Rabat - Os observadores da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa enviados às eleições legislativas em Marrocos indicaram quinta-feira que estas decorreram "de forma ordenada", mas revelam "graves desafios para a democracia representativa", devido à fraca participação.
Rabat - Os observadores da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa enviados às eleições legislativas em Marrocos indicaram quinta-feira que estas decorreram "de forma ordenada", mas revelam "graves desafios para a democracia representativa", devido à fraca participação.
"Quando menos que um em cada quatro adultos exerce o seu direito de voto de forma válida, uma participação tão baixa não pode ser ignorada", declarou a chefe da delegação da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (APCE), a italiana Elisabetta Gardini, citada num comunicado divulgado em Estrasburgo, sede da instituição.
Esta taxa, que apenas atingiu 38,02% dos eleitores inscritos, levanta "questões importantes sobre a participação, a representação e a confiança dos cidadãos no processo político", acrescentou.
O escrutínio de quarta-feira foi dominado pelos três partidos que compõem a coligação governamental cessante.
A APCE saudou as iniciativas que visavam incentivar a participação das mulheres e dos jovens, especialmente os 90 lugares reservados à classe feminina nas listas regionais.
"No entanto, essas possibilidades formais ainda não se traduziram numa influência política suficiente", segundo o comunicado, que aponta ainda uma participação "extremamente baixa" dos jovens.
A abstenção, sobretudo entre os jovens, foi uma das principais questões destas eleições, realizadas menos de dois meses após a crise migratória de Ceuta.
No fim de Julho, o afluxo maciço de migrantes - na maioria marroquinos - àquele enclave espanhol norte-africano, num período de 24 horas, expôs a falta de perspectivas de uma parte da juventude de Marrocos.
Os observadores lamentaram, além disso, "um ambiente mediático no qual a concentração económica e as restrições generalizadas à liberdade de expressão podem sufocar um verdadeiro debate".
Manifestaram igualmente preocupação com as alegações recorrentes de compra de votos e de manipulação do voto através de pressões económicas ou hierárquicas.
Composta por 24 elementos, a delegação multipartidárias da APCE enviou 12 equipas para Rabat, Casablanca, Tanger, Fez e Marraquexe, bem como para os arredores dessas cidades.
A avaliação do processo eleitoral foi efectuada à luz das normas do Conselho da Europa - guardião dos direitos humanos no continente – e dos compromissos assumidos pelo Parlamento marroquino, na qualidade de "Parceiro para a Democracia" da APCE, segundo o comunicado, citado pelo portal Notícias ao Minuto.
O Partido Autenticidade e Modernidade (PAM, liberal), vencedor das legislativas e próximo do Palácio Real, decidiu não se cingir aos dois partidos da coligação cessante e alargar a todos as negociações para a escolha de parceiros para o novo Governo.
"Não temos nenhum partido como linha vermelha, não acreditamos em linhas vermelhas. O que será determinante é o programa que anteriormente apresentámos", afirmou quinta-feira Fatima Ezzara El-Mansouri, ministra da Habitação, membro da direcção do PAM e um dos nomes apontados como possíveis para chefiar o próximo Executivo marroquino.
"Estamos dispostos a sentar-nos com os outros partidos e a negociar com eles", acrescentou, na primeira declaração pública do PAM após a vitória eleitoral.
A reforma do sistema eleitoral introduzida em 2021 distribui os mandatos parlamentares com base no número de eleitores inscritos em cada círculo eleitoral, e não nos votos efectivamente contabilizados, o que favorece a fragmentação, impede maiorias absolutas e obriga à formação de governos de coligação.
O PAM conquistou 97 lugares, mais 10, numas eleições marcadas por uma avassaladora abstenção de 61,9%, a mais elevada em quase 20 anos, segundo dados divulgados pelo Ministério do Interior durante a madrugada, nove horas depois do fecho das urnas.
Fundado em 2008 por Fouad Ali El-Himma - colega de escola do Rei Mohammed VI e conselheiro real - e outros, o PAM é também, desde há dois meses, o partido de Fouzi Lekjaa, titular da pasta do Orçamento, presidente da Federação Marroquina de Futebol e o nome mais apontado para liderar o próximo Governo, que se centrará no Mundial de 2030, a organizar por Marrocos em parceria com Espanha e Portugal.
O PAM ultrapassou os seus actuais parceiros de coligação: o RNI (Agrupamento Nacional de Independentes, conservador), que passa de liderar o Executivo a segunda força, com 66 assentos parlamentares, após perder 36, e o Istiqlal (nacionalista), que mantém o terceiro lugar, com 65 lugares no Parlamento.
Os resultados não trouxeram surpresas em relação às projecções dos analistas, que previam a vantagem do PAM seguido dos seus parceiros de coligação.
Contudo, poucos previram a subida do Partido Justiça e Desenvolvimento (PJD, islamista moderado), que conquistou 54 mandatos após o revés sofrido há cinco anos, quando caiu de 125 para 13 lugares.
Essa derrota pôs fim a uma década de domínio eleitoral do PJD, que tinha chegado ao poder após os protestos de 2011 e voltou a impor-se nas legislativas de 2016. MCN




