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Esta semana, Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento e chefe da delegação que negociou com Washington o falhado Memorando de Entendimento (MdE) de Junho, anunciou com estrondo a vitória militar do Irão, numa cerimónia televisionada.
Nesse momento, vários analistas admitiram como inevitável que os norte-americanos estavam obrigados a desmentir, não por palavras mas por acções, com a retoma dos bombardeamentos no Irão, como, alias, Donald Trump, estava a ameaçar há semanas.
Para desviar as atenções, como notava Larry Wilkerson, antigo coronel dos EUA e chefe de Gabinete do secretário de Estado Collin Powell, na Administração Bush, Trump fez os seus números de circo habituais, como anunciar a anexação do Estreito de Ormuz.
A isso acrescentou um dos episódios mais bizarros desta guerra, que foi ameaçar destruir Omã, um histórico aliado dos EUA que confina territorialmente com o canal de Ormuz que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico.
Este canal é uma das mais estratégicas passagens marítimas em todo o mundo, por onde passa, em tempo de paz, mais de 20% do petróleo e do gás mundiais, e Omã controla a costa sul, sendo a ameaça de Trump devido a um acordo que foi firmado como o Irão sobre navegação comercial que por ali transita.
Observadores como Larry Johnson, antigo analista da CIA, entendem que com esta ameaça a um aliado histórico, Trump está a mostrar "um acentuado declínio cognitivo" porque está a dizer a todos os aliados na região que podem ser alvos da sua fúria.
Porém, e tão inesperado como estes anúncios de anexar Ormuz ou atacar Omã, o Presidente norte-americano veio agora fazer outro anúncio estrondoso mediaticamente: "Começou a maior operação de esmagamento económico de sempre contra um país".
O denominado "Dia D Económico", glosando o histórico Dia D do arranque da invasão aliada contra a Alemanha nazi no norte de França, em 06 Junho de 1944, foi lançado esta quarta-feira, 19 de Agosto, e ao invés de se traduzir, como há 82 anos, em bombardeamentos massivos e uma invasão terrestre, será uma ""most crushing economic operation".
O que traduzido para português significa "a mais esmagadora operação económica", mas traduzido em linguagem militar estratégica, resulta na admissão da incapacidade norte-americana de vergar o Irão sob o peso das bombas e dos mísseis, o que é o mesmo que Donald Trump dizer a Mohammad Bagher Ghalibaf que aceita a derrota militar mas que a guerra ainda não acabou, apenas prossegue por outra via...
A economia é agora o campo de batalha onde os norte-americanos se propõem derrotar o Irão, desde logo com a "muralha de aço" que Trump diz ter erguido ao longo do Mar de Omã, que dá acesso ao Golfo Pérsico e aos portos iranianos do lado do Oceano Índico.
Muralha de aço essa que é constituída por, dependendo das fontes, entre 20 e 40 navios de guerra colocados de forma a garantir que não entra nem sai qualquer embarcação dos portos iranianos, num bloqueio naval para "secar" a economia iraniana, embora as dúvidas subsistam, tanto quanto à eficácia desta barreira como quando os iranianos garantem que o Estreito de Ormuz está encerrado e sob seu controlo absoluto, apesar de Trump dizer o contrário.
Algum efeito esta medida está a ter, até porque, embora com intervalos, está activa há cerca de dois meses e meio e o Irão tem, desde então, como uma das suas principais reivindicações para reabrir o Estreito de Ormuz o levantamento deste bloqueio.
Todavia, Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, com vários livros sobre conflitos no Médio Oriente, explica que esta opção americana tem pontos fracos que a podem comprometer.
Desde logo o facto de o Irão ter fronteiras terrestres com sete países e quatro no Mar Caspio, incluindo a Rússia, além de uma moderna via férrea com a China, o que reduz muito a dependência do comércio marítimo pelo Índico e Golfo Pérsico.
Outro problema desta estratégia norte-americana é que o tempo que sobra ao Irão e a capacidade de resistir à "dor" das sanções económicas, como o mostra as "cicatrizes" deixadas por mais de 30 anos de aperto internacional, é proporcional ao que falta a Donald Trump, apertado pela aproximação das eleições intercalares de Novembro.
Além disso, como se percebe de alguns estudos de opinião, os EUA não possuem resistência natural à dor que está a ser infligida pelo aumento da inflação nos combustíveis e nos alimentos, além de fertilizantes.
Isso fica claro quando mais de 70% dos eleitores norte-americanos apontam como principal exigência para decidir o seu voto as garantias de que os preços dos combustíveis e dos alimentos vão baixar para valores de antes desta guerra.
Donald Trump explicou na sua rede social Truth Social que "todos os países, empresas financeiras, entidades internacionais...", que ajudarem por qualquer meio ou forma Teerão, "vão sofrer pesadas consequências", prometendo agir como "nunca antes se viu" através do que chamou de "Dia D Económico" contra Teerão.
John Mearsheimer, professor de relações internacionais da Universidade de Chicago, e um dos mais respeitados analistas norte-americanos, sublinha, contudo, que, apesar deste tipo de medidas ter sempre algum efeito, as alianças sólidas do Irão com a China e a Rússia, ou a proximidade cultural e económica ao Paquistão, servem de forte diluente para essa pressão dos EUA.
No que todos os analistas coincidem é que este anúncio com estrondo do Dia D Económico contra o Irão vai gerar irremediavelmente que Moscovo e Pequim vão garantir danos mínimos a Teerão no contexto da sua confrontação singular com Washington e ainda que o mundo tem agora uma nova diversão muito americanizada: assistir de que lado a corda rompe primeiro.
Se do lado iraniano, um país com sérios problemas económicos, uma inflação gigantesca, uma desvalorização cambial incontrolável e boa parte das suas infra-estruturas energéticas e civis destruídas ou danificadas pela guerra, nos EUA o calendário eleitoral não perdoa.
É que com a oposição Democrata a exigir a saída dos EUA deste conflito com o Irão, o eleitorado claramente contra, com o apoio histórico a Israel - foi a coligação israelo-americana que começou a guerra - a desaparecer como nunca sucedeu antes, e o risco de perder as maiorias nas duas câmaras, Representantes e Senado, no Congresso, Donald Trump pode estar à beira de uma humilhação histórica.
É que como recordava recentemente o major-general Agostinho Costa, na sua análise na CNN Portugal, "se perder o Congresso, Donald Trump tem á sua espera uma sucessão de processos de destituição" que podem ser a ruína da sua carreira política e empresarial.
Basta recordar que o Partido Democrata já anunciou que após as eleições intercalares de Novembro tem na manga um processo de destituição (impeachment) devido ao facto de não ter informado, como a Constituição exige, da sua intenção de avançar para uma guerra com o Irão.
A outra questão por detrás de um segundo, ou primeiro, impeachment, são os Ficheiros Epstein, que encerram o maior escândalo de pedofilia internacional de sempre e onde o nome do actual Presidente dos EUA é dos mais citados nas suas dezenas de milhares de páginas, devido à sua íntima relação com o pedófilo Jeffrey Epstein, que apareceu morto na cadeia em 2019.



