto da descolonização de Angola. Ele sabia o que estava em jogo e conseguiu, dessa maneira, alcançar a sua primeira vitória estratégica num ambiente de elevada confrontação militar. Nessas condições ficaram muito mais evidentes as suas qualidades de líder militar.
A primeira vitória estratégica militar de Agostinho Neto resultou da forma como construiu as suas alianças estratégicas, do seu carisma, do seu desempenho e da forma como ele galvanizou as massas. O seu exemplo pessoal foi primordial. Numa só palavra, a marca da sua liderança política e militar inspirou todos e foi um dos factores da sua grande vitória estratégica militar.
Nesse contexto sobressaiu uma grande lição de liderança militar, a saber: Um líder militar tem que se empenhar. Um líder militar tem que assumir o risco e dominar o medo. Um líder militar tem que imprimir a sua marca nos momentos de elevada complexidade e tirar partido das circunstâncias mais adversas, para poder alcançar a tão desejada vitória. Sem isso, o cadafalso surge e vêm, de seguida, a derrota e a ruína. E esta é da responsabilidade exclusiva e única do líder. Vamos avançar, entretanto, para o segundo momento.
2. A Liderança Militar no Contexto do Estado Soberano
No contexto do Estado angolano independente, Agostinho Neto percebeu a magnitude dos desafios militares que o Estado tinha pela frente. Eram duas guerras – uma interna e outra externa. A primeira era essencialmente insurrecional e a segunda era convencional. Eram dois desafios de elevada grandeza e que exigiam, sobretudo, visão de Estado.
Foi assim que Agostinho Neto começou a empreender a marcha para construir um exército nacional capaz e que pudesse enfrentar os desafios militares, assim como garantir a segurança militar do Estado angolano. Só assim é que se poderia salvaguardar a soberania e a integridade territorial nacional.
Agostinho Neto também percebeu que as realidades do Estado soberano eram muito mais exigentes e implicavam um discurso mais consentâneo, assim como conhecimentos militares de Estado. Por isso, Agostinho Neto decidiu prosseguir a sua formação militar e aprofundar os saberes de estratégia de Estado em conjunto com os seus camaradas das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA) e com os membros do seu Governo. Tanto mais que ele se alistou no Curso de Alto Comando que teve lugar, em 1978, em Luanda. Ministrado pelos professores soviéticos.
Nessas condições começou a emergir o seu estilo de liderança militar e de estratégia de Estado. A partir disso, ele passou a pensar de maneira mais ampla. Estrategicamente falando.
De resto, um estudo profundo que se fez, em Angola, sobre estratégia, à luz das nossas realidades, destaca muito bem o desempenho estratégico, político e militar de Agostinho Neto. Trata-se da obra a “Génese do Pensamento Estratégico Angolano”, produzida, em 2019, pela Editora Mayamba.
Essa obra espelha o génio estratégico e militar de Agostinho Neto relativamente à sua segunda grande manobra estratégica que visava acabar com a guerra, em Angola, no fim da década de 1970. Só que os escolhos dos jogos estratégicos lhe impediram de alcançar a sua segunda grande vitória estratégica. Esta ficou-lhe pela metade.
Prosseguindo, Agostinho Neto foi um líder militar por excelência e que infundia confiança aos comandos militares. O exemplo da sua dedicação à causa nacional inspirava os comandos militares e o conjunto dos combatentes. As suas posições de firmeza irradiavam no seio das fileiras militares. A sua negação das práticas nocivas era outra marca da sua personalidade.
Ele também era contra as posturas inadequadas de chefes e comandantes “detentores de toda a força”. Esta expressão é da sua autoria. A disciplina, a hierarquia e o comando eram pontos fortes do seu estilo de liderança, para não macular a organização militar e as suas fundações.
Agostinho Neto também era contra as posturas de chefes e oficiais desleixados quanto às condições de vida das tropas. Quando surgiram, entretanto, os primeiros laivos de descaminhos de bens e práticas afins, esses actos foram objecto de sanções severas. De resto, os registos e a documentação histórica das FAPLA atestam esses factos. A liderança militar também exige afirmações e posturas correctivas pontuais.
Conclusões
Em linhas gerais, a liderança militar de Agostinho Neto é identificável em todo o seu percurso como líder político e militar, quer nas condições da luta de libertação quer no contexto do Estado soberano. Em boa verdade, há muito mais factos que poderiam ser elencados e descritos. Mas isso pode suceder em ambiente de estudos de liderança militar.
Aliás, em algumas paragens há centros de estudos e ensino nos domínios da liderança militar. Isto porque é fundamental fornecer aos comandos e aos oficiais os princípios e as técnicas de liderança militar. A razão da existência desses centros de liderança militar também decorre do facto de que é indispensável munir os chefes e oficiais com os saberes sobre liderança militar para os tempos de paz e guerra.
Finalmente, a liderança militar é tão antiga quanto as organizações militares e há muitos saberes no domínio das lideranças militares. Hoje a liderança militar é abordada desde os escalões mais altos até aos soldados de base.
*Mestre em História Militar e Ph.D. em História e Gestão Estratégica. Conferência proferida no âmbito das celebrações alusivas ao 17 de Setembro, Dia do Fundador da Nação e do Herói Nacional, no Quartel-General do Exército, em Luanda, a 25 de Setembro de 2026.




