Doze agentes premiados por uma vida de serviço, coragem e disciplina

Foi para reconhecer esse percurso que o Comando-Geral da Polícia Nacional promoveu, no âmbito das celebrações dos 50 anos da corporação, o concurso que reuniu 104 efectivos de todo o país. No final, 12 agentes, provenientes de Luanda, Icolo e Bengo, Bié, Zaire, Cubango e Cabinda, foram distinguidos numa gala realizada no Instituto Superior de Ciências Policiais e Criminais “Osvaldo de Jesus Serra Van-Dúnem”. Os primeiros classificados receberam dois milhões de kwanzas, os segundos um milhão e quinhentos mil e os terceiros um milhão de kwanzas, incluindo certificados de honra para todos os distinguidos.
Antes mesmo de receberem os diplomas e os respectivos cheques, os vencedores do concurso “Melhor Agente da Polícia Nacional” já carregavam consigo a maior das recompensas: o orgulho de uma vida inteira dedicada ao serviço da Pátria. Por trás da farda engomada, da postura firme e da disciplina rigorosa que caracterizam a corporação, revelaram-se homens e mulheres que são também pais, mães, filhos e cônjuges — cidadãos comuns cujas histórias de sacrifício raramente chegam ao conhecimento público. Naquela noite festiva, o valor monetário tornou-se um mero detalhe. O verdadeiro prémio estava estampado nos sorrisos genuínos, nos abraços apertados e no brilho dos olhos de quem viu décadas de dedicação serem finalmente honradas. O ambiente de gala contrastava fortemente com a dura rotina das ruas. Entre música, luzes e momentos de descontracção, os agentes pausaram, por algumas horas, a pressão constante do policiamento e a pesada responsabilidade de manter a ordem pública. Entre os homenageados destacou-se o subinspetor Custódio Canga, de 43 anos. Afecto ao Departamento de Investigação de Ilícitos Penais (DIIP) em Cabinda e pai de três filhos, o oficial decidiu concorrer por acreditar que o seu histórico de rectidão merecia ser colocado à prova. Para ele, a distinção é o maior marco da sua carreira, um reconhecimento que renovou o orgulho de familiares, amigos e vizinhos, que agora o apontam como um exemplo vivo de perseverança.Na corporação desde 2007, após formar-se no Centro de Instrução de Ntó aos 24 anos, Custódio Canga acumula passagens marcantes pela Brigada Escolar e pela Brigada Anticrime, além de somar especializações em Cabinda, Luanda e Benguela. Quando o turno termina e a farda é guardada, o subinspetor refugia-se na tranquilidade do lar, dividindo o tempo entre o aconchego da família, a paixão pela leitura e o gosto por filmes de investigação criminal — o reflexo de quem vive a profissão também na alma. CubangoVindo do Comando Provincial do Cubango, o terceiro-subchefe Martinho Dondi, de 35 anos, partilhou do mesmo sentimento de estupefacção e vitória. Actual chefe de pelotão da Unidade de Reacção e Patrulhamento (URP), o graduado confessou com humildade que não esperava alcançar o topo do pódio, dada a qualidade e o elevado número de concorrentes na sua categoria. Pai de cinco filhos, Dondi iniciou a sua trajectória na Polícia Nacional em 2016, tendo servido inicialmente na província da Huíla. Em 2021, foi transferido para as terras do progresso, onde desde então desempenha as suas funções com brio e retidão. Para o jovem subchefe, a noite de gala ficará gravada para sempre na sua memória e na história da sua família, não apenas pelo incentivo financeiro e pelo diploma, mas principalmente pelo caloroso carinho e pelo reconhecimento público do seu sacrifício diário em prol da segurança das populações. Bié Com 17 anos de carreira dedicados à farda, o agente de primeira classe António Marcelo encara a actividade policial como uma missão de paciência e rigor técnico. Colocado na Direcção de Educação Patriótica, o oficial foi impulsionado pelo seu superior hierárquico a concorrer ao prémio, um voto de confiança merecido pelo seu exemplar desempenho no patrulhamento das ruas da cidade do Cuito, na província do Bié. Fiel defensor da ética, Marcelo faz questão de sensibilizar os seus colegas de armas sobre a importância de adoptar condutas exemplares, protegendo a imagem e a dignidade da corporação perante os cidadãos. Longe dos quartéis e do patrulhamento, António Marcelo revela uma faceta artística que surpreende muitos: é um músico e compositor talentoso. Sem descurar o compromisso com a segurança pública, o