Fernando Pedro Gomes, Daniel Afonso, Kiaku Kiala, Carlito Roberto e Sofia Francisco na corrida para suceder a Nimi a Simbi
A corrida para a liderança da FNLA está oficialmente lançada. Cinco candidatos concorrem à sucessão de Nimi a Simbi, cujo mandato termina em Setembro, altura em que acontece o VI Congresso electivo.
Fernando Pedro Gomes, Daniel António Afonso, Kiaku Samuel Kiala, Carlito Roberto e Sofia Rodrigues Coelho Francisco foram admitidos a concorrer à presidência do partido fundado por Álvaro Holden Roberto, por terem reunido a maior parte dos requisitos exigidos. Álvaro Manuel e Pedro Noa Wete viram as candidaturas “chumbadas”.
Entre os requisitos exigidos está a obrigatoriedade do candidato ser membro do Comité Central da FNLA e ter pelo menos, 15 anos de militância ininterruptos, ter ocupado cargos na direcção do partido com uma boa folha de serviço, registo criminal limpo, não sofrer de doença grave e ter “equilíbrio psíquico e lucidez moral”.
De acordo com o coordenador da Comissão Preparatória do Congresso, Ndonda Nzinga, na votação para se encontrar os candidatos apurados, Carlito Roberto teve a maior pontuação (35 votos a favor, nenhum contra e uma abstenção), a frente de Pedro Gomes (33/0/2), Daniel Afonso (26/0/1), Kiaku Kiala (21/1/11) e Sofia Francisco (20/8/4). Álvaro Manuel teve seis votos a favor, 22 contra e sete abstenções, enquanto Pedro Wete obteve apenas cinco votos a favor, 20 contra e sete abstenções.
Caso a tendência da votação persista até ao Congresso, a grande disputa pelo alcance do poder na FNLA deverá estar concentrada em apenas dois candidatos: Carlito Roberto e Pedro Gomes, com uma ameaça de Daniel Afonso, antigo secretário-geral do braço juvenil do partido.
Apresentamos, nesta edição, o perfil e as principais motivações dos candidatos.
“Vou empreender um processo urgente de revitalização”
Kiaku Samuel Kiala é o mais jovem entre os cinco candidatos à presidência da FNLA. Nasceu há 46 anos, em Macocola, província do Uíge, mas é em Luanda, para onde se transferiu devido ao conflito armado, onde concluiu o ensino médio e frequentou o ensino superior (até ao 3.º ano do curso de Direito).
Antigo secretário-geral da JFNLA, Kiaku Kiala justifica a sua candidatura com a necessidade de união do partido e, sobretudo, porque, “durante longos anos, a FNLA orientou a sua acção por uma lógica de gabinete, descurando o trabalho de rua, a mobilização da base e a fidelidade à sua matriz histórica”. O candidato disse ter sido encorajado por um grupo de militantes para empreender um “processo urgente de saneamento e revitalização do partido”.
Caso seja eleito presidente da FNLA, as prioridades de Kiala passam pela aposta na juventude, mulheres e antigos combatentes, valorizando também o “capital intelectual”.
“Sou capaz de reerguer a FNLA”
Filho do fundador da FNLA, Carlito Roberto volta a candidatar-se à liderança do partido, depois de já o ter feito no último congresso, realizado em 2021 e cujas eleições foram vencidas pelo presidente cessante, Nimi a Simbi.
Jurista de formação e antigo deputado à Assembleia Nacional (mandato de 2008 a 2012), Carlito Roberto justificou a nova candidatura por, de acordo com a sua avaliação e, alegadamente, da esmagadora maioria dos militantes, o mandato da actual direcção ser “totalmente negativo”.
O candidato, nascido na RDC, há 64 anos, declarou que é “capaz de reerguer a FNLA” e evitar a sua extinção, um cenário que muitos acreditam que pode acontecer, depois das eleições de 2027, caso o partido não se reunifique. “Tenho ideias positivas para ajudar o partido a terminar com o conflito.
Porque, contrariamente ao que se disse em 2021, o partido não está reconciliado. Objectivamente, as pessoas não se entendaram”, afirmou, em entrevista ao Jornal de Angola.
A FNLA é conhecida como “o partido dos velhos”, mas Carlito Roberto promete inverter o quadro, apostando na mobilização da juventude. “Temos de pensar que a maioria da população angolana é jovem e esta não pode ser colocada de parte. Temos de mudar os lugares de cada geração”, defendeu.
“Temos projectos para engrandecer o partido”
O terceiro mais votado no apuramento de candidatos à presidência da FNLA nasceu há 54 anos no Nzeto, província do Zaire. A falta de “dinamismo político e institucional” do partido é o principal motivo da candidatura de Daniel Afonso, que considera “medíocre” o mandato da direcção cessante.
Formando em Ciências da Educação (pela UAN) e Direito (pelo Piaget), o aspirante à sucessão de Nimi a Simbi garante que “reúne condições para merecer a confiança dos delegados ao VI Congresso do partido” e ser catapultado ao cargo de presidente da FNLA. “Temos um programa de trabalho bastante rico em projectos e programas que visam desenvolver e engrandecer o partido”, afirmou Daniel Afonso, o único candidato que apresentou ao Jornal de Angola um programa de acção.
