A extracção de ADN de ossadas é um dos processos mais complexos da medicina legal, segundo o médico-legista Aurélio Rodrigues, membro da equipa técnica da CIVICOP. O especialista revelou que o procedimento exige um grau de certeza superior a 99% e depende, fundamentalmente, de amostras de familiares de primeiro grau.
Em declarações exclusivas ao Jornal de Angola, o especialista detalhou o método, desde a recolha de amostras em campo, passando pelas análises laboratoriais, até ao contacto com as famílias.Segundo Aurélio Rodrigues, o desafio é complexo porque o material genético em restos mortais antigos ou expostos a factores ambientais encontra-se fortemente degradado e aprisionado numa matriz mineral dura. “O processo desenvolve-se em várias etapas rigorosas, como a limpeza, descontaminação, pulverização, descalcificação, digestão enzimática e purificação”, mencionou. Após a obtenção do perfil genético da ossada, salientou, segue-se o confronto com o ADN dos familiares, baseado no cruzamento estatístico e genético entre as amostras. “Através da análise de marcadores genéticos, os geneticistas determinam os alelos presentes e, em seguida, recorrem a softwares bioestatísticos especializados. Eles calculam a probabilidade de aquele perfil ósseo pertencer ao ente querido desaparecido versus a probabilidade de pertencer a um indivíduo aleatório da população”, explicou. O médico-legista salientou que a maior probabilidade de identificação provém de parentes de primeiro grau, como progenitores, filhos e irmãos germanos (do mesmo pai e mãe). Trabalho multidisciplinar O médico-legista disse, ainda, que a identificação e contacto dos familiares resulta de um trabalho multidisciplinar entre equipas sociais, investigadores e autoridades locais, incluindo entrevistas a familiares, colegas e amigos, e o mapeamento familiar para traçar a árvore genealógica do desaparecido. “O contacto é feito de forma individual e privada, agendando-se reuniões informativas para explicar o propósito e a importância da sua participação voluntária”, sublinhou Aurélio Rodrigues. A equipa tem realizado também a recolha de ADN ao domicílio. Segundo o especialista, essas deslocações ocorrem em três cenários principais: quando os familiares têm mobilidade reduzida ou idade avançada; quando residem em zonas rurais distantes e enfrentam carência económica; ou por razões de humanização, para proporcionar “um ambiente seguro, familiar e emocionalmente mais confortável”. Sobre a privacidade das famílias, Aurélio Rodrigues assegurou que o processo assenta em três pilares fundamentais: o consentimento informado, livre e esclarecido, com a finalidade exclusiva de identificação do ente querido; o uso restrito e protegido, com a garantia expressa de que os dados não serão utilizados em investigações criminais; e a anonimização e codificação, mediante a atribuição de um código alfanumérico único a cada amostra recolhida.




