Especialistas em relações internacionais consideram que o discurso do Presidente da República, João Lourenço, na 81.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, serviu para afirmar, a partir da tribuna da ONU, posições e preocupações que atravessam o continente africano, com destaque para a defesa do direito internacional, da diplomacia e de uma maior participação de África nas decisões globais.
O académico José Rodrigues entende que a intervenção do Chefe de Estado angolano ultrapassou a dimensão nacional e procurou colocar no centro do debate internacional algumas das principais preocupações do continente, sobretudo num contexto de enfraquecimento do multilateralismo e de persistência de conflitos em diferentes regiões do mundo.
João Lourenço defendeu, durante a intervenção desta terça-feira, 22, que a diplomacia deve continuar a ser privilegiada como instrumento para a resolução dos conflitos, ao considerar que nenhuma arma é mais poderosa do que a diplomacia. O Presidente alertou ainda para os efeitos devastadores das guerras sobre vidas humanas, infra-estruturas, sonhos e projectos de vida.
Na leitura de José Rodrigues, a mensagem transmitida pelo Presidente procurou reforçar a necessidade de recuperar o papel central das Nações Unidas como instrumento de promoção da paz e de defesa das regras que regem as relações entre os Estados.
A posição de João Lourenço surge num momento em que a própria liderança das Nações Unidas tem colocado em debate a necessidade de reconstruir a confiança no sistema multilateral e de adequar as estruturas da organização à realidade actual. Na abertura do Debate Geral da 81.ª Assembleia Geral, o secretário-geral António Guterres também defendeu a reforma do Conselho de Segurança e chamou atenção para a ausência de representação permanente de África naquele órgão.
Para o especialista em relações internacionais Délcio Rodrigues, outro elemento de destaque foi a abordagem do Presidente sobre os conflitos africanos e a necessidade de encontrar soluções que produzam resultados concretos e sustentáveis.
Segundo o especialista, a posição apresentada por João Lourenço está relacionada com a experiência que Angola tem procurado projectar no domínio da prevenção e resolução de conflitos no continente, nomeadamente através dos esforços de mediação na região dos Grandes Lagos.
A diplomacia angolana tem assumido uma participação activa nos esforços de mediação relacionados com a crise no Leste da República Democrática do Congo. O papel de Angola na promoção do diálogo e da procura de soluções políticas para os conflitos africanos tem sido igualmente apresentado pelo Executivo como parte da sua actuação enquanto defensor da paz e da reconciliação no continente.
O discurso de João Lourenço também abordou a necessidade de África reforçar a sua capacidade de intervenção nos processos de paz e de aumentar a sua influência nas estruturas internacionais de decisão.
Esta posição está em linha com uma reivindicação que Angola tem defendido no quadro da União Africana: a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas para garantir uma representação permanente do continente africano. Em intervenções anteriores, João Lourenço defendeu que África deve falar com maior coordenação nos fóruns multilaterais e assumir maior responsabilidade na prevenção e resolução dos seus próprios conflitos.
José Rodrigues considera que esta dimensão africana foi uma das marcas da intervenção do Presidente, por colocar no debate questões que ultrapassam os interesses imediatos de Angola e dizem respeito à posição do continente na arquitectura internacional de segurança e governação.
Os analistas destacam igualmente a crítica de João Lourenço ao envolvimento directo de grandes potências em conflitos internacionais, numa referência às guerras que afectam actualmente diferentes regiões, incluindo a Europa e o Médio Oriente.
Na leitura dos especialistas, esta abordagem está relacionada com a defesa de uma aplicação mais consistente dos princípios do direito internacional e das normas estabelecidas pela Carta das Nações Unidas, independentemente da dimensão ou do peso político dos Estados envolvidos.
Délcio Rodrigues entende que a mensagem apresentada pelo Presidente coloca igualmente em evidência a necessidade de ultrapassar aquilo que considera serem padrões diferenciados na aplicação das regras internacionais, uma questão que, na sua leitura, afecta a confiança dos países no sistema multilateral.
A defesa de uma reforma das instituições internacionais constitui, aliás, um dos elementos recorrentes da diplomacia angolana. Uma análise publicada esta terça-feira sobre a estratégia de Angola nas Nações Unidas identifica a reforma do Conselho de Segurança, a representação permanente de África e o reforço do multilateralismo como alguns dos principais eixos da actuação diplomática do país.
Para os especialistas, a intervenção de João Lourenço procurou, assim, conjugar três dimensões: a defesa dos interesses africanos, a afirmação da experiência angolana na mediação de conflitos e a reivindicação de mudanças na actual arquitectura de governação internacional.
A intervenção ocorre também num contexto em que a reforma do Conselho de Segurança voltou a ganhar destaque no debate da Assembleia Geral. António Guterres afirmou esta terça-feira que a composição actual do órgão não reflecte adequadamente as transformações ocorridas no mundo desde a sua criação e apontou especificamente a ausência de África entre os membros permanentes.
Na avaliação de José Rodrigues e Délcio Rodrigues, o discurso de João Lourenço procurou, deste modo, dar maior visibilidade às posições africanas sobre paz, segurança, direito internacional e representação nas instituições multilaterais.
A intervenção de Angola na ONU insere-se numa estratégia diplomática que tem procurado associar a actuação do país na resolução de conflitos africanos à defesa de uma maior participação do continente na definição das regras e decisões que orientam a ordem internacional.
Com o discurso desta terça-feira, João Lourenço voltou a utilizar a principal tribuna multilateral para defender o diálogo, a diplomacia, o respeito pelo direito internacional e uma reforma das instituições globais que permita maior representação de África nos centros de decisão.
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