Académico alerta para desconexão cultural na governação em Angola

O filósofo Ivo Luzendo defende que uma das principais estratégias do colonizador em África foi a destruição das culturas locais, um processo que, segundo afirma, continua a ter reflexos na organização política e social dos Estados africanos, incluindo Angola.
Para o académico, o rompimento com as raízes culturais dos povos africanos criou uma desconexão que ainda se manifesta nas decisões políticas actuais, sobretudo na relação entre o poder central em Luanda e as demais comunidades do país.
“Uma das políticas traçadas pelo colonizador foi a de destruir a cultura dos povos encontrados. Foi de subjugar a cultura dos nativos, dos indígenas, que somos nós, e estabelecer a sua cultura, que no seu entender era superior à nossa”, afirmou.
Ivo Luzendo sustenta que esse processo interrompeu a ligação dos povos com a sua ancestralidade, o que, na sua visão, afecta a eficácia das políticas públicas aplicadas de forma uniforme em contextos culturais distintos.
“A política de Luanda não pode resolver os problemas de uma determinada comunidade, de Cabinda, não pode resolver os problemas muitas vezes do Cuando. Porque os problemas não são iguais”, defendeu.
O filósofo argumenta ainda que a compreensão das realidades locais exige uma abordagem antropológica mais profunda, que considere a história e a identidade cultural de cada comunidade.
“A antropologia é essencial porque ajuda a compreender o ontem e o passado das pessoas, permitindo decisões mais eficazes hoje”, sublinhou.
Para o académico, Angola precisa de um processo de resgate identitário e de reconciliação com a ancestralidade, de modo a melhorar a formulação de políticas públicas mais ajustadas às realidades locais.
“Nós precisamos nos identificar com o passado, reconciliar-nos com a nossa ancestralidade, para tomar decisões mais eficazes. Caso contrário, perderemos muito tempo”, concluiu.
No mesmo debate, o historiador e jornalista Makuta Nkondo considerou pertinente a ideia de que parte dos problemas de Angola têm também uma dimensão espiritual, associada ao legado histórico do período colonial.
Já o futuro cabeça de lista do PADDA–Aliança Patriótica, Ngola Nissamba, afirmou que o país enfrenta um problema estrutural profundo, que descreve como uma forma de “escravidão mental e espiritual”.
Segundo o político, a realidade sociopolítica angolana continua a reflectir heranças do período colonial, defendendo maior participação dos cidadãos na vida política como via para a transformação nacional.


