Jaquelina Mabiala Ngulo é o rosto da Women in Tech Angola, desafio que aceitou há um ano. Hoje reconhece o caminho feito e faz o balanço com a Forbes sobre o que se fez, mas também o que ficou para 2027.
Jacquelina, que balanço faz deste primeiro ano?
O primeiro ano da Women in Tech Angola foi, acima de tudo, um ano de transformação: passámos de uma comunidade para uma plataforma de impacto, combinando liderança, capacitação, mentoria, empregabilidade, advocacy e internacionalização. Os números mostram essa evolução. No primeiro ano, alcançámos 250 mulheres, realizámos 266 capacitações, proporcionámos 15 oportunidades profissionais, 8 empregos e 7 estágios, e realizámos 53 mentorias. A nossa rede também alcançou 63 países e cinco continentes, demonstrando que o talento angolano pode estar conectado a uma rede tecnológica global. Um dos resultados que mais nos orgulha é termos conseguido transformar networking em oportunidades concretas. O Programa Nzila resultou em inserção profissional efectiva, com 8 empregos directos e 7 estágios profissionais. Também construímos um ecossistema de parceiros, mentores e conselheiros que tornou possível ampliar o alcance das nossas iniciativas. Tivemos ainda presença em espaços nacionais e internacionais de discussão tecnológica, incluindo o ANGOTIC e o Women in Tech Global Summit. Por isso, o balanço que fazemos é positivo: não medimos este primeiro ano apenas pelo número de pessoas alcançadas, mas pelas portas que conseguimos abrir.
Abriram-se portas, mas pelo caminho houve coisas que ficaram por fazer…
O principal desafio que ficou por concretizar foi levar a nossa rede para além de Luanda com a dimensão e velocidade que gostaríamos. Começámos a dar os primeiros passos nessa direcção e já contamos com pequenas representantes e pontos de presença na Lunda Norte , Huambo e Benguela, mas ainda existe um enorme potencial por explorar. Queremos que uma jovem que vive fora da capital tenha acesso às mesmas possibilidades de capacitação, mentoria, networking e oportunidades que uma jovem em Luanda. Também ficou por consolidar uma estrutura de financiamento mais sustentável para permitir que os nossos programas cheguem de forma contínua a mais províncias. O nosso primeiro ano mostrou que existe talento em Angola. O próximo desafio é garantir que a geografia não seja uma barreira para esse talento chegar às oportunidades.
Como é que vão superar essas dificuldades?
Uma das maiores dificuldades foi a deslocação para zonas mais recônditas do país, sobretudo devido às condições das estradas, às distâncias e aos custos associados à mobilidade das equipas e das participantes. A falta ou limitação de acesso à Internet em determinadas regiões também representa um obstáculo importante, principalmente para uma organização cuja missão está directamente ligada à tecnologia e à educação digital. Outro desafio é o acesso a patrocínios e financiamento sustentável. Muitas iniciativas sociais dependem de empresas e pessoas que estejam dispostas não apenas a apoiar financeiramente, mas a compreender que investir em inclusão, educação e desenvolvimento de talento é também investir no futuro do país. Existe ainda um desafio cultural: precisamos de desenvolver mais uma cultura de filantropia, voluntariado e compromisso com causas sociais como propósito de vida, e não apenas como uma actividade pontual ou responsabilidade que se cumpre porque a lei ou uma política empresarial assim determina. No caso da diversidade e inclusão, ainda encontramos alguma resistência e, por vezes, uma compreensão limitada sobre o verdadeiro propósito destes movimentos. É fundamental mostrar que promover a participação das mulheres na tecnologia não significa retirar espaço a ninguém; significa ampliar o acesso às oportunidades e aproveitar melhor todo o talento disponível no país.
E passado um ano, quais são as metas futuras?
A nossa grande meta para 2027 é alcançar 1.000 mulheres, ampliando significativamente o número de mulheres capacitadas, mentoradas e conectadas a oportunidades no sector tecnológico. Mas queremos que esse crescimento seja também geográfico. A nossa prioridade será fortalecer a representação da Women in Tech Angola fora de Luanda, consolidando a presença no Huambo, Benguela e Lunda e expandindo progressivamente para outras províncias. Queremos construir uma rede nacional em que as mulheres possam capacitar-se, encontrar mentoras, criar redes profissionais, aceder a oportunidades de emprego e empreendedorismo e participar nos espaços onde as decisões sobre tecnologia e inovação são tomadas. Ao mesmo tempo, queremos fortalecer as parcerias com empresas, organizações e pessoas singulares, criando uma base de apoio mais sustentável para os programas. A nossa visão para os próximos anos é simples, mas ambiciosa: que nenhuma jovem angolana deixe de desenvolver o seu potencial tecnológico por causa do lugar onde nasceu, da sua condição económica ou da ausência de uma rede de contactos. Se o primeiro ano foi sobre provar que é possível criar impacto, o próximo será sobre escalar esse impacto e construir uma verdadeira nova geografia do talento tecnológico em Angola.