Segundo o candidato, caso seja eleito, a FNLA deixará de ser o “partido dos velhos”, porque vai dar mais atenção aos jovens, promovendo a sua projecção dentro das estruturas do partido. Daniel Afonso afasta um cenário de extinção do partido depois das eleições de 2027. “A FNLA não vai desaparecer do cenário político angolano, porque vem aí uma nova direcção, com o lema ‘Uma direcção inclusiva baseada na geopolítica interna, rumo à vitória e à mudança’”, declarou, o candidato referindo-se ao seu slogan de campanha.
“Desta vez vamos ganhar”
Nascido em Nambuangongo, António Fernando Pedro Gomes concorre pela terceira vez à liderança da FNLA. Entrevistado pelo Jornal de Angola, o docente universitário e antigo assessor para os Assuntos Políticos de Holden Roberto justificou a sua insistência em se candidatar com a necessidade de unificar o partido.
“O ideal pelo qual lutamos, que é a unidade e reconciliação entre irmãos, nunca foi concretizado”, afirmou o candidato, que prometeu continuar a lutar até à coesão da FNLA. Relativamente ao facto de já ter concorrido por duas vezes nas quais obteve resultados negativos, o antigo secretário para os Assuntos Jurídicos e Constitucionais afirmou que “desta vez é de vez. Vamos ganhar”.
Tal como Carlito Roberto, Pedro Gomes considera desastrosa a gestão da actual direcção. “Falar da FNLA ou da avaliação do seu desempenho é perguntar sobre o sexo do cão – perdoe-me a expressão. Mas todos sabemos que a FNLA está sem acção há mais de quatro anos e 11 meses”, disse. “Já não é uma questão de falta de verbas, é uma questão de sabotagem e de destruição premeditada da FNLA!”, acusou o político, para quem “só não vê quem não quer ver”.
À semelhança d os restantes candidatos, Pedro Gomes, que amanhã completa 69 anos, pretende ter a juventude como prioridade, prometendo que 50 por cento dos membros da direcção vão ser jovens.
“Quero ser uma líder inclusiva e que ouve todos os militantes”
Antiga secretária provincial do braço juvenil da FNLA (AMA) em Luanda e, posteriormente, secretária nacional para os Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, Sofia Francisco é a única senhora a concorrer à liderança do partido.
Questionada pelo Jornal de Angola sobre o que a motiva a concorrer, apontou a falta de transparência no seio da FNLA, o que, em seu entender, está a afundar o partido.
Natural de Cambambe, a candidata tem como habilitações literárias o curso Pré-Universitário, na opção de Ciências Sociais, mas garantiu ter muitas valências do ponto de vista político e de cultura geral, razão pela qual não se coibiu de avançar para a disputa do alto cadeirão da FNLA.
“Chegou a altura de reafirmarmos os nossos valores de trabalho árduo e sacrifício, bem como criar o futuro mais brilhante para os militantes e o povo em geral”, afirmou Sofia Francisco, que promete trabalhar para a unidade do partido e ser “uma líder inclusiva e representativa que ouve e atende as necessidades de todo os militantes”.
Histórico
A FNLA foi fundada em 1954, com o nome de União das Populações do Norte de Angola (UPNA), assumindo em 1958 a designação de União das Populações de Angola (UPA). Em 1962, a UPA, ao absorver outro grupo anti-colonial — o Partido Democrático de Angola (PDA) — constituiu a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA).
Primeiro grande movimento de libertação nacional, antes do MPLA e da UNITA, a FNLA deixou, entretanto, de ter protagonismo, sobretudo depois das eleições de 1992, nas quais teve um péssimo resultado. Ainda sob a liderança do presidente fundador, Álvaro Holden Roberto, o partido obteve apenas 2,40 por cento do total de votos, elegendo cinco deputados, num Parlamento composto por 220 assentos.
Nas legislativas de 2008, sob a presidência do nacionalista Ngola Kabangu, que sucedeu à Holden Roberto, falecido no ano anterior, a FNLA baixou a representação parlamentar, reduzindo o número de assentos de cinco para três, fruto da percentagem obtida na votação (1,11%).
Com a crise de liderança acentuada, opondo Ngola Kabangu a Lucas Ngonda, este conseguiu, entretanto, legitimar-se no poder, em 1999, mas, desunido como estava, o partido não conseguiu evitar mais uma queda no número de assentos na Casa das Leis. A FNLA perdeu o grupo parlamentar e ficou reduzida a dois deputados.
O pior, entretanto, ainda estava para acontecer. Nas eleições seguintes, realizadas em 2017, e ainda sob a liderança de Lucas Ngonda, o partido baixou a percentagem de votos para 0,91 por cento, o que lhe permitiu eleger apenas um deputado, no caso o próprio líder.
Nas últimas eleições gerais, realizadas em 2022, o partido já era dirigido por Nimi a Simbi, eleito no Congresso realizado no ano anterior. No pleito, a percentagem de votos foi mais baixa (0,14%), mas ainda assim permitiu eleger dois deputados, o mesmo pecúlio conseguido em 2022.
A expectativa agora está em saber qual será o resultado da FNLA em 2027. Vai conseguir ter um bom resultado e manter-se na cena política ou, em função da desunião a que se assiste, vai ser extinto, como muitos vaticinam? O tempo dirá!




