As iniciativas de diálogo e paz para a República Democrática do Congo (RDC), coordenadas por Angola, União Africana e pela Conferência Episcopal Nacional do Congo (CENCO), foram apontadas pela imprensa de Kinshasa como canais que oferecem a “credibilidade moral” que as partes em conflito não conseguem assegurar isoladamente.
“Um fórum de diálogo sem facilitação neutra, sem uma agenda clara, sem justiça e sem garantias constitucionais não vai aproximar os congoleses da paz, mas sim afastá-los, legitimando a ideia de que se pode adiar indefinidamente os anseios do povo”, escreveu o jornal online Actualité. O periódico concluiu que o diálogo não é uma simples panaceia nem a armadilha que muitos temem, mas uma ferramenta cujo sucesso depende da qualidade das condições criadas e do papel dos facilitadores externos. Sobre a intervenção das confissões religiosas, o portal 7sur7.cd destacou o apelo feito pela Associação Católica de Fiéis de Kinshasa (FCK). A organização solicitou aos bispos que priorizem o papel de mediadores e conciliadores, consultando mais os fiéis antes de assumirem posições políticas. A comunidade católica manifestou-se a favor do diálogo anunciado pelo Presidente Félix Tshisekedi, rejeitando, contudo, a inclusão de actores armados envolvidos na violência no Leste do país. Já o diário Le Potentiel citou o Cardeal Fridolin Ambongo, arcebispo de Kinshasa, que enfatizou a responsabilidade das mulheres católicas num contexto social marcado por divisões. “As mulheres devem ser profundamente encorajadas, por via do seu comportamento exemplar, resiliência e testemunho de fé, a agir como verdadeiras agentes de paz e reconciliação nacional, promovendo a estabilidade de que o país tanto necessita neste período de crise”, declarou o prelado. O arcebispo sublinhou que a sensibilidade e a força feminina na gestão de conflitos comunitários são ferramentas indispensáveis para desarmar mentes, reconstruir o tecido social devastado pela guerra no Leste do país e guiar as novas gerações para uma cultura de não violência. Actual quadro O diálogo inter-congolês, projectado para ser abrangente e inclusivo na busca pela paz e estabilidade definitivas, encontra-se estritamente condicionado à implementação de quatro pontos essenciais. De acordo com fontes diplomáticas, estas iniciativas estruturais são consideradas fundamentais para moldar e redefinir o complexo cenário político interno e a diplomacia regional. Os quatro processos que se sobrepõem, frequentemente sem coordenação, são o Processo de Washington, traduzido no Acordo de Paz entre a RDC e o Rwanda, assinado a 27 de Junho de 2025, estruturado em torno do princípio da “segurança mineral”, com os Estados Unidos. Em segundo lugar, o Processo de Doha, que consiste em negociações entre Kinshasa e a AFC/M23, cujo acordo-quadro de 15 de Novembro de 2025 abriu caminho para negociações directas, sem resolver a questão da retirada dos rebeldes do Kivu do Norte e do Kivu do Sul. Em terceiro lugar, o mandato angolano, confiado a João Lourenço em Fevereiro de 2026, para organizar consultas para um diálogo inter-congolês, com um roteiro de 21 páginas submetido a Kinshasa a 7 de Março de 2026. E, finalmente, o quadro CENCO-ECC, que se traduz num roteiro apoiado por denominações religiosas, que defende a inclusão sem impunidade. Mas o actual quadro político na RDC envolve, ainda e fundamentalmente, o debate em torno do referendo constitucional, iniciativa do Presidente Tshisekedi e seus partidários, contestado pela oposição e sectores da sociedade civil.




