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O Novo Jornal aproveitou a visita do director associado de Saúde e chefe global de imunização do UNICEF, Dr. Ephrem Lemango, a Luanda, que terminou a 14 de Agosto, e enviou algumas perguntas por escrito para saber quais são os desafios que o País tem pela frente.
Angola tem registado progressos na expansão da vacinação, mas muitas crianças continuam fora dos serviços de vacinação de rotina. Por que razão ainda existe uma diferença tão grande entre aquilo que sabemos que funciona e aquilo que as crianças realmente encontram no terreno?
Ephrem Lemango: Os progressos feitos por Angola são um facto. Angola tem mobilizado recursos nacionais para a aquisição de vacinas, ampliado a capacidade da cadeia de frio e realizado acções de vacinação em zonas sem postos fixos. Mas ainda há muito por fazer para que estes serviços cheguem a todas as aldeias. Para tal, o País terá de manter o financiamento, reforçar os sistemas comunitários de saúde e aumentar o número de postos de vacinação de modo a assegurar que Angola saia da lista dos países com maiores proporções de crianças não vacinadas na África Oriental e Austral.
Para chegarmos a todas as crianças, precisamos também de profissionais de saúde capacitados, unidades sanitárias acessíveis e próximas das comunidades, uma cadeia de frio fiável e um forte envolvimento comunitário.
O senhor afirmou que, mesmo antes da pandemia, já víamos como focos de baixa cobertura vacinal contra o sarampo podiam desencadear surtos, inclusive em países onde a doença já tinha sido eliminada. Em Angola, um recente surto de sarampo no Songo causou 17 mortes. O que isso nos diz sobre as consequências de deixar comunidades com um grande número de crianças insuficientemente vacinadas?
Ephrem Lemango: O sarampo tende a surgir onde existem lacunas de imunidade; por isso, é um sinal de alerta muito claro de que há comunidades com crianças que não receberam todas as vacinas recomendadas. Quando a cobertura é demasiado baixa para criar imunidade na população, surgem surtos que provocam sofrimento e perda de vidas.
A campanha de vacinação contra o sarampo prevista pelo Governo é um passo importante para conter o surto. Mas, a longo prazo, a solução passa por reforçar a vacinação de rotina e assegurar serviços regulares de vacinação nas comunidades, para fecharmos essas lacunas antes que novos surtos aconteçam. Uma atenção especial deve ser dada à interrupção de outros surtos como a poliomielite, cólera e mpox.
O sarampo pode ser prevenido por uma vacina que existe há décadas, mas ainda há pessoas a morrer da doença em Angola. Em que ponto, exactamente, está o sistema a falhar?
Ephrem Lemango: O sarampo é altamente contagioso, mas pode ser prevenido através da vacinação, sim. No entanto, para interrompermos a transmissão, os países precisam de alcançar uma cobertura de 95% com duas doses da vacina contra o sarampo, administradas no primeiro e no segundo ano de vida.
O principal desafio é atingir e manter esse nível de cobertura. Angola já alargou os serviços de vacinação a mais de 2.600 unidades sanitárias e deve continuar a investir até que a vacinação esteja disponível em todas as unidades sanitárias existentes.
O senhor também tem sublinhado que criar confiança é tão importante quanto disponibilizar vacinas para proteger as crianças mais vulneráveis. Pela sua experiência, o que leva uma família a decidir não vacinar uma criança, mesmo quando a vacina está disponível?
**Ephrem Lemango:**Bom, as vacinas estão entre as intervenções mais poderosas de saúde pública para salvar vidas. Nos últimos 50 anos, por exemplo, elas contribuíram para quase metade da redução das mortes infantis em África. Mas a decisão de uma família vacinar sua criança depende, muitas vezes, da confiança que deposita nos profissionais de saúde, nas unidades sanitárias, nos fabricantes das vacinas e no próprio sistema de saúde. Os profissionais de saúde continuam a ser a fonte de informação mais credível sobre vacinação.
As famílias podem hesitar quando não recebem explicações claras sobre a segurança e a eficácia das vacinas; quando não são preparadas para efeitos secundários ligeiros, como febre ou dor de cabeça, ou quando enfrentam dificuldades financeiras e práticas para chegar aos serviços de saúde. Portanto, para reforçarmos a confiança nas vacinas, temos de responder tanto às lacunas de informação como às barreiras de acesso.
Em Angola, muitas famílias também procuram orientação de pastores, terapeutas tradicionais e líderes comunitários em questões de saúde. Os programas de imunização deveriam fazer mais para trabalhar com essas fontes de confiança já existentes?
Ephrem Lemango: Sem dúvida. Todos influenciadores tais como pastores, terapeutas tradicionais e líderes comunitários desempenham um papel central na construção da confiança nos serviços de saúde, incluindo a vacinação. Podemos envolvê-los como verdadeiros agentes de mudança. Há muita experiência, em vários países, que demonstra o papel fundamental desses influenciadores para fazer chegar vacinas que salvam vidas às comunidades. São fontes de informação em quem as pessoas confiam e podem contribuir decisivamente para a mudança de comportamentos.
Onde se deve estabelecer o limite entre trabalhar com essas vozes e legitimar informações que podem ser prejudiciais?
Ephrem Lemango: O limite é muito claro: ao trabalharmos com esses influenciadores, o diálogo e parceria deve estar sempre assente na evidência e na ciência. É isso que garante que a confiança das comunidades seja utilizada para promover informações correctas e proteger a saúde das pessoas.
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