O trágico acidente ocorrido na passada segunda-feira na Estrada Nacional 100 (EN-100), na zona da Gangula, província do Cuanza-Sul, mexeu com o mundo, gerou profunda dor e desestruturou dezenas de famílias.
As marcas da tragédia continuam vivas na memória de quem perdeu entes queridos e de quem testemunhou as imagens chocantes de corpos carbonizados na via pública. Entre as histórias mais devastadoras está a de um recém-nascido com menos de cinco dias de vida. O bebé, que representava o futuro e a alegria de pais que planearam o seu nascimento com amor e grandes expectativas, não teve a oportunidade de crescer ou de realizar os seus sonhos. Tragicamente, os pais também morreram no local, interrompendo abruptamente uma linhagem familiar e silenciando projectos de vida que poderiam contribuir para o aparelho do Estado ou para o sector privado. O acidente envolveu um autocarro que transportava 47 passageiros e uma motorizada de três rodas que circulava com quatro pessoas e combustível em bidões. O impacto violento gerou uma forte explosão, resultando em 22 mortos e 12 feridos graves. A dimensão da catástrofe comoveu toda a sociedade e motivou uma forte onda de solidariedade. O Presidente da República, João Lourenço, manifestou publicamente o seu pesar e solidariedade para com as famílias enlutadas. Enquanto as mensagens de apoio se multiplicam por todo o país, equipas técnicas de criminalística trabalham contra o tempo para identificar os corpos carbonizados através de complexos exames de ADN. Este sinistro levanta sérios questionamentos sobre a eficácia da fiscalização e das acções preventivas das autoridades de trânsito. Embora o excesso de velocidade seja apontado como a causa presumível, o problema subjacente é muito mais profundo. As estatísticas indicam que a província do Cuanza-Sul é uma das regiões mais críticas em termos de sinistralidade rodoviária no país, dados que deveriam servir de base científica para identificar pontos negros e motivar o reforço imediato do policiamento nessas vias. Além da velocidade, salienta-se a grave negligência no acondicionamento e transporte de carga perigosa. O transporte ilegal de combustível inflamável numa motorizada de três rodas, sem qualquer condição técnica ou de segurança, é uma infracção flagrante que dificilmente passaria despercebida às autoridades de fiscalização local. O consumo de álcool durante a condução e o transporte irregular de mercadorias perigosas são temas recorrentes nas campanhas de sensibilização, mas continuam a ser tragicamente ignorados por muitos condutores nas estradas nacionais. Os acidentes de viação continuam a ser uma das maiores causas de mortalidade a nível global. Segundo dados das Nações Unidas, 92% das mortes nas estradas ocorrem em países de baixo e médio rendimento, sendo a principal causa de morte entre crianças e jovens dos 5 aos 29 anos. O impacto transcende o drama humano, gerando elevados custos macroeconómicos que comprometem o crescimento dos países e agravam as desigualdades sociais. Em Angola, a sinistralidade rodoviária assume contornos de crise pública, posicionando-se frequentemente como a segunda maior causa de morte, superada apenas pela malária. Só nos últimos seis meses, o país registou mais de 6.000 acidentes, que resultaram em mais de 1.500 mortos e 7.000 feridos. Por uma triste ironia do destino, o acidente da Gangula aconteceu apenas dois dias após a inauguração do Hospital Especializado de Tratamento de Queimados Presidente Julius Nyerere, em Luanda. A unidade sanitária de alta complexidade tem sido crucial para o socorro e tratamento dos feridos mais graves, mas a resposta hospitalar tardia não substitui a necessidade absoluta de prevenção. A recente campanha lançada pelo Ministério do Interior, assente na disciplina e na ética como base do policiamento, precisa de se traduzir em medidas práticas e visíveis no terreno para devolver a confiança aos cidadãos. A requalificação da estrada e a colocação de sinalização vertical, horizontal e luminosa adequada nos cruzamentos e entroncamentos críticos são vitais para mitigar os erros humanos e as falhas mecânicas. As sanções administrativas e as multas devem ser aplicadas de forma rigorosa e sem excepções, combatendo a impunidade de condutores reincidentes. A segurança rodoviária é uma responsabilidade colectiva que exige o envolvimento directo do Estado, das operadoras de transporte e de cada cidadão angolano. Só através de uma fiscalização implacável, ética e tecnologicamente avançada será possível garantir uma mobilidade segura e evitar que tragédias devastadoras como a da Gangula continuem a ceifar o futuro da nossa nação. * Director Executivo-Adjunto




