A recuperação do poder de compra, a melhoria das condições sociais, o cumprimento das promessas públicas e o aprofundamento das reformas institucionais estão entre as principais expectativas de cidadãos e especialistas em relação ao discurso sobre o estado da Nação, a ser proferido pelo Presidente da República, João Lourenço, no dia 15 deste mês, na Assembleia Nacional.
Ouvidos pelo Jornal de Angola, cidadãos de diferentes sectores e especialistas em Benguela, Huambo e Zaire defenderam uma mensagem presidencial centrada nos principais problemas do quotidiano, mas também nos resultados alcançados e nas medidas previstas para responder aos desafios que persistem.Mais do que novos anúncios, os intervenientes esperam conhecer as medidas capazes de produzir efeitos concretos na vida das famílias, sobretudo nos domínios Económico e Social.
A situação económica e a recuperação do poder de compra das famílias são as principais preocupações manifestadas pelos intervenientes.
O secretário provincial do PRS no Huambo, António Soliya Selende, defendeu que a mensagem presidencial deve abordar a inflação dos principais produtos da cesta básica, assim como as medidas destinadas a conter a subida dos preços e preservar o rendimento das famílias.
O político considera, igualmente, importante que o Presidente da República esclareça as políticas preparadas para enfrentar os desafios macroeconómicos e apresente mecanismos de acompanhamento e avaliação capazes de permitir aos cidadãos aferir a eficácia das medidas adoptadas.Na mesma linha, o economista Maximiliano Lupenha considera fundamental que a recuperação do poder de compra ocupe lugar de destaque na mensagem presidencial.
O economista referiu-se à necessidade de explicação da relação entre a evolução da inflação e a realidade económica enfrentada diariamente pelas famílias, defendendo medidas capazes de acelerar a recuperação do rendimento, sobretudo dos agregados de menor poder económico.
Para Maximiliano Lupenha, a produção nacional deve, também, continuar a merecer atenção, particularmente a indústria transformadora, a agricultura e os sectores capazes de reduzir a dependência de produtos importados.
O economista defende novas estratégias para impulsionar a produção nacional, promover a inovação tecnológica e reforçar a competitividade dos produtos angolanos, tanto no mercado interno como no externo.
Saúde, educação e condições de vida
Os cidadãos ouvidos pelo Jornal de Angola esperam uma abordagem directa aos problemas sociais que afectam as comunidades.
Entre as principais preocupações apontadas estão o saneamento básico, o acesso à água canalizada e potável, a disponibilidade de medicamentos nos centros de saúde e as condições das escolas.
A estudante universitária Madalena Nelson, residente no Soyo, província do Zaire, defendeu a apresentação de políticas económicas capazes de produzir efeitos na vida dos cidadãos e considerou necessário esclarecer o que o Executivo pretende fazer, a curto, médio e longo prazos, para melhorar as condições de vida da população.
Para o electricista José Tati Biala, também residente no Soyo, a cesta básica deve merecer atenção especial, devido às dificuldades enfrentadas por muitas famílias. O cidadão apontou, ainda, o desemprego juvenil, a necessidade de reforçar os sectores da Saúde e Educação, a habitação e a segurança pública como questões a abordar.
No domínio da saúde, António Soliya Selende considera importante que a mensagem presidencial faça referência à construção e melhoria de infra-estruturas, ao reforço dos equipamentos médicos e à qualidade dos serviços hospitalares.
O dirigente partidário citou como exemplos o novo Hospital de Queimados, em Luanda, e o Hospital Pediátrico do Huambo, em fase de conclusão, considerando-os projectos relevantes no esforço de melhoria da assistência médica.
Obras em espera
Outra expectativa manifestada pelos cidadãos está relacionada com o cumprimento das promessas e a conclusão dos projectos anunciados pelo Executivo.
No Soyo, o professor Marcelo Nenkama defendeu que o discurso deve abordar as promessas eleitorais feitas na província do Zaire, com destaque para as obras dos hospitais gerais de Mbanza Kongo e do Soyo, assim como as centralidades previstas para os dois municípios.
