Angola deve redefinir a sua estratégia de defesa face às novas dinâmicas dos conflitos globais, defendeu, em Luanda, o embaixador de Angola na Etiópia e representante permanente junto da União Africana (UA), Miguel Bembe.
O diplomata apresentou esta visão durante uma aula magna subordinada ao tema “Diplomacia de Segurança Nacional — Lições Estratégicas dos Conflitos no Médio Oriente para Angola”, realizada, na última sexta-feira, no Instituto de Defesa Nacional (IDN), no âmbito do encerramento da primeira edição do curso sobre o “Papel da Diplomacia de Segurança Nacional nos Estados”.
Miguel Bembe considerou ultrapassada a premissa segundo a qual a distância geográfica constitui um escudo protector contra conflitos externos. Segundo o diplomata, os acontecimentos no Médio Oriente demonstram a consolidação de novas formas de guerra, em que actores não-estatais recorrem a ferramentas de assimetria tecnológica, como engenhos aéreos não tripulados de baixo custo e incursões no ciberespaço capazes de desafiar a superioridade das estruturas militares convencionais.
Para Angola, uma das consequências mais imediatas desta nova realidade, segundo Miguel Bembe, está relacionada com o impacto do estrangulamento de importantes rotas marítimas internacionais, como o Mar Vermelho e o Estreito de Bab-el-Mandeb.
Quando essas vias são afectadas, explicou, os custos logísticos e os seguros do transporte marítimo aumentam à escala global, com reflexos directos sobre países fortemente dependentes das importações. Por ser um país dependente da importação, Miguel Bembe disse que Angola acaba por sentir rapidamente os efeitos de conflitos ocorridos a milhares de quilómetros de distância, através da pressão sobre os preços internos e da consequente redução do poder de compra das famílias. “A volatilidade externa passou a ditar o custo de vida interno em tempo real”, afirmou.
Diplomacia e especialização
Para tornar mais eficaz a projecção externa do país, Miguel Bembe defendeu a sofisticação técnica das representações diplomáticas no exterior, sobretudo das que desempenham funções de ligação e observação em matéria de segurança. Na sua perspectiva, o perfil desses quadros já não se pode limitar a competências administrativas. “Exige competências profundas em áreas como a segurança dos dados, a análise geoespacial e a leitura avançada de sinais de risco económico global”, frisou.
Miguel Bembe defendeu, ainda, que o país adopte um pragmatismo rigoroso na definição das suas alianças externas, num contexto internacional marcado pela multipolaridade e por uma crescente polarização entre blocos. Para o diplomata, a salvaguarda dos interesses nacionais passa pela diversificação das parcerias de abastecimento técnico e tecnológico, de forma a reduzir vulnerabilidades externas.



