Se estivesse em vida, José Eduardo dos Santos estaria a completar hoje 84 anos. O segundo Presidente da República de Angola, nascido em Luanda em 1942, teve uma trajectória política intimamente ligada aos principais momentos da vida nacional. O seu percurso de quase quatro décadas na liderança do país abrangeu desde a luta clandestina pela independência até à chefia do Estado, passando pelos anos de guerra e de paz, pela transição para o multipartidarismo e pelo processo de reconstrução nacional.
Ainda jovem, José Eduardo dos Santos iniciou a sua actividade política ao integrar as fileiras do MPLA, participando activamente na contestação clandestina ao colonialismo português.
Após a proclamação da Independência Nacional, a 11 de Novembro de 1975, assumiu a pasta de ministro das Relações Exteriores. Tratou-se de um período decisivo para a afirmação internacional do novo Estado. Foi nessa condição que liderou os esforços diplomáticos que culminaram na admissão de Angola na então Organização da Unidade Africana (OUA), actual União Africana (UA), e na Organização das Nações Unidas (ONU), em 1976.
Uma nova etapa iniciou-se em Setembro de 1979, com a morte do primeiro Presidente angolano, António Agostinho Neto. Com apenas 37 anos de idade, José Eduardo dos Santos tornou-se presidente do MPLA e assumiu a Presidência da República Popular de Angola. Na altura, o país — independente há apenas quatro anos — ainda consolidava as suas estruturas estatais e enfrentava um conflito armado que, pela sua longevidade, se tornaria uma das guerras mais prolongadas do continente africano.
Da guerra à paz e à reconstrução
No final da década de 1980, com a transformação do cenário internacional e o desmoronamento do modelo político e económico socialista, José Eduardo dos Santos conduziu o país para uma abertura política e económica, e Angola avançou para o multipartidarismo e para uma economia de mercado.
A mudança culminou nas primeiras eleições gerais multipartidárias, realizadas em Setembro de 1992. Após a vitória do MPLA e de José Eduardo dos Santos, nas eleições legislativas, cujos resultados não foram aceites pelo seu principal opositor, levando o país para um novo conflito armado, que provocou enormes perdas humanas e materiais e agravou a destruição das infra-estruturas nacionais.
Seguiram-se anos de guerra e negociações. A viragem definitiva ocorreu em 2002. Depois da morte do seu líder da UNITA, e na sequência de negociações entre as partes, foi assinado, a 4 de Abril, o Memorando de Entendimento do Luena, que selou o fim do conflito armado.
Fim da guerra, José Eduardo dos Santos direccionou grande parte da acção das acções do país para a reconciliação nacional, na estabilidade política e na reconstrução do país.Em 2008, o país volta a realizar eleições legislativas, marcando o regresso dos angolanos às urnas depois de 1992.
O MPLA voltou a vencer e José Eduardo dos Santos manteve-se na presidência. Dois anos depois, a revisão Constituição de 2010 introduziu um novo modelo de eleição do Presidente da República, passando a ser eleito o cabeça de lista do partido ou coligação mais votado nas eleições gerais. O modelo foi aplicado nas eleições de 2012, que deram nova vitória ao MPLA e mantiveram José Eduardo dos Santos como Chefe de Estado.
Os últimos anos do seu mandato foram acompanhados por um debate crescente sobre a longevidade no poder, a diversificação da economia, a qualidade dos serviços públicos e o combate à corrupção. Em Março de 2016, anunciou o fim da sua vida política activa. O processo de transição culminou nas eleições gerais de Agosto de 2017, tendo João Lourenço como cabeça de lista do MPLA e sucedeu a José Eduardo dos Santos na Presidência da República, em Setembro daquele do mesmo ano.
Foram 38 anos de liderança, num período que atravessou diferentes Angola. A Angola da guerra, da abertura política, da paz, da reconstrução e da consolidação das instituições. José Eduardo dos Santos deixou, um legado incontornável na história do país. Fruto da sua trajectória é recordado como “Arquitecto da Paz”.
O percurso de José Eduardo dos Santos não pode, contudo, ser dissociado do contexto histórico vivido por Angola desde a Independência. Com a sua morte a 8 de Julho de 2022, em Barcelona, Espanha, aos 79 anos, fechou-se o ciclo de vida de um cidadão que quis que fosse lembrado como “um bom patriota”. Quatro anos depois da sua morte, e aos 84 anos que completaria, a dimensão da sua passagem como estadista permanece evidente. Durante quase quatro décadas, a sua figura esteve no centro das decisões que moldaram a Angola contemporânea.
