Marselha - A Justiça francesa classificou, hoje, como "crime contra a Humanidade" as rusgas policiais sob ocupação nazi ocorridas em 1943 no Vieux-Port, em Marselha, um reconhecimento reivindicado pelos sobreviventes e seus descendentes.
Marselha - A Justiça francesa classificou, hoje, como "crime contra a Humanidade" as rusgas policiais sob ocupação nazi ocorridas em 1943 no Vieux-Port, em Marselha, um reconhecimento reivindicado pelos sobreviventes e seus descendentes.
Mais de 83 anos após os factos, a investigação não conseguiu identificar responsáveis ainda vivos envolvidos na operação "Sultan", realizada entre 22 e 24 de Janeiro de 1943, declarou o procurador nacional antiterrorismo, Olivier Christen, que se deslocou a Marselha, a segunda maior cidade de França, para se encontrar com os últimos sobreviventes e as famílias das vítimas.
Conforme a Lusa, no entanto, a tipificação de "crime contra a humanidade" está devidamente caracterizada, tanto em relação às rusgas policiais como à pilhagem e à destruição de 1.500 imóveis do bairro de Saint-Jean, situado atrás do Vieux-Port (Porto Velho).
Apelidado de "pequena Nápoles", o bairro popular de Saint-Jean viu os seus habitantes — em grande parte imigrantes italianos — serem removidos à força. Os factos são "relativamente desconhecidos dos nossos concidadãos (…), embora estejamos perante uma rusga policial de proporções absolutamente colossais", sublinhou Christen durante uma conferência de imprensa.
As atrocidades "tinham como alvo os habitantes de um bairro por serem considerados sub-habitantes, subpopulações", acrescentou o procurador.
As investigações do Gabinete Central de Combate aos Crimes contra a Humanidade foram iniciadas em 2019, após uma queixa apresentada pelo advogado marselhês Pascal Luongo, à qual se juntaram 19 sobreviventes ou descendentes.
"É algo de extraordinário que, finalmente, a Justiça francesa reconheça a tragédia do porto de Marselha", afirmou Antoine Mignemi, de 89 anos.
Em 1943, Mignemi tinha cinco anos, mas se recorda do "rosto transtornado da mãe, aterrorizada" quando o foi acordar às seis da manhã, pois a polícia francesa estava à porta e precisavam de "partir imediatamente" de Saint-Jean.
Esta série de rusgas policiais - uma das maiores, a par da do Vel' d'Hiv', ocorrida seis meses antes em Paris — foi realizada por decisão dos nazis, com a colaboração activa de franceses e sob as ordens do secretário-geral da polícia de Vichy, René Bousquet.
Cerca de 800 judeus, sobretudo do bairro da Ópera, foram enviados para a morte nos campos de extermínio nazis.
Outras 20 mil pessoas foram expulsas e milhares ficaram temporariamente confinadas num campo de detenção em Fréjus, segundo a acusação.
A investigação confirmou ainda 1.600 deportações, sendo que 600 pessoas foram enviadas para a Alemanha.
"Como um rebanho de ovelhas, a polícia francesa conduziu-nos até ao cais do porto. Aí, fomos entregues aos nazis", conta Mignemi.
"Vagões de gado" levaram-nos ao campo em Fréjus, onde os homens foram separados das mulheres e das crianças. Passaram ali uma semana "em barracões insalubres, sem camas, a dormir no chão sobre palha infestada de vermes, quase apertados uns contra os outros", referiu Mignemi.
Com lágrimas nos olhos e a voz embargada pela emoção, este descendente de uma família siciliana recorda o quotidiano em Saint-Jean, marcado pela convivência harmoniosa numa comunidade de italianos, mas também de gregos, arménios, espanhóis, norte-africanos e senegaleses — operários, marinheiros, estivadores ou artesãos.
O "bairro cosmopolita" foi "apagado do mapa" pelos nazis, em conluio com o regime de Vichy, "porque as pessoas que ali viviam eram os imigrantes mais recentes (…) ou seja, 'indesejáveis'", disse Luongo à agência de notícias AFP.
O avô de Luongo, de origem italiana, estava entre os detidos em Fréjus. "Este reconhecimento dos crimes contra a humanidade tem um valor de reparação moral", afirmou o advogado, sublinhando que esta "história é desconhecida, mesmo em Marselha".
O Presidente francês Jacques Chirac foi o primeiro, em 1995, a reconhecer a responsabilidade da França nas rusgas policiais e nas deportações de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. OHA




