Berlim - Representantes locais do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) e da conservadora União Democrata-Cristã (CDU) proibiram hoje a colocação de novas "pedras da memória" na cidade de Heidenau, no Leste do país.
Berlim - Representantes locais do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) e da conservadora União Democrata-Cristã (CDU) proibiram hoje a colocação de novas "pedras da memória" na cidade de Heidenau, no Leste do país.
Esse acto de cooperação política local já provocou a rejeição dos promotores do projecto.
"Custa-nos a entender como é que isto pôde acontecer", disse Katja Demnig, responsável da fundação que gere o projecto "Stolpersteine" ou "pedras da memória".
O nome da iniciativa refere-se a pequenos blocos de betão nos quais se molda uma placa de metal, instalados em frente aos edifícios onde viveram vítimas da perseguição do regime nazi de Adolf Hitler na Alemanha — período que resultou na morte de seis milhões de judeus.
Na placa, de uma cor dourada característica, estão gravados os nomes das vítimas do Holocausto.
"Posso compreender que nem todos gostem das pedras, mas a moção afirma textualmente que, na maioria das câmaras municipais da Alemanha, elas são encaradas de forma crítica, e isso não é verdade", acrescentou Demnig, referindo-se à decisão tomada pelos vereadores de Heidenau.
Na quinta-feira, segundo o diário Bild, foi aprovada a proposta dos vereadores da AfD e da CDU, que contou também com o contributo de representantes da Iniciativa Cidadã do Alto Elba por Mais Democracia (BOD, na sigla em alemão), a proibir a colocação de novas pedras.
"Futuramente, será rejeitada a instalação das chamadas 'pedras da memória' nas vias públicas e passeios", lê-se na moção, noticiou o Bild.
A votação registou 13 votos a favor da proibição de novas "pedras da memória", seis votos contra e uma abstenção.
Segundo Demnig, o resultado desta votação representa uma "quebra de confiança" por parte da CDU em relação aos seus eleitores, dado que o partido, liderado pelo actual chanceler, Friedrich Merz, rejeita oficialmente qualquer cooperação com a AfD, tal como os restantes partidos representados no Parlamento alemão.
"Uma vez que Friedrich Merz afirma frequentemente que está a ser mantido um cordão sanitário em torno da AfD — e que este não será quebrado —, isto representa, naturalmente, uma quebra de confiança para todos os eleitores da CDU", declarou, referindo-se à cooperação entre os democratas-cristãos e a extrema-direita contra as "pedras da memória".
A iniciativa aprovada estabelece a preferência por que actos em memória das vítimas do Holocausto se realizem num cemitério de Heidenau, o que Demnig também condenou.
"Que agora se volte a desterrar os seus nomes para fora do centro da cidade, levá-los para o cemitério e deixá-los lá, com a intenção de ali criar memória histórica, é uma autêntica loucura", criticou a responsável, sobre o destino a dar aos nomes das vítimas cujo esquecimento pela sociedade este projecto pretende impedir.
Na Saxónia, estado federado do leste da Alemanha onde se situa Heidenau, a CDU demonstrou divisão face à medida adoptada pelos vereadores daquela cidade de cerca de 17.000 habitantes.
Embora o presidente regional, o democrata-cristão Michael Kretschmer, tenha afirmado que os municípios têm liberdade para homenagear as vítimas do nacional-socialismo da forma que considerarem adequada, o secretário-geral do partido na região, Tom Unger, apoiou a iniciativa da fundação de Demnig, informou o jornal local Sächsische Zeitung.
Em Berlim, o Governo federal, composto pela CDU e pelos sociais-democratas, não quis comentar a decisão de Heidenau.
O porta-voz do Governo, Steffen Meyer, admitiu, numa conferência de imprensa regular na capital alemã, ter hoje tomado conhecimento do facto através da comunicação social, e sublinhou: "A memória, em particular a das vítimas do Holocausto, é para nós um tema muito importante". AM




