Seis jornalistas da plataforma independente de verificação de factos Matsadaash foram detidos pelas autoridades egípcias, depois de o Ministério do Interior acusar o órgão de comunicação de operar sem licença e de manter ligações com a Irmandade Muçulmana, organização proibida pelas autoridades do país.
As detenções ocorreram entre segunda e terça-feira, numa operação que atingiu toda a equipa editorial da plataforma. Os jornalistas foram identificados como Mohamed Ashraf Abu Emeira, Abdallah Qadry, Islam Barakat, Omar Helal, Mohamed Mahmoud e Mohamed Adel. Segundo a Iniciativa Egípcia para os Direitos Pessoais, o paradeiro dos seis continuava desconhecido e os detidos não tinham tido acesso às famílias nem à equipa jurídica.
O Ministério do Interior egípcio afirmou que a Matsadaash é uma página online não licenciada, gerida a partir do exterior, e acusou os jornalistas de prepararem informações que classificou como falsas e fabricadas para posterior publicação. As autoridades alegam ainda que a plataforma estaria ligada aos comités de comunicação da Irmandade Muçulmana.
A Matsadaash rejeita as acusações e afirma não possuir qualquer ligação a partidos ou organizações políticas. A plataforma sustenta que, desde a sua criação, em 2018, se dedica à verificação de informações e que já desmentiu conteúdos falsos atribuídos tanto a autoridades como a actores associados à Irmandade Muçulmana.
A organização afirma ainda que as autoridades não apresentaram, até ao momento, uma explicação pública detalhada sobre a base legal das detenções nem permitiram que os jornalistas contactassem os seus familiares e advogados. A Iniciativa Egípcia para os Direitos Pessoais confirmou que representa os seis profissionais.
O Sindicato dos Jornalistas egípcio também contestou parte da versão apresentada pelo Ministério do Interior e afirmou que tomou conhecimento das detenções através das famílias e dos advogados dos jornalistas. O sindicato anunciou esforços para obter informações sobre o paradeiro dos profissionais e garantir apoio jurídico.
A detenção da equipa inteira provocou reacções de organizações de direitos humanos e de defesa da liberdade de imprensa. Mais de 80 organizações e meios de comunicação independentes subscreveram um apelo pela libertação dos jornalistas e manifestaram preocupação com o que consideram um agravamento da pressão sobre o jornalismo independente no Egipto.
A Matsadaash, criada em 2018 como plataforma de fact-checking, desenvolveu posteriormente trabalhos de investigação jornalística e ganhou notoriedade pela verificação de declarações públicas e informações divulgadas por autoridades e outras entidades. O seu site encontra-se bloqueado no Egipto, embora a página da plataforma no Facebook tenha mais de um milhão de seguidores, segundo a Associated Press.
Com estas detenções, a Iniciativa Egípcia para os Direitos Pessoais contabiliza 26 jornalistas detidos no Egipto em ligação com o exercício da profissão.
O caso coloca novamente no centro do debate as condições para o exercício do jornalismo independente no Egipto, sobretudo num contexto em que as autoridades recorrem frequentemente a acusações relacionadas com a divulgação de notícias falsas contra jornalistas detidos.




