Peso do setor segurador em Angola continua abaixo de 1% do PIB, alerta Carlos Firme, CEO da Fortaleza Seguros

O presidente executivo da Fortaleza Seguros, Carlos Firme, defendeu esta terça-feira que o setor segurador angolano está ainda numa fase inicial de desenvolvimento, mas tem potencial para assumir um papel decisivo no crescimento económico do país, tanto pela proteção de pessoas e património como pela capacidade de atuar como investidor institucional.
A estabilidade do sistema financeiro angolano e a necessidade de aprofundar o crédito de médio e longo prazo, os mercados de capitais e o setor segurador estiveram no centro do painel “Capital e Confiança: os motores do investimento entre Angola e Portugal”, que decorreu hoje em Lisboa, no âmbito da conferência “Doing Business Angola 2026”.
Na conferência “Doing Business Angola 2026”, que decorre em Lisboa, durante o painel “Capital e confiança: os motores do investimento entre Angola e Portugal”, o responsável sublinhou que o peso do setor segurador em Angola representa atualmente menos de 1% do Produto Interno Bruto (PIB), muito abaixo dos cerca de 3% a 5% registados em economias com níveis de desenvolvimento semelhantes e dos mais de 10% observados em países desenvolvidos.
Carlos Firme salientou que as seguradoras desempenham um duplo papel na economia: por um lado, asseguram riscos associados a pessoas, património e responsabilidades; por outro, funcionam como investidores institucionais, aplicando reservas financeiras em investimentos de médio e longo prazo. Em conjunto com os fundos de pensões, acrescentou, o setor pode contribuir para financiar o desenvolvimento económico através de investimentos com horizontes temporais mais alargados.
Para aumentar a relevância do setor, o gestor apontou três prioridades. A primeira passa pela diversificação da economia angolana e pela atração de investimento estrangeiro, processo no qual as seguradoras têm um papel de apoio na cobertura dos riscos associados aos projetos de investimento.
A segunda prioridade é o reforço da fiscalização para que os seguros obrigatórios sejam, na prática, cumpridos. Carlos Firme considerou que Angola tem vindo a registar progressos nesta matéria, destacando a evolução do regulador na adoção de práticas alinhadas com padrões internacionais e na implementação de uma supervisão baseada no risco. Ainda assim, defendeu que é necessário garantir que os seguros legalmente obrigatórios sejam efetivamente cumpridos.
O terceiro eixo identificado foi a literacia financeira. Segundo o responsável, um maior conhecimento sobre o funcionamento dos seguros é essencial para aumentar a sua utilização e para que os cidadãos compreendam a importância destes instrumentos na gestão do risco. Nesse sentido, defendeu uma atuação conjunta entre seguradoras, regulador e entidades públicas para promover ações de educação financeira.
Questionado sobre a evolução do mercado para soluções financeiras de mais longo prazo, Carlos Firme afirmou que o setor está a desenvolver os mecanismos necessários, mas advertiu que esse processo depende da existência de um enquadramento legal e regulatório estável e da confiança dos investidores na continuidade das políticas públicas.
Questionado sobre os fundos de pensões, Carlos Firme considerou que o seu reduzido peso na economia não decorre de lacunas regulatórias — que classificou como “já adequadas” — mas antes de uma falta de interesse por parte das empresas em oferecer este benefício aos trabalhadores, bem como de um défice de literacia financeira que leva as pessoas a não planear atempadamente a poupança para a reforma.
Isto é, apesar de considerar que o enquadramento jurídico e regulatório já é adequado ao desenvolvimento deste mercado, Carlos Firme reconheceu que a adesão continua reduzida. Na sua perspetiva, muitas empresas ainda não encaram os fundos de pensões como um instrumento de retenção de talento e a literacia financeira continua insuficiente para sensibilizar trabalhadores e empregadores para a importância da poupança de longo prazo.
Ainda relativamente aos fundos de pensões, o presidente executivo da Fortaleza Seguros considerou que representam um instrumento essencial para responder aos desafios demográficos futuros, num contexto em que o Estado poderá ter dificuldades em assegurar, por si só, o nível de proteção social esperado pela população.
O responsável acrescentou que a estabilização macroeconómica e o desenvolvimento dos mercados financeiros poderão tornar os fundos de pensões mais atrativos, ao oferecerem melhores oportunidades de investimento e rendibilidades mais interessantes para os aforradores, manifestando confiança no potencial de crescimento deste segmento nos próximos anos.
Numa nota final, o CEO da Fortaleza Seguros mostrou-se otimista quanto às perspetivas do setor, recordando que o Fundo Monetário Internacional projetou, em abril, um crescimento da África subsariana superior ao dos restantes mercados emergentes — pela primeira vez —, impulsionado pelo interesse geopolítico em torno da energia, do gás e da diversificação de produtos. “Estou totalmente positivo sobre essa matéria. É um caminho inclinado”, afirmou.
Na conferência “Doing Business Angola 2026”, que decorre hoje em Lisboa, e no “Painel: Capital e confiança: os motores do investimento entre Angola e Portugal”, participaram Emanuela Vunge, Managing Partner Prime Advogados da VdA Legal Partners, Sidney Magalhães, Administrador Executivo Banco Millennium Atlântico, Carlos Firme, CEO Fortaleza Seguros e Eline Feijão, Administradora Executiva Banco Atlântico Europa.



