Líderes religiosos defendem mais união entre os fiéis

O Cardeal John Onaiyekan, arcebispo emérito de Abuja (Nigéria), e Dom Filomeno Vieira Dias, arcebispo da Arquidiocese de Luanda, defenderam ontem o reforço da cooperação entre as diferentes confissões religiosas como via fundamental para promover a paz, o diálogo inter-religioso e respostas éticas aos desafios globais contemporâneos.
O posicionamento foi manifestado durante o painel intitulado “O Papel dos Líderes Religiosos e da Fé na Promoção do Diálogo e da Coexistência Pacífica”, inserido na agenda da III Cimeira da Aliança das Civilizações das Nações Unidas (UNAOC), que encerrou ontem na capital angolana. Os dois prelados sustentaram que a diversidade de credos deve ser entendida como uma riqueza colectiva da humanidade, e nunca como um pretexto para divisões ou fracturas sociais. Nas suas declarações, Dom Filomeno Vieira Dias sublinhou a responsabilidade moral que recai sobre os líderes religiosos no sentido de denunciarem qualquer tentativa de instrumentalização da fé para fins políticos, ideológicos ou militares. O arcebispo de Luanda asseverou que nenhuma guerra pode ser legitimada em nome de Deus, instando as instituições eclesiásticas a promoverem uma educação baseada no respeito mútuo. “As religiões ensinam, cada uma à sua maneira, que o outro não é um inimigo a eliminar, mas um ser humano dotado da mesma dignidade fundamental. Este princípio constitui um dos pilares do diálogo intercultural, do diálogo entre as civilizações e da construção da paz”, afirmou Dom Filomeno. Por sua vez, o Cardeal John Onaiyekan alertou a audiência para os riscos decorrentes do avanço tecnológico acelerado. O prelado nigeriano focou-se no desenvolvimento de novas ferramentas digitais e científicas que, se desalinhadas de critérios humanistas, podem ameaçar a estabilidade global. Para Dom Onaiyekan, torna-se imperativo estabelecer balizas éticas e morais eficazes que orientem o desenvolvimento e a aplicação prática destas tecnologias. Neste aspecto, defendeu que as confissões religiosas têm o dever de aconselhar as autoridades civis. “As instituições religiosas não têm escolha, senão unir os seus valores e normas morais partilhadas para enfrentar os desafios comuns da humanidade”, sublinhou o Cardeal, lembrando ainda o percurso histórico da Igreja Católica desde o Concílio Vaticano II na vanguarda do ecumenismo. Vaticano propõe uma civilização do amor Ao intervir no debate, o frei Bonaventura Benjamin Mwenda, oficial da Cúria Romana no Dicastério para o Diálogo Inter-religioso da Santa Sé, realçou que o Papa Leão XIV propõe uma “civilização do amor, capaz de transformar a caridade em estruturas sólidas de justiça e fraternidade”. O diálogo interpessoal, segundo o reverendo, promove essa visão, transformando a diversidade religiosa numa força de justiça e paz para a comunidade. “A declaração Nostra Aetate, do Concílio Vaticano II, afirma que a Igreja Católica não rejeita nada que seja verdadeiro e santo nas outras religiões”, lembrou o clérigo, incentivando a união de vozes e o esforço conjunto entre as diferentes comunidades de fé.



