A Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP) desempenhou um papel estratégico na coordenação política dos movimentos de libertação das colónias portuguesas e na mobilização da solidariedade africana e internacional, segundo o historiador João Zamba.
CONCP teve papel estratégico na luta de libertação das colónias portuguesas
Organização criada em Casablanca, em 1961, aproximou movimentos nacionalistas e reforçou a dimensão internacional da luta pela independência
Criada durante uma reunião realizada em Casablanca, Marrocos, entre 18 e 20 de Abril de 1961, a organização reuniu representantes dos movimentos nacionalistas de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Goa.
Entre as principais figuras ligadas à CONCP destacaram-se Amílcar Cabral, do PAIGC, Agostinho Neto, do MPLA, e Marcelino dos Santos, da FRELIMO. Mário Pinto de Andrade, do MPLA, foi o primeiro presidente da organização. Segundo o historiador, a criação da CONCP ocorreu num período marcado por divergências políticas entre os países africanos recém-independentes, então agrupados, de forma geral, em torno dos grupos de Monróvia e de Casablanca.
O primeiro era considerado mais moderado, enquanto o segundo defendia posições mais radicais perante as questões da descolonização. Ghana, Guiné-Conacri, Mali e Marrocos estiveram entre os principais países associados ao grupo de Casablanca, com o qual mantinham proximidade movimentos como o MPLA, o PAIGC e, posteriormente, a FRELIMO.
A CONCP funcionou como ponto de ligação entre os movimentos nacionalistas das colónias portuguesas e os países africanos favoráveis à luta anticolonial, permitindo uma maior articulação política e diplomática.
Apoio à luta de libertação de Angola
A situação de Angola ocupou um lugar importante na actividade da organização. Durante a reunião de Casablanca, foi aprovada uma resolução sobre a situação colonial angolana, na qual a CONCP manifestou apoio à luta de libertação nacional.
A organização apelou às forças e personalidades anticolonialistas para promoverem uma campanha internacional pela libertação dos presos políticos angolanos, entre os quais se encontravam os dirigentes do MPLA Agostinho Neto e Ilídio Machado. Foi igualmente dirigido um apelo aos povos dos países fronteiriços para apoiarem activamente a luta do povo angolano e contribuírem para impedir iniciativas destinadas a dificultar o processo de libertação.
João Zamba considera que a realização da conferência em Marrocos representou uma manifestação de solidariedade africana para com os povos das colónias portuguesas, contando com o apoio do Rei Hassan II e do Governo marroquino.
Aproximação política
A actividade da CONCP contribuiu também para estreitar as relações entre os movimentos nacionalistas e diferentes Estados africanos. No caso do MPLA, a organização serviu de canal para a aproximação com a Tanzânia. Este relacionamento, associado ao enfraquecimento da FNLA, terá contribuído para facilitar posteriormente os contactos entre o movimento liderado por Agostinho Neto e o Presidente da Zâmbia, Kenneth Kaunda.
No princípio da década de 1960, a CONCP alcançou maior projecção internacional, participando em assembleias e promovendo a criação de grupos de apoio em vários países. A sua crescente influência chamou a atenção da diplomacia portuguesa, sobretudo pela capacidade de internacionalizar a questão colonial e mobilizar apoios para os movimentos de libertação.
Projecção internacional Entre os momentos de maior projecção da organização esteve o encontro dos líderes dos movimentos nacionalistas das colónias portuguesas com o Papa Paulo VI, realizado em Roma, a 1 de Julho de 1970. O historiador aponta ainda a alteração da posição da Organização da Unidade Africana relativamente ao Governo Revolucionário Angolano no Exílio (GRAE), ligado à FNLA, como um dos acontecimentos relevantes no percurso político da CONCP.
A proclamação da independência da Guiné-Bissau, em 1973, e o reconhecimento do Governo da República Popular de Angola, em 1975, figuram igualmente entre os acontecimentos considerados relevantes no percurso da organização.
Missão cumprida
Para João Zamba, a CONCP cumpriu a missão a que se propôs ao longo de cerca de década e meia de actividade, ao permitir a coordenação política entre diferentes movimentos nacionalistas das colónias portuguesas. A organização contribuiu para uma intervenção conjunta em vários espaços internacionais e para o reforço da solidariedade africana em torno das lutas de libertação.
O seu legado está ligado à capacidade de aproximar movimentos com diferentes realidades políticas e territoriais em torno de um objectivo comum: a independência e o fim do domínio colonial português.
A recuperação da história da CONCP permite compreender melhor a dimensão colectiva e internacional dos processos de libertação das antigas colónias portuguesas.