O docente destacou, por outro lado, as obras em curso do Instituto Politécnico Superior do Soyo, do Aeroporto Nimi a Lukeni, em Mbanza Kongo, e das principais estradas da província.
José Tati Biala considera que a mensagem presidencial deve, também, servir para apresentar as medidas já implementadas, os resultados alcançados e as estratégias em curso para reduzir a vulnerabilidade social.
Na sua perspectiva, os deputados, enquanto representantes do povo, devem acompanhar o cumprimento das promessas e dos compromissos apresentados pelo Executivo.
O mesmo entendimento é partilhado por Vicente Lopes, 75 anos, residente na comuna da Musserra, para quem a situação social nas comunidades exige medidas urgentes.
O cidadão defende uma mensagem capaz de apresentar soluções concretas para os problemas identificados nas comunidades e que, segundo considera, chegam ao conhecimento das estruturas superiores do Estado através dos mecanismos administrativos.
Agricultura e produção nacional
A agricultura é outro sector apontado como estratégico para o desenvolvimento económico e para a melhoria das condições de vida.
António Soliya Selende defendeu que o sector agrícola deve ocupar um espaço relevante na mensagem presidencial, tendo em conta os objectivos de aumento da produção nacional, segurança alimentar e diversificação da economia.
No Huambo, o político destacou investimentos nos pólos industriais, na Plataforma Logística da Caála e na fábrica de vacina animal, considerando-os importantes para a modernização do sector Agro-pecuário.
Referiu, igualmente, projectos em desenvolvimento noutras regiões do país, incluindo Cunene, Moxico-Leste, Malanje e Cuanza-Norte, muitos enquadrados no Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Agrário (FADA).
O pastor Pedro Buadi, da Igreja Reavivamento Unido de Angola (IREUA), também espera medidas dirigidas ao empresariado nacional e aos produtores agrícolas.
Justiça reclama reformas
As expectativas abrangem, igualmente, o funcionamento das instituições do Estado. O advogado Benja Satula defendeu reformas profundas no sector da Justiça, com incidência sobre a melhoria da qualidade dos recursos humanos, infra-estruturas e o reforço da autonomia financeira dos tribunais.
Entrevistado a partir de Benguela, para onde se tinha deslocado em missão de trabalho, o jurista considerou a autonomia financeira fundamental para assegurar melhores condições de funcionamento e reduzir constrangimentos na administração da Justiça.
Benja Satula reconhece os passos já dados no sector, mas considera necessário avançar para reformas estruturais capazes de responder aos desafios que ainda persistem no sistema judicial.
A expectativa, segundo o advogado, é de uma mensagem que reconheça os avanços alcançados e apresente medidas destinadas a reforçar a autonomia dos tribunais, melhorar as suas infra-estruturas e qualificar os recursos humanos.
Produção nacionale o poder de compra
As expectativas recolhidas nas três províncias convergem, apesar das diferenças entre os sectores representados.
No Huambo, o foco recai sobre a economia, produção nacional, infra-estruturas e poder de compra.
No Zaire, os cidadãos colocam no centro questões relacionadas com as condições de vida, cumprimento de promessas e execução de obras. Em Benguela, a atenção volta-se para as reformas institucionais e o funcionamento da Justiça.
O pastor Pedro Buadi espe-ra uma mensagem capaz de reflectir a realidade do país e apresentar medidas para melhorar as condições básicas dos angolanos e dos estrangeiros residentes em Angola. Entre as matérias que considera importantes estão, também, o reconhecimento das igrejas e o apoio ao empresariado nacional e aos produtores agrícolas.
No conjunto, os cidadãos e especialistas esperam conhecer não apenas o balanço da situação do país, mas também as medidas a adoptar para responder aos problemas que continuam a afectar as famílias e as comunidades.
A expectativa, em diferentes sectores da sociedade, é de um discurso capaz de ligar os resultados alcançados aos desafios ainda existentes e de apresentar caminhos concretos para os próximos anos.




