Huambo – O Tribunal da Comarca do Huambo terminou, esta terça-feira, a fase de produção de provas materiais do julgamento do caso da morte do comerciante mauritaniano Abdraman Salé, com a audição dos sete declarantes arrolados no processo.
Huambo – O Tribunal da Comarca do Huambo terminou, esta terça-feira, a fase de produção de provas materiais do julgamento do caso da morte do comerciante mauritaniano Abdraman Salé, com a audição dos sete declarantes arrolados no processo.
O caso, cujo cadáver foi colocado numa arca e atirado ao rio Keve, depois de a vítima ter sido amarrada, espancada e asfixiada até a morte, ocorreu a 24 de Novembro de 2025, na cidade do Huambo.
Como declarantes, foram arrolados um efectivo da Unidade de Reacção e Patrulhamento (URP), três conterrâneos do ofendido, sendo um irmão do malogrado, o dono da viatura roubada em que o cadáver foi transportado e o representante da comunidade mauritaniana na província do Huambo.
Da lista, constam, igualmente, a esposa da vítima, o cidadão nacional que comprou, posteriormente, a arca em que o corpo cadavérico foi colocado e transportado e o irmão do co-arguido Vitorino Luís Sangombe.
Em declarações à imprensa, a esposa da vítima e o representante da comunidade mauritaniana na província do Huambo pediram para que se faça justiça, visto que foi um crime chocante, para além de perderem de maneira dolorosa um amigo e pai de família.
São co-arguidos no caso, sob o processo número 326/2026, quatro cidadãos nacionais, nomeadamente Vitorino Luís Sangombe, Florindo Chinguali Lucas, Joaquim Domingos Zito e Egas dos Santos e o mauritaniano Mohammed Val Sidi Abib, este último citado nos autos como principal mandante.
Os mesmos são acusados nos crimes de homicídio qualificado em razão dos meios, atentado contra a integridade de restos mortais, fabrico, aquisição ou posse de substâncias explosivas, tóxicas e asfixiantes, associação criminosa e furto qualificado, previstos no Código Penal Angolano.
Na sessão, que decorre na Secção Criminal do Tribunal da Comarca do Huambo, sob a presidência do juiz da causa, Sebastião Nangamale, foi marcada para quarta-feira a apresentação das alegações orais e a discussão dos quesitos, enquanto a leitura da sentença está prevista para sexta-feira desta semana.
Segundo o Ministério Público, representado pelo magistrado Avelino Capessa, a vítima residia no município do Andulo, província do Bié, onde foi aliciado para o Huambo, pelo seu conterrâneo Mohammed Val Sidi Abibi, sob o pretexto de um negócio de diamantes.
De acordo com a acusação, a 18 de Novembro de 2025, Mohammed Val Sidi Abibi pediu aos co-arguidos Florindo Chinguali Lucas e Joaquim Domingos Zito para o ajudarem a recuperar, uma dívida de 45 milhões de Kwanzas em posse de Abdraman Salé, residente no município do Andulo ( Bié).
Conforme os factos constantes nos autos, para convencer os co-arguidos, Mohammed Val Sidi Abibi disse que o conterrâneo matou o seu irmão para se apoderar dos 45 milhões de Kwanzas, resultantes da venda de uma pedra de diamante no Andulo, para além de o mesmo ter estuprado a sua mãe.
Ainda para aliciá-los, acrescentou, prometeu, caso resgatassem o montante, compensar cada um com quatro milhões e 500 mil Kwanzas e uma motorizada, pois não estava interessado em resolver o caso junto das autoridades policiais.
Na sequência, conforme Avelino Capessa, a 24 de Novembro de 2025, o principal suspeito nos autos, convidou a vítima a deslocar-se no interior do seu armazém e, sem que o mesmo suspeitasse, retirou-se do espaço, para que os co-arguidos pratiquem o crime.
Já no armazém, cita a acusação, Florindo Chinguali Lucas e Joaquim Domingos Zito amarraram Abdraman Salé nos membros superiores e inferiores e obrigaram-no a entregar os códigos do cartão multicaixa e para desbloquear o aplicativo de pagamento automático no telemóvel.
Não tardou, acrescentou, apareceu no mesmo local o outro co-arguido Vitorino Luís Sangombe, também para recuperar os 45 milhões de Kwanzas da dívida, tendo, na ocasião, tapado a boca e o nariz da vítima com um pano, para além de, recorrentemente, torcer o pescoço deste e a asfixia-lo, para aumentar a sua dor.
Momentos depois, continuou o magistrado, Mohammed Val Sidi Abibi, também já no local, colocou várias vezes no rosto da vítima gás lacrimogéneo, adquirido a partir do co-arguido Egas dos Santos, até que a vítima perdeu os sentidos e morreu.
De acordo o Ministério Público, para se desfazer do cadáver, Florindo Chinguali Lucas e Joaquim Domingos Zito, devidamente autorizados por Mohammed Val Sidi Abibi, tiraram uma arca nova no stock do armazém, onde colocaram o corpo, enquanto Vitorino Luís Sangombe foi buscar a sua viatura para transportar o corpo para um local previamente consertado.
Assim, por volta das 20 horas do mesmo dia, os quatro co-réus viajaram em direcção ao rio Keve, no município do Pambandala, província do Cuanza-Sul, onde atiraram o corpo cadavérico.
De regresso ao Huambo, no dia seguinte, o acusado Vitorino Luís Sangombe vendeu a arca ao preço de 120 mil Kwanzas a um cidadão nacional.
Sem piedade e remorso, diz o Ministério Público, Mohammed Val Sidi Abibi apossou-se de toda a mercadoria, da chave da viatura, um telemóvel, o cartão multicaixa e outros pertences do malogrado.
O co-réu Egas dos Santos, efectivo da Polícia Nacional, acusado apenas no crime de fabrico, aquisição de substâncias explosivas, tóxicas e asfixiante, rejeitou nos autos ter entregado o artefacto militar ao Mohammed Val Sidi Abibi, mas, sim, de ter esquecido na viatura do mandante.
Segundo o certificado de óbito do Hospital Geral do Huambo, a causa da morte de Abdraman Salé foi atestada como asfixia mecânica e química, traumatismo crânio-cefálico fechado e choque traumático, como consequência da agressão física.
Os cinco co-arguidos foram ouvidos segunda-feira, primeiro dia da audiência. ZZN/ALH