agente desdobra-se para garantir tempo de qualidade à sua esposa, aos seus três filhos e aos restantes familiares, provando que a arte e a farda podem caminhar lado a lado na construção de um cidadão exemplar. Zaire O sentimento de profunda emoção estendeu-se a Augusto Delfina, natural da província do Zaire e brilhante primeiro classificado na categoria da Polícia de Guarda Fronteira (PGF). Aos 38 anos e pai de três filhos, o galardoado atribui o sucesso da sua trajectória profissional a três pilares inegociáveis: a humildade, o respeito mútuo e o patriotismo. A sua rica folha de serviço conduziu-o por missões complexas em diversas localidades estratégicas do Norte do país, como Pedra de Feitiço, Sumba, Nzeto, Musserra e Kinzau, locais onde a sua dedicação e rectidão deixaram uma marca indelével, sendo hoje motivo de orgulho para os seus familiares, amigos e companheiros de armas. Icolo e Bengo Da província do Icolo e Bengo, o intendente Crispim Muxito, licenciado em Ciências Policiais e Criminais, também não escondia a surpresa pela distinção. foi um dos vencedores do prémio de Melhor Oficial Superior e confessa que não esperava ganhar devido ao elevado número de concorrentes. Com 57 anos de idade e uma folha de serviços que se confunde com a própria história da corporação, o experiente oficial ingressou na Polícia Nacional em 1992, após servir nas Forças Armadas Angolanas (FAA). Pai de três filhos, o veterano acumulou ao longo da sua carreira uma vasta experiência operacional e administrativa, com passagens marcantes pela Unidade Aeroportuária, pelo Porto de Luanda, pelo Comando Municipal do Cazenga e pela Unidade de Trânsito de Luanda, onde desempenhou diversas funções de chefia, com particular destaque para a área da logística. Olhando para trás, o homenageado reconhece com humildade que conciliar a exigente rotina policial com a vida familiar foi um dos seus maiores desafios, superado apenas pelo apoio incondicional da sua esposa. “Para atingirmos patamares mais altos na carreira, precisamos de agarrar as oportunidades com firmeza, agindo sempre com profissionalismo, ética e disciplina”, afirmou com a sabedoria de quem dedicou mais de três décadas à protecção da sociedade. Luanda Entre os nomes mais experientes está o superintendente-chefe Clemente Pontes, vencedor na categoria de Melhor Oficial Superior. Com uma carreira lendária que soma 45 anos de serviço efectivo, o veterano ingressou na corporação em Junho da década de 1980, iniciando o seu percurso como investigador e instrutor processual. Ao longo de mais de quatro décadas, liderou diversas áreas operacionais, acumulando passagens marcantes pelos sectores de investigação criminal, ordem pública e assessoria jurídica. Actual chefe da Assessoria Jurídica do Comando Provincial de Luanda, o oficial carrega na memória os capítulos mais complexos da história recente de Angola, incluindo os violentos confrontos pós-eleitorais de 1992. Dedicado de corpo e alma à farda, o jurista reconhece que as exigências da segurança pública muitas vezes o mantiveram mais tempo nos quartéis do que no ambiente doméstico. Perante a sua ausência operacional, coube à sua esposa a hercúlea missão de gerir o lar e acompanhar o crescimento dos 12 filhos do casal, restando ao oficial os curtos fins de semana para reunir e abraçar a família. O agente de trânsito que salvou uma mulher na rua Se algumas histórias impressionam pela longevidade, outras emocionam pelo mais puro humanismo. É o caso do primeiro-subchefe Manuel Campos, motociclista da Unidade de Trânsito de Luanda, cuja rápida intervenção salvou a vida de uma mulher na via pública, num episódio que se tornou viral nas redes sociais. Entre a rigidez de manter o fluxo do tráfego e o imperativo de salvar uma vida, o agente não hesitou em escolher a segunda opção.Ao deparar-se com a vítima desmaiada, Campos avaliou os sinais vitais e iniciou, de imediato, as manobras de reanimação cardiopulmonar até que a mulher voltasse a respirar. Com o apoio de um automobilista, a cidadã foi colocada numa viatura a caminho do Hospital Geral de Luanda. Diante do intenso congestionamento, o motociclista assumiu a dianteira: apito em riste, abriu caminho por entre o trânsito caótico, garantindo a chegada célere da paciente ao Banco de Urgência.Dias depois, já recuperada, a mulher procurou o seu salvador