Médio Oriente: Iranianos recusam nova proposta de cessar-fogo dos EUA por falta de confiança em Donald Trump – Casa Branca ameaça levar a guerra para o Mar Vermelho

É igualmente já evidente que as palavras ameaçadoras do Presidente norte-americano têm apenas como fim pressionar Teerão a aceitar um novo compromisso para congelar o conflito de forma a arrefecer a crise económica mundial gerada no Golfo Pérsico.
A prova de que assim é, está esta sexta-feira, 24, nas páginas do The New York Times, que escreve sobre a recente ida do primeiro-ministro iraquiano, Ali al-Zaidi, à capital iraniana, com uma proposta de Donald Trump para um novo cessar-fogo.
Proposta que foi rejeitada pelas autoridades iranianas após um encontro entre al-Zaidi com o Presidente Massoud Pezeshkian, formalmente para estreitar as relações Irão-Iraque mas com o objectivo quase exclusivo de tentar convencer os iranianos em nome de Trump.
Só que, também parece ser agora mais claro, em Teerão já não existe vontade para dar uma nova oportunidade aos norte-americanos porque nas duas vezes que o fizeram em cerca de um ano, o resultado foi devastador para o Irão.
Os factos não estão escondidos
Em Junho de 2025, Teerão e Washington estavam a meio de negociações aparentemente sólidas, com calendário definido para definir o futuro do programa nuclear iraniano e, de forma traiçoeira, os americanos atacaram as instalações nucleares iranianas.
E quando no início deste ano, os dois países estavam de novo sentados à mesa para desenhar um mapa negocial de forma a que os EUA conseguissem garantir que o Irão não obteria armas nucleares no futuro, o principal objectivo de Washington, repetidamente sublinhado por Trump, ocorreu o devastador ataque de 28 de Fevereiro.
Nesse ataque, que deu início à presente guerra, a coligação Israelo-americana matou de uma só vez o Líder Supremo do Irão, em Teerão, e ainda cerca de 40 figuras de proa das Forças Armadas e do Governo iraniano, quando estes reuniam abertamente e sem segredo na casa do aiatola Ali Khamenei.
Esse "sucesso" israelo-americano só foi possível porque, mais uma vez, os iranianos confiaram que as negociações que decorriam com os norte-americanos garantiam que não haveria ataques traiçoeiros como sucederá em Junho do ano anterior.
Enganaram-se e aconteceu mesmo aquele que foi o mais rude golpe no regime iraniano, que obrigou o país a mudar quase na totalidade os seus líderes políticos e militares no topo da hierarquia, incluindo o Líder Supremo, que acabou substituído pelo seu filho, aiatola Mojtaba Khamenei.
O mesmo que, em Abril deste ano, quando, ao fim de dois meses de guerra intensa, com os americanos a bombardearem o Irão e o Irão a ripostar contra as dezenas de bases americanas no Golfo Pérsico, alertava para a inutilidade de assinar qualquer acordo com Trump por não ser confiável.
Mojtaba não confia em Trump
Mojtaba Khamenei repetiu em Junho deste ano, quando foi assinado o Memorando de Entendimento (MdE) que a palavra do Presidente dos EUA não tinha qualquer valor mas aceitou dar uma nova oportunidade porque os seus conselheiros lho pediram.
Estava certo Mojtaba Khamenei, porque na primeira semana de Junho, menos de um mês após ter sido assinado o MdE, com 14 pontos onde deveria assentar um acordo de paz no futuro breve, os EUA "mataram" o documento ao abrir uma rota alternativa no Estreito de Ormuz.
Isto, quando o acordo dizia nos seus pontos 4º e 5º que essa passagem estratégica, por onde passa 20% do petróleo e do gás mundiais,, ao longo dos 60 dias de conversações, período definido para dirimir todas as discordâncias que se mantinham activas, estaria sob supervisão e gestão iraniana.
Logo ai o Memorando foi morto e enterrado, dando azo ao retorno dos ataques, primeiro do Irão contra três navios, petroleiro, metaneiro e cargueiro, que procuravam sair do Golfo Pérsico para o Oceano Índico via Estreito de Ormuz, a única via que o permite, contornando o disposto no MdE.
Esta via marítima estratégica para a economia mundial, com relevância energética mas também quanto a compostos insubstituíveis para fertilizantes e químicos, como o hélio, para a indústria 2.0 dos microchips, foi de novo encerrada pelo Irão e isso levou ao regresso dos mísseis dos EUA sobre o território iraniano.
Na resposta esperada e inevitável, o Irão alvejou com mísseis balísticos e drones as dezenas de bases norte-americanas, com especial vigor as do Kuwait e da Jordânia, mas com os Emiratos, o Bahrein e o Catar igualmente sob fogo.
Ataque e contra-ataque
Enquanto este jogo de ataque e resposta se prolongava há 10 dias consecutivos, ganhando intensidade e ritmo, uma nova frente aparecia apanhando, aparentemente, Washington e Donald Trump de surpresa.
A guerra chegava, no início desta semana, ao Estreito de Bab al-Mandab, cuja importância estratégica supera já a do Estreito de Ormuz, porque é o único ponto de acesso entre o Oceano Índico e o Canal do Suez, e vice-versa, por ali passando 12% do comércio global.
Além disso, nos últimos tempos o Mar Vermelho servia ainda para a Arábia Saudita escoar cerca de 7 milhões de barris de petróleo por dia através do oleoduto que 1.200 kms que atravessa todo o país ido do Golfo Pérsico, até ao Porto de Yanbu.
E Bab al-Mandab emerge neste conflito de novo porque a Ansar Allah (Houthis) que dominam o oeste do Iémen, aliados do Irão, cumpriram a ameaça de bloquear ali os navios com destino e origem nos portos sauditas do Mar Vermelho.
Isso, após a Força Aérea da Arábia Saudita ter bombardeado o Aeroporto de Saná, a capital do Iémen, para impedir um avião iraniano de aterrar com os líderes houthis a bordo, depois de terem estado, há duas semanas, nas cerimónias fúnebres do aiatola Ali Khamenei, morto por israelitas e americanos a 28 de Fevereiro.
Com este ataque em Saná, Riade punha fim a umas tréguas com a Ansar Allah que já duravam desde 2022, voltando a focar as atenções no Estreito de Bab al-Mandab, tanto pela sua singular condição estratégica para a economia mundial, como por se juntar à crise no Estreito de Ormuz, o que deixa a economia planetária sem duas das suas passagens marítimas mais relevantes.
O efeito sobre os mercados energéticos foi imediato, catapultando o barril de crude Brent para os 100 USD, criando, de novo, pânico na Casa Branca, onde Donald Trump arrisca que a inflação esmague as suas já escassas possibilidades de manter a maioria nas duas câmaras do Congresso, a dos Representantes e o Senado, nas eleições intercalares de Novembro.
O risco político
E sem esse resguardo no Congresso, Trump já sabe, porque a oposição Democrata, que já esta semana tentou, de novo, cortar-lhe poderes sobre a condução da guerra com o Irão no Senado, embora sem sucesso, anunciou repetidamente nos últimos meses que lhe vai instaurar processos de destituição (impeachment) na primeira oportunidade.
Sobre Trump pendem ameaças de perder o cargo antes do tempo por duas razões especialmente enfatizadas pelos Democratas: ter lançado a guerra sem informar o Congresso e devido às mentiras sobre os "Ficheiros Epstein", o maior escândalo de pedofilia de sempre e onde o seu nome está entre os mais citados.
As crises no Mar Vermelho e no Golfo Pérsico são fundamentais para o desfecho eleitoral mais ou menos favorável a Donald Trump nas intercalares de Novembro porque é a inflação e o preço dos combustíveis que os eleitores norte-americanos mais usam para decidir o seu voto.
Ora, com o preço do gás e do petróleo a dispararem como acontece actualmente, sob o fogo da incerteza no Médio Oriente, a gasolina quase duplicou de valor nas últimas semanas nos EUA e a inflação começa a queimar postos de trabalho e a gerar crescentes dúvidas entre os eleitores sobre a capacidade de Trump conseguir resolver estes problemas.
Essa a razão para a Casa Branca, apesar das sucessivas ameaças de engrossar os ataques contra o Irão, ter apostado muito no "cavalo" Ali al-Zaidi, o primeiro-ministro iraquiano, que tem boas relações tanto com os EUA como com Teerão, sendo ele um xiita, como a esmagadora maioria dos iranianos.
A guerra no Mar Vermelho
Já se sabe, via The New York Times, que correu mal a missão de al-Zaidi, que serviria, mais uma vez, e estranhamente, para Trump enganar os iranianos e conseguir baixar o preço do crude nos mercados internacionais com um novo cessar-fogo condenado, mais uma vez, ao "fracasso".
O que parece ser a razão mais evidente para Trump estar agora a ameaçar fazer regressar os seus porta-aviões ao Mar Vermelho para atacar os Houthis, como fez ainda em 2024, com aliados europeus, como o Reino Unido, a ajudar.
É que dessa vez não apenas falhou o objectivo de derrotar os Houthis como ainda obrigou os EUA e aliados a saírem enxovalhados do Mar Vermelho por não conseguirem derrotar um grupo de rebeldes escassamente armados e na altura tratados por "guerrilheiros de pé descalço" pelos analistas alinhados com Washington.
Alguns analistas admitem que se os EUA reiniciarem a guerra com os Houthis, essa será a mais conseguida demonstração de que Donald Trump está em pânico para dissolver a crise económica global que provocou.
É que, recorde-se, ambos os Estreitos, Ormuz e Bab al-Mandab, estavam abertos à livre circulação antes dos ataques dos EUA sem justificação contra o Irão em Junho de 2025 e Fevereiro de 2026, e foi ainda Trump que cancelou o acordo nuclear que Barack Obama assinou em 2015 com o Irão e que garantia sem margem para dúvidas que Teerão não avançaria para uma arma nuclear através do seu programa atómico civil.


