Apostas seduzem jovens de Caxito apesar dos riscos

Os jovens de Caxito, com idades entre os 18 e os 35 anos, estão cada vez mais envolvidos nos jogos de apostas, registando-se uma prevalência significativa de comportamentos associados aos jogos de azar.
Nos últimos anos, o interesse pelas apostas desportivas tem crescido de forma acentuada na capital da província do Bengo, sobretudo no futebol, que continua a ser a modalidade mais acompanhada pela juventude, bem como nos jogos de lotaria. As casas de apostas e de lotarias tornaram-se uma alternativa de emprego para dezenas de jovens de Caxito e de outras localidades, num contexto em que o desemprego continua a ser uma das principais preocupações desta franja da sociedade. Muitos encontraram neste sector uma oportunidade para gerar rendimentos, sustentar as famílias e adquirir experiência profissional. Na cidade de Caxito, a realidade demonstra que as casas de apostas têm contribuído para a inserção de jovens anteriormente desempregados no mercado de trabalho, ao mesmo tempo que reforçam a necessidade de educação financeira, responsabilidade individual e cumprimento rigoroso da legislação em vigor no país. Apesar de o sector continuar a gerar oportunidades de emprego e rendimento para muitos jovens, especialistas alertam que a actividade deve ser encarada como um complemento económico e não como a única estratégia de subsistência. Muitos utilizadores procuram ainda informações sobre as casas de apostas que operam na província do Bengo, com o objectivo de conhecer os operadores legalizados, os níveis de segurança oferecidos e os critérios que devem ser considerados antes da escolha de uma plataforma. Em Angola, o mercado das apostas é regulado pelo Instituto de Supervisão de Jogos (ISJ), entidade responsável por fiscalizar os operadores licenciados no país. A regulamentação trouxe maior transparência ao sector e reforçou a protecção dos utilizadores, estabelecendo regras relativas à segurança, ao jogo responsável e à protecção de dados pessoais. Numa ronda efectuada pela reportagem do Jornal de Angola em vários pontos da cidade de Caxito, constatou-se que o movimento nas casas de apostas aumenta consideravelmente durante grandes competições desportivas internacionais, como o Campeonato do Mundo de Futebol de 2026. Oportunidade de empregoAlém dos apostadores, o sector emprega jovens como operadores, agentes de venda e gestores de pontos de apostas. Enquanto alguns recorrem às apostas para ocupar os tempos livres, outros procuram complementar o rendimento familiar. Tomás Moniz, colaborador de uma empresa de apostas, considera que a actividade lhe permitiu alcançar estabilidade financeira, uma vez que, no emprego anterior, o salário mensal não era suficiente para sustentar a família. "Trabalhar aqui tem sido uma experiência muito positiva. Aprendi a lidar com dinheiro, com clientes e a desenvolver competências de gestão e contabilidade. O rendimento depende da produção. Quanto mais trabalhamos, melhores são os resultados", afirmou. Antes de ingressar no sector das apostas, Tomás Moniz desempenhou várias actividades, entre elas as de empregado de mesa, DJ, segurança de empresa privada e gerente de feira. Hoje, considera ter encontrado uma ocupação capaz de lhe proporcionar melhores condições de vida. "Hoje consigo ajudar a família, organizar as minhas despesas e fazer poupanças. É um trabalho que exige responsabilidade, honestidade e transparência", destacou, acrescentando que a realização de grandes eventos internacionais, como o Mundial de 2026, aumentou significativamente a procura pelas apostas, melhorando os resultados das equipas de trabalho. Mauro da Silva, promotor de apostas, explica que o trabalho no sector exige dedicação, uma vez que o rendimento depende do desempenho individual. "É um trabalho que requer muito esforço e vontade. Sem isso, não se consegue. Quando trabalhava na padaria, o serviço era mais pesado e o salário era reduzido. Aqui consigo obter um rendimento superior através das vendas e da minha produção mensal", afirmou. A operadora de apostas Maria Antónia reconhece que já obteve ganhos significativos com as apostas realizadas, embora admita que os resultados nem sempre sejam favoráveis e que também já tenha perdido dinheiro investido nas fichas. "Já ganhei vários prémios que ajudaram a resolver necessidades pessoais. Mas é importante compreender que se trata de um jogo e que existem riscos. Ganha-se hoje e perde-se amanhã. É preciso procurar alternativas honestas para crescer. Parados em casa dificilmente alcançaremos os nossos objectivos", referiu. Paulo Quissanga faz apostas desportivas há vários anos e reconhece que a sorte é um factor determinante, apesar de os jogos lhe terem proporcionado alguns momentos de satisfação financeira. "Já consegui pagar propinas da faculdade com prémios obtidos nas apostas. Mas também é verdade que nem sempre se ganha. É preciso ter consciência e jogar com responsabilidade", afirmou. Regime jurídico do jogoA jurista Anita Tavares explicou que a exploração de jogos e apostas em Angola possui enquadramento jurídico específico e defendeu o reforço das campanhas de sensibilização para que os cidadãos compreendam os riscos associados ao jogo excessivo e adoptem práticas responsáveis. Segundo a especialista, o sector é actualmente regulado pela Lei n.º 17/24, de 28 de Outubro, diploma que estabelece as normas para a exploração dos jogos e apostas no país e define as competências do Instituto de Supervisão de Jogos. "A legislação procura garantir a confiança, a estabilidade do sector, a promoção do jogo responsável e a captação de receitas para o desenvolvimento económico. A razão desta restrição é evidente, proteger a integridade das competições e evitar que a proximidade funcional ao evento desportivo comprometa a confiança pública na sua regularidade", explicou. Impacto do vício do jogoO vício do jogo é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma perturbação de saúde mental e afecta um número crescente de pessoas em Angola, constituindo um problema de Saúde Pública. Em Caxito, vários jogadores com dependência das apostas encontram-se internados no Centro de Reabilitação e Reinserção de Toxicodependentes do Bengo, onde recebem acompanhamento médico. "A patologia é grave e não difere da dependência de drogas ou do alcoolismo. Muitos dos pacientes encontram-se endividados e perderam os bens que possuíam. Trata-se de um problema de Saúde Pública", afirmou Alberto Domingos, representante da Unidade de Intervenção da Luta Antidrogas no Bengo.


