O Memorial às Vítimas dos Conflitos Políticos, considerado uma das principais componentes materiais do processo de reconciliação nacional, vai ser inaugurado hoje.
Localizado na zona da Praia do Bispo, junto à Nova Marginal de Luanda, nas proximidades do Memorial Dr. António Agostinho Neto e da Assembleia Nacional, o Memorial homenageia os cidadãos que perderam a vida em consequência dos conflitos políticos ocorridos em Angola entre 11 de Novembro de 1975, data da proclamação da Independência Nacional, e 4 de Abril de 2002, da assinatura dos acordos que abriram caminho à paz definitiva.
A génese institucional do Memorial remonta a 2019, quando o Presidente da República determinou a criação da Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP).
A Comissão recebeu a missão de elaborar e implementar um plano geral de homenagem às vítimas dos conflitos políticos ocorridos no período compreendido entre 1975 e 2002.
A localização inicialmente prevista para a construção do Memorial era a encosta da Boavista, mas foi posteriormente transferida para a zona da Praia do Bispo.
Integrado num espaço que se afirma como um verdadeiro corredor da memória nacional, próximo de instituições que representam o Estado, a República e a história política contemporânea de Angola, o Memorial é constituído por três elementos principais: a Aliança Eterna, a Mulembeira da Reconciliação e o Hall de Memória.
Com cerca de 35 metros de altura, a Aliança Eterna é formada por dois blocos articulados, distribuídos por nove pisos, cuja configuração pretende reproduzir visualmente um abraço, símbolo do perdão, da união, da reconciliação, da fraternidade e do reencontro dos angolanos.
A concepção arquitectónica procura afastar a ideia de vitória de uma parte sobre outra, privilegiando, deste modo, a representação de dois lados que se aproximam depois da ruptura.
A Mulembeira da Reconciliação, uma árvore petrificada de cor branca, com cerca de 12 metros de altura, foi concebida a partir da associação da mulembeira à tradição africana de transmissão da sabedoria.
O elemento simboliza a transmissão, entre gerações, de conhecimentos sobre a vida comunitária e a resolução de conflitos. Já o Hall de Memória procura transportar o visitante para a dimensão humana e histórica dos conflitos políticos.
O espaço está associado à preservação da memória histórica e da paz, criando um ambiente de solenidade, silêncio e reflexão sobre as vítimas.
Além das três peças principais, o Memorial integra o Arco-Íris e os Mastros Cintilantes. O Arco-Íris está associado à bonança depois da tempestade e simboliza a paz, a esperança e a reconciliação nacional.
Os Mastros Cintilantes são elementos verticais concebidos como representação simbólica da cura da memória colectiva e da homenagem às vítimas dos conflitos políticos.
A artista plástica angolana Fineza Teta, responsável pela concepção artística do Memorial, explicou que a obra “Aliança Eterna” retrata dois irmãos abraçados, cujas cabeças se unem para formar uma aliança em símbolo de união. A criadora esclareceu ainda que uma das torres simboliza a paz, enquanto a outra remete ao conflito.
“E a aliança faz, então, a reconciliação nacional”, esclareceu Fineza Teta, para quem aquele abraço representa um manto de entidade cultural.
Fineza Teta explicou que o anel presente na escultura simboliza uma viagem vertiginosa. “A intenção é que as pessoas, ao passarem por ele, tenham a sensação de vertigem e consigam dimensionar um pouco do sofrimento que os angolanos enfrentaram durante os anos de guerra”, ressaltou a artista plástica.




