O antigo Presidente congolês Joseph Kabila foi nomeado líder de uma nova coligação rebelde que procura derrubar o Governo de Félix Tshisekedi. A Frente para a Refundação da Nação (FRN) afirmou que pretende coordenar as “forças de resistência” para acabar com a “tirania” na República Democrática do Congo (RDC) e que prosseguirá o objectivo “por todos os meios, incluindo a força”. A sua revelação é a indicação mais clara até agora do envolvimento directo de Kabila num movimento armado, um ano depois de ter sido condenado à morte à revelia por traição. Anteriormente, negou ter tido ligações com o grupo rebelde M23.
Claude Ibalanky, conselheiro da coligação, anunciou a liderança do grupo numa conferência de imprensa na residência de Kabila em Goma, a maior cidade do Leste da RDC, que está sob o controlo do M23 desde o ano passado. O vídeo divulgado pelo grupo mostrava Kabila a assinar documentos na declaração do grupo juntamente com outros líderes.
O líder do M23, Sultani Makenga, servirá como um dos quatro deputados de Kabila no novo movimento. Os outros três provêm também da aliança AFC-M23, que no ano passado se apoderou de grande parte do Leste da República Democrática do Congo, rico em minerais.
O anúncio do novo grupo surge dias depois de Kabila ter proferido um discurso no qual disse que iria definir como o povo congolês deveria agir para “resgatar” o seu país. Kabila acusou o Governo do Presidente Félix Tshisekedi de desconsiderar as propostas que apresentou no ano passado, incluindo algumas destinadas a pôr fim ao conflito no Leste da RDC.
Kabila acusou, ainda, o Governo de minar o regime constitucional, de gerir mal a economia e de não conseguir melhorar a segurança. Alegou, ainda, detenções arbitrárias de opositores políticos e oficiais militares.
Kabila, de 55 anos, governou a RDC desde 2001 até Janeiro de 2019, quando Tshisekedi assumiu o cargo após uma disputada eleição. Os dois já foram aliados políticos, formando um acordo informal de partilha de poder após a transferência de poder. Mais tarde, desentenderam-se e Kabila foi para o exílio auto-imposto em 2023, antes de regressar a Goma no ano passado.
O antigo Presidente permaneceu em grande parte fora da vista do público durante vários anos, mas tornou-se cada vez mais crítico em relação à administração do seu sucessor. A formação da nova coligação surge num momento incerto, num país que tem sido assolado pela violência há décadas.
Mais de 100 grupos de milícias estão activos no Leste da RDC, no meio de tensões étnicas e na luta pelo poder político e pelo controlo de recursos naturais lucrativos. A ONU e os governos ocidentais acusam o Rwanda de apoiar o M23 e de controlar os rebeldes.
O Rwanda nega apoiar o M23, apesar das provas esmagadoras, e afirma que a sua presença militar no Leste da RDC é uma medida defensiva contra as ameaças representadas pelos grupos armados congoleses.
Oportunidade para a paz
Um alto funcionário da ONU afirmou que existe uma “janela de oportunidade” para a paz no Leste da RDC. Os confrontos entre o Exército congolês e o grupo rebelde M23 continuaram no Leste da República Democrática do Congo, levando a renovados esforços diplomáticos internacionais para pôr fim ao conflito.
Huang Xia, enviado especial da ONU para a Região dos Grandes Lagos, afectada pelo conflito, disse ao Conselho de Segurança que os processos de paz liderados pelos EUA e pelo Qatar alcançaram “progressos notáveis”. No entanto, “apesar deste esforço diplomático contínuo, a situação humanitária e de segurança no Leste da RDC continuou a agravar-se”.
Huang Xia enfatizou a “urgência de aproveitar a janela de oportunidade, que se apresenta actualmente com o maior alinhamento dos esforços de paz”.O Governo congolês e o M23 assinaram um compromisso para um cessar-fogo em Doha, em Julho de 2025, enquanto a RDC e o Rwanda formalizaram um acordo de paz mediado pelos EUA em Dezembro, em Washington. No entanto, os combates continuaram no terreno.
Novas negociações foram realizadas em Agosto na Suíça, envolvendo representantes dos Estados Unidos, do Qatar e da União Africana. Huang Xia disse que as Nações Unidas vão facilitar uma reunião no dia 18 de Outubro na capital da Zâmbia, Lusaka, entre os ministros da Defesa do Burundi, da RDC, do Uganda, do Rwanda e da Tanzânia.
Entretanto, o número de mortos devido ao vírus Ébola na RDC chegou aos 4.381 e foram registados mais de 9 mil casos, segundo dados divulgados pelas autoridades congolesas.




