A médica urologista, sexóloga, terapeuta de casais e gestora hospitalar Florinda Helena Miranda e Silva alerta para os riscos associados à realização de circuncisões em ambientes domiciliares e sem condições adequadas de segurança.
Em entrevista à Rádio Correio da Kianda, a especialista explicou que a circuncisão, também conhecida como postectomia, é um procedimento cirúrgico que deve obedecer às mesmas regras de segurança aplicadas a qualquer intervenção médica.
Segundo Florinda Silva, embora a circuncisão tenha também uma dimensão ritual e cultural em algumas comunidades, o procedimento envolve a remoção do prepúcio e, por isso, exige cuidados específicos para prevenir complicações.
“Para nós é ritual, acaba sendo um ato que, mesmo quando não há essa dificuldade, as pessoas preferem realmente retirar essa pele, mas não deixa de ser um ato cirúrgico. Então, por ser um ato cirúrgico, deve cumprir com as regras de uma cirurgia”, explicou.
A médica chamou atenção para a necessidade de o procedimento ser realizado num local adequado, devidamente iluminado, higienizado e com condições para reduzir o risco de infeções.
Florinda Silva destacou igualmente a importância da utilização de materiais apropriados, equipamentos de proteção e do correcto tratamento dos resíduos produzidos durante a intervenção.
“Porque vai-se promover ali o quê? Um ferimento. Então precisa haver todo o cuidado com essa ferida para que ela não tenha uma infeção. Logo, o material a ser usado e o pessoal que vai fazer precisam estar bem equipados”, afirmou.
A especialista criticou ainda o recurso ao chamado “achismo” na área da saúde, defendendo uma mudança de mentalidade, sobretudo nas comunidades onde ainda são realizados procedimentos por pessoas sem condições clínicas adequadas.
Florinda Silva reconheceu que, no passado, a falta de unidades sanitárias e de profissionais especializados levava algumas famílias a recorrer a pessoas conhecidas ou a profissionais de saúde para realizar o procedimento em casa.
No entanto, considera que a realidade actual exige maior responsabilidade.
“Antes tínhamos ali aquele tio com muito carinho, que é enfermeiro experiente, então fazia, mas hoje isso não é assim, não deve ser assim”, sublinhou.
A médica defendeu, por isso, que as famílias procurem unidades sanitárias e profissionais habilitados, mesmo quando isso representa custos ou dificuldades adicionais.
“É importante lembrar que realmente dá trabalho marcar uma consulta, ter que fazer os exames, mas é o melhor para o paciente e para a segurança do paciente, porque, se algo corre mal, é o paciente que corre risco de vida”, alertou.
Questionada sobre como levar esta informação às comunidades mais afastadas, onde o acesso aos serviços de saúde pode ser limitado, Florinda Silva apontou a educação e a sensibilização como parte da solução.
A especialista considera que os profissionais de saúde têm uma responsabilidade acrescida na transmissão de informação às famílias, sobretudo por ocuparem uma posição de confiança perante os pacientes.
“Para mim, é informar e educar, mas é também fazer entender aos nossos colegas que são profissionais de saúde, não necessariamente médicos, que ainda fazem essas coisas ao domicílio ou em lugares inadequados”, afirmou.
Florinda Silva alertou ainda para a necessidade de os profissionais conhecerem as consequências legais da realização inadequada de procedimentos médicos, sobretudo quando destes resultam danos para os pacientes.
Sobre os casos em que uma circuncisão realizada de forma inadequada provoca lesões ou outras complicações, a médica explicou que os danos podem ser temporários ou permanentes e defendeu que as vítimas devem procurar os mecanismos legais disponíveis.
“Um dano pode ser temporário ou até permanente. A vítima tem direito de se queixar”, afirmou.
A especialista reconheceu, entretanto, que algumas vítimas podem desistir de denunciar por vergonha, medo de retaliação ou pela influência que o responsável pelo procedimento possa exercer dentro da comunidade.
Para Florinda Silva, a denúncia e a responsabilização são igualmente importantes para reforçar a organização e a segurança da sociedade.
A médica defende, por isso, maior sensibilização das famílias e dos profissionais de saúde para que a circuncisão deixe de ser encarada apenas como um ritual e passe a ser tratada também com a responsabilidade exigida por um procedimento cirúrgico.