para agradecer. Durante o reencontro, o primeiro-subchefe apercebeu-se das graves dificuldades financeiras que ela enfrentava. Movido pelo espírito de solidariedade, adquiriu com fundos próprios produtos da cesta básica e ofereceu-lhos. Aos 18 anos, Manuel acalentava o sonho de ser fuzileiro naval ou piloto aviador, mantendo viva a vocação para as forças castrenses. Em 2004, inscreveu-se no curso de Alistados da Polícia Nacional, iniciando a sua caminhada na corporação. Órfão de mãe desde os 15 anos, Manuel Campos, hoje com 44 anos, assumiu cedo a responsabilidade de cuidar dos irmãos. Pai de dez filhos, licenciado em Farmácia e empreendedor, o oficial continua a traçar metas ambiciosas: sonha comandar o município do Kilamba Kiaxi e, no futuro, liderar a Polícia Nacional como comandante-geral. O vencedor interno da PIROutro vencedor foi o inspector-chefe Alberto da Silva, da Polícia de Intervenção Rápida (PIR). Após vencer a fase interna, o actual chefe da Secção de Operações entrou na competição nacional confiante na vitória. Aos 50 anos e pai de sete filhos, o oficial ingressou na Polícia de Intervenção Rápida (PIR) em Maio de 1993, dividindo a sua rotina entre o dever, a família e a fé cristã. Actualmente, frequenta o curso de Estratégia, Arte Operativa e Táctica na Escola Superior de Guerra para assumir maiores responsabilidades na corporação. O seu sonho é comandar a PIR e, após a reforma, planeia dedicar-se à segurança patrimonial e à agricultura. Escola Mártires de MónguaO sentimento de surpresa também abraçou Nelson da Fonseca ao receber a notícia de que seria o representante da sua unidade no concurso nacional. Formado na prestigiada Escola de Polícia Mártires de Móngua, o oficial construiu uma sólida trajetória em Catete, onde desempenhou com brio as funções de chefe de secção do giro, responsável pelo armamento e chefe de viatura. Pai de sete filhos, o agente encara o prémio como a justa chancela à dedicação com que sempre patrulhou as ruas para garantir a ordem pública. Fora do quartel, despe a farda para dar lugar ao homem do diálogo, sendo amplamente reconhecido pelos conselhos sábios que partilha com amigos e vizinhos. As duas mulheres vencedoras No universo dos 12 galardoados, a presença feminina brilhou através de Glória Natende e Delfina Milando, as duas únicas mulheres a subir ao palco no meio de dez homens. Com 50 e 33 anos, respectivamente, as oficiais não esconderam a profunda satisfação ao receberem os certificados de reconhecimento e os respectivos prémios pecuniários. Entre as homenageadas, a subinspectora Glória Natende, natural do Bié, carrega uma emocionante história de superação. Viúva e mãe de dois jovens de 21 e 23 anos — hoje estudantes do ensino superior —, ingressou na Polícia Nacional em 1992, na sua província natal, onde se destacou na investigação criminal como instrutora processual. Após a perda do marido, em 1998, assumiu sozinha a hercúlea missão de criar a família sem nunca descurar o rigor da farda. Com extrema serenidade, agradeceu ao júri pelo reconhecimento e aproveitou o momento para deixar um apelo firme à juventude: maior obediência às orientações superiores e um compromisso inegociável com a disciplina. Delfina MilandoAo seu lado, a agente de primeira classe Delfina Milando, de 33 anos, celebrou com orgulho a conquista do prémio de terceira melhor agente. Licenciada em Psicologia Criminal e especialista em Cinotecnia na Unidade de Reacção e Patrulhamento (URP), ela é responsável pelo treino diário de cães detectores de drogas e armas. Delfina reconhece que a função exige paciência — especialmente quando os animais apresentam sinais de stresse —, mas aponta o espírito de equipa e a disciplina como as chaves para o seu sucesso no pódio. No encerramento da gala, o comandante-geral da Polícia Nacional, comissário-geral Francisco Monteiro Ribas da Silva, destacou que o concurso transcende a competição. Segundo o líder da corporação, homenagear o “Melhor Agente” significa reconhecer o sacrifício e a coragem de milhares de efectivos que abdicam dos interesses pessoais em prol da ordem pública, da protecção de vidas e da preservação da paz social. Para Francisco Ribas, valorizar o mérito fortalece a coesão interna, incentiva a excelência profissional e consolida o compromisso de servir os cidadãos. Uma Polícia forte, concluiu, constrói