Na memória de quem o conheceu
Poucas figuras da história contemporânea de Angola permitem visões tão distintas como José Eduardo dos Santos. Durante 38 anos, entre 1979 e 2017, esteve no centro das principais decisões políticas do país, atravessando a guerra civil, a transição para o multipartidarismo, o fim do conflito armado e o período de reconstrução nacional.
José Eduardo dos Santos não cabe, por isso, numa única definição. Foi dirigente da luta de libertação, Presidente durante a guerra, negociador da paz, actor diplomático e líder de um processo de reconstrução.
A avaliação histórica dessa trajectória só será possível com o passar do tempo. O que parece já indiscutível é que compreender Angola das últimas décadas passa, necessariamente, por compreender José Eduardo dos Santos. Aquando da sua morte, algumas personalidades descreveram a figura do antigo Presidente da República de Angola.
“Um respeitador das liberdades religiosas”
D. Manuel Imbamba
O Presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, D. Manuel Imbamba, definiu as qualidades do antigo Chefe de Estado, José Eduardo dos Santos, como as de “um homem aberto e respeitador das liberdades religiosas e de tudo o que a pessoa humana devia cultivar como valor digno para a realização plena da própria vida”.
“Inteligência fina, sereno e sábio no uso da palavra”
Cavaco Silva
“Testemunhei o seu firme empenho pessoal e as decisões particularmente difíceis e complexas que tomou. Com José Eduardo dos Santos, de inteligência fina, convincente na argumentação, sereno e sábio no uso da palavra, foi possível reforçar a cooperação entre Angola e Portugal.”
“Angola acaba de perder um grande filho”
O Presidente João Lourenço afirmou, na ocasião, que "Angola acaba de perder um grande filho" que dedicou a vida ao país.O Chefe de Estado destacou que José Eduardo dos Santos entregou-se por inteiro à defesa da Independência e da Soberania Nacional nos momentos mais críticos de Angola.
“Vitórias reconhecidas em todo o mundo”
Manuel Augusto
O antigo ministro das Relações Exteriores, Manuel Augusto, realçou, na ocasião, a imagem do antigo Presidente da República como a de um exímio diplomata que, por conta desta qualidade, conseguiu vitórias reconhecidas em todo o mundo.
“Um irmão nas dificuldades”
Brito Sozinho
O embaixador e nacionalista António Brito Sozinho expressou profunda dor e consternação pela perda do amigo de infância. Afirmou que José Eduardo dos Santos não tinha sido apenas um amigo, mas "um irmão nas dificuldades". “Deixa-nos uma tristeza muito grande, porque depois de tanta convivência, partiu sem lhe darmos o último adeus”, disse visivelmente abalado.
“Figura central na mudança da África Austral”
Pedro Pires
O antigo Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, recordou José Eduardo dos Santos como uma “figura central” na “grande mudança” na África Austral.
“Um líder ímpar”
Umaro Sissoco
O antigo Presidente da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, considerou José Eduardo dos Santos uma figura de dimensão internacional, um “líder ímpar” que lutou pela causa do continente africano.
“Pessoa de trato fácil e de uma serenidade incontestável”
Ângela Bragança
A secretária para a Política de Quadros do MPLA, Ângela Bragança, recordou José Eduardo dos Santos como uma figura de grande referência e força. “Uma figura com esta dimensão não pode passar despercebida. Para lá de outras circunstâncias, temos que valorizar tudo o que houve de positivo e, de certa forma, honrar os nossos heróis e a nossa pátria”, sublinhou.
A dirigente disse ser importante reflectir sobre a obra que deixou, onde encontramos, também, “as qualidades de uma pessoa de trato fácil e de uma serenidade incontestável”.
“Homem de um controlo emocional muito forte”
General Nzumbi
O General Matias Lima Coelho "Nzumbi" descreveu o antigo Presidente José Eduardo dos Santos como um servidor público exemplar que dedicou a vida inteira ao país. Recordou que o antigo estadista assumiu a liderança muito cedo e trabalhou de forma incansável, sublinhando que "não teve tempo de gozar a vida".
“Um líder nato e sabia ouvir”
Alberto Carneiro " Faísca"
Contemporâneo de longa data de José Eduardo dos Santos, Alberto Ferreira Carneiro “Faísca” destacou o antigo Presidente como “um líder nato que sabia ouvir”, uma marca que o identificou desde muito cedo.




