Adis Abeba — O Governo da Etiópia anunciou a criação de uma administração interina para a região de Tigray, no norte do país, com a finalidade de estabilizar a situação política e preparar eleições regionais no prazo de seis meses.
A decisão foi anunciada esta sexta-feira pelo Primeiro-Ministro, Abiy Ahmed, na sequência da renovação dos confrontos entre as forças federais e o movimento Frente de Libertação do Povo de Tigray, conhecido pela sigla TPLF.
A formação da nova administração surge depois de uma nova escalada militar que voltou a colocar em risco a estabilidade alcançada com o acordo de paz de 2022.
O TPLF lançou uma ofensiva no mês passado, reavivando um conflito que, entre 2020 e 2022, provocou uma grave crise humanitária e um elevado número de vítimas. As forças federais e grupos aliados conseguiram entretanto recuperar o controlo de várias zonas, incluindo a capital regional, Mekelle.
De acordo com o anúncio do Governo, a administração interina deverá assegurar a governação da região durante o período de transição.
Entre os objectivos anunciados encontram-se a reposição da estabilidade, a preparação do processo eleitoral e a criação de condições para que as instituições regionais retomem o seu funcionamento. A realização de eleições dentro de seis meses constitui, assim, um dos principais compromissos políticos associados à medida.
A decisão permanece, porém, envolvida em tensões políticas. O TPLF dominou durante décadas a política etíope, antes de Abiy Ahmed assumir a chefia do Governo, em 2018.
A disputa entre as autoridades federais e a liderança regional continua a reflectir divergências profundas sobre o poder, a autonomia política e a organização constitucional do país.
A situação humanitária constitui outra preocupação. Estima-se que cerca de 750 mil pessoas continuem deslocadas em Tigray, enquanto a região enfrenta dificuldades relacionadas com a insegurança alimentar, a seca e a recuperação de infra-estruturas danificadas.
A instabilidade compromete o acesso regular a serviços essenciais, incluindo cuidados de saúde, e torna mais difícil o regresso seguro das populações às suas zonas de origem.
O agravamento da situação também aumenta a preocupação com as relações entre a Etiópia e a Eritreia. Adis Abeba acusa o Governo eritreu de apoiar os rebeldes, alegação que Asmara rejeita.
As tensões entre os dois países elevam o risco de alargamento da crise ao Corno de África, uma região já marcada por conflitos e disputas geopolíticas. O êxito da administração interina dependerá da redução da violência, do acesso à ajuda humanitária e da possibilidade de um entendimento político inclusivo.




