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Depois de Sochi em 2019 e São Petersburgo em 2023, Moscovo convocou 17 líderes continentais para se sentarem à mesa com Vladimir Putin na III Cimeira Rússia-África. Será um encontro sobre a herança soviética que, no caso de Angola, com a sua aproximação aos EUA, permitirá perceber como se encontra esta parceria.
Em 1975, a União Soviética (URSS) era um dos mais poderosos aliados de Angola. A sua influência estendeu-se da formação de quadros ao apoio militar e à matriz ideológica que norteou milhões de angolanos. Marcas indeléveis desse contributo ainda vivem na cultura, na literatura e, acima de tudo, na política.
Para Luanda, por isso, a presença nesta cimeira assume um peso simbólico relevante. E esta herança foi lembrada pelo Presidente da República, João Lourenço, em Sochi, há sete anos, daí ser algo a ter em conta naquele que é seu último ano de mandato e que por sinal não participará da cimeira, à semelhança do que já tinha sucedido em São Petersburgo.
Com a queda do muro de Berlim em 1989 e a consequente entrada do multipartidarismo, o soft power dos Estados Unidos da América (EUA) impôs-se.
Os padrões de consumo de Los Angeles a Nova Iorque, de Hollywood ao rap de Harlem, do Brooklyn e do Bronx impregnaram-se numa nova geração passando a ditar que o capital e a ascensão seriam e são lei, além de moldarem uma sociedade que deixou para trás o modelo comunitário e centralizado, dando lugar a um pensamento individualista e a uma auto-determinação que já não se importa em trespassar velhos acordos para atingir seus objectivos.
Com a vinda do anterior Presidente dos EUA, Joe Biden, e o Corredor do Lobito como uma espécie de tábua de salvação para um país afogado em dívidas e sem conseguir liquidá-las, a Rússia continua a ser um daqueles parceiros de que nem o Governo, nem África no seu todo, se podem simplesmente desconectar num mundo cada vez mais multipolar.
Afinal, é de lá que sai uma das maiores, senão a maior esperança de auto-suficiência alimentar dos países africanos, dependentes deste Gulliver moderno.
É neste enquadramento que se desenha a III Cimeira Rússia-África, com o conflito na Ucrânia ainda a decorrer e mais de 30 países do continente esperados a partir de quarta-feira, 28, em Moscovo.
Angola estará entre os representados numa cimeira que decorre até quinta-feira, 29 de Outubro, co-presidida na sessão plenária por Vladimir Putin e pelo Presidente do Burundi, Evariste Ndayishimiye, na qualidade de Presidente em exercício da União Africana.
Entre os nomes já confirmados pela imprensa internacional estão Paul Kagame (Ruanda), Yoweri Museveni (Uganda), Daniel Chapo (Moçambique) e Félix Tshisekedi (RDC), além da Presidente da Namíbia, Netumbo Nandi-Ndaitwah, e do Presidente da Comissão da União Africana, Mahamoud Ali Youssouf.
Na mesa estarão dossiês concretos: energia, mineração, agricultura, fábrica de fertilizantes e formação de quadros.
O contexto, porém, é diferente sendo que o Kremlin admite pressões ocidentais para o boicote do evento, enquanto o comércio Rússia-África, embora tenha crescido de 13,9 mil milhões de dólares em 2019 para mais de 27 mil milhões em 2025, continua aquém do volume com a China ou a União Europeia.
Por essa razão, as relações históricas serão postas à prova: Angola terá de transformar a memória soviética em contratos, investimento e tecnologia russa, numa altura em que a sua aproximação a Washington com a Administração Trump não corresponde ao que com Biden parecia vir a ser um El Dourado.
Na cimeira, está como tal prevista a assinatura de um pacote substancial de acordos intergovernamentais e a aprovação do Plano de Acção 2027-2029.
Falta saber se os níveis excelentes de cooperação, anunciados por Moscovo no primeiro pronunciamento público sobre a ligação com Angola, conforme adiantou o embaixador nomeado da Rússia em Angola, Alexander Bryantsev ao Novo Jornal após briefing no dia 08 de Outubro, se evidenciarão na prática.




