O Primeiro-Ministro são-tomense considerou, domingo, que o apelo do seu antecessor à abstenção nas legislativas e autárquicas de Setembro não é uma boa estratégia, defendendo uma mobilização política e social para se garantir uma maior participação
"Um apelo à abstenção nas próximas eleições não é uma boa estratégia para um político, uma vez que votar é um dever cívico. Daí, penso que a população são-tomense sabe o que quer, estamos num país democrático, há mais de 30 anos, boicote às eleições e com abstenção penso que não é uma boa estratégia", afirmou Américo Ramos.
O chefe do Governo são-tomense, que é também presidente da Acção Democrática Independente (ADI), defendeu que a classe política e a sociedade civil devem "fazer todos os esforços necessários para diminuir o número da abstenção, uma vez que esse é o momento de escolher os dirigentes para os próximos quatro anos".
O ex-primeiro-ministro são-tomense, Patrice Trovoada, apelou, ontem, à militância da ADI para não votar nas eleições legislativas e autárquicas de Setembro, como protesto por considerar que foi afastado da liderança do partido e de concorrer às eleições por "manobras políticas mafiosas, encobertas por decisões judiciais".
"A posição da ADI, que aqui eu quero deixar bem claro, será de protestar contra esse atentado aos nossos direitos, a esta proibição efectiva de escolher quem nós queremos para nos representar, não indo votar, não saindo de casa para votar nas eleições legislativas e autárquicas", disse Patrice Trovoada, num vídeo publicado no Facebook.
Quanto à eleição para a escolha do Governo da Região Autónoma do Príncipe, que decorrerá no mesmo dia, Patrice Trovoada disse que a sua liderança decidiu "conceder a liberdade de voto a todos os militantes".
Durante a comunicação, o político são-tomense, que foi quatro vezes primeiro-ministro do arquipélago e o único a vencer duas eleições com maioria absoluta, justificou o apelo à abstenção por considerar que o poder instalado não tem permitido a participação da "verdadeira e legítima ADI nas próximas eleições legislativas".
No mês passado, dois dias após o anúncio da derrota do candidato apoiado por Patrice Trovoada nas eleições presidenciais de 19 de Julho, o Tribunal Constitucional (TC) divulgou um acórdão, no qual reconheceu o actual primeiro-ministro, Américo Ramos, como presidente da ADI, na sequência do congresso realizado em 27 de Junho, impugnado pela ala do partido fiel a Patrice Trovoada.
Após a decisão do TC, Patrice Trovoada, demitido da chefia do Governo em janeiro de 2025, pelo actual Presidente da República reeleito, Carlos Vila Nova, abriu a porta a uma das promessas que fez em várias ocasiões anteriores, admitindo retirar-se da política.
Líder da ADI há mais de duas décadas, Patrice Trovoada foi primeiro-ministro e chefe de vários Governos de São Tomé e Príncipe, nomeadamente em 2008, 2010-2012, 2014-2018 e 2022-2025, além de ter exercido o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros.
Apoiou diretamente a eleição dos dois últimos Presidentes da República de São Tomé e Príncipe, nomeadamente Evaristo de Carvalho em 2016, e Carlos Vila Nova em 2021, com quem a relação se degradou, culminando com a demissão de Trovoada em 2025, com o Presidente a alegar deslealdade institucional e ausências prolongadas do país.
A crise interna da ADI agudizou-se após Carlos Vila Nova ter rejeitado vários nomes propostos pelo partido para chefiar o Governo, acabando por escolher para primeiro-ministro o ex-secretário-geral do partido, Américo Ramos, contra a indicação da então direcção da ADI.
Desde então, o partido demarcou-se do Governo, rompeu com os militantes que integraram o executivo e perdeu quase uma dezena de deputados do grupo parlamentar, que passaram a independentes. São Tomé e Príncipe realizou eleições presidenciais em 19 de Julho e tem agendadas legislativas, autárquicas e regional para 27 de Setembro.
Américo Ramos pede mais responsabilidade
O Primeiro-Ministro são-tomense apelou à "responsabilidade institucional" dos deputados que bloquearam mais uma sessão plenária, exigindo a destituição do presidente da instituição, denunciado por alegada pressão a juízes e violação do estatuto de deputados.
Um grupo de deputados da oposição são-tomense impediu a realização da última sessão plenária, exigindo a destituição do presidente do parlamento, Abnildo D'Oliveira, denunciado por alegada tentativa de pressão a juízes para libertar um cidadão chileno detido sob mandado da Interpol.
A acção de protesto foi protagonizada por deputados da coligação Movimento de Cidadãos Independentes-Partido Socialista/Partido de Unidade Nacional (MCI-PS/PUN) e, pelo menos, um da Acção Democrática Independente (ADI).
O presidente do parlamento declarou a abertura da sessão, mas foi obrigado a cancelar após cerca de cinco minutos, porque o grupo de deputados permaneceu em pé e circulava na sala aos gritos, impedindo todas as tentativas de intervenção.



