Angola defende o reforço da cooperação regional e uma resposta coordenada entre as Comunidades Económicas Regionais (CER) para fazer frente às ameaças transfronteiriças que afectam os oceanos.
A posição foi sustentada em Luanda pelo embaixador de Angola na Etiópia e representante permanente junto da União Africana (UA), Miguel Bembe, durante a sessão de alto nível da 3.ª edição da Semana Africana da Economia Azul (ABEW 2026). O diplomata sublinhou que nenhum Estado africano tem capacidade para proteger milhares de quilómetros de costa de forma isolada. “É aqui que entram as nossas Comunidades Económicas Regionais. Elas têm de deixar de ser fóruns de conversa política e passar a ser plataformas operacionais”, defendeu. Durante o painel focado na transição dos compromissos políticos para a implementação prática, Miguel Bembe alertou que a natureza dos riscos marítimos mudou profundamente. “O nosso grande monstro marítimo já não flutua apenas à superfície através da pirataria tradicional; ele opera agora no fundo do oceano”, explicou. O embaixador destacou um dado crítico: mais de 95% do tráfego global de dados, comunicações e transacções financeiras do continente africano circulam por cabos de fibra óptica subaquáticos. Uma eventual sabotagem destes activos estratégicos geraria consequências devastadoras para a economia continental. Para o embaixador, mitigar estes riscos exige uma coordenação total entre as diferentes fachadas marítimas. Ele exemplificou que um incidente na costa oriental (como em Moçambique ou na Tanzânia, no Índico) tem impacto instantâneo na segurança de dados e no comércio gerido no Atlântico. Face a este cenário interligado, defendeu uma articulação urgente entre as comunidades da África Austral (SADC), Central (CEEAC) e Ocidental (CEDEAO). No contexto da sustentabilidade baseada em dados, o representante permanente na UA realçou que a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada drena anualmente milhões de dólares das economias africanas. O diplomata concluiu que o combate eficaz a este crime ambiental e económico depende da partilha em tempo real de informações de satélite e de inteligência marítima entre os Estados-membros.Miguel Brás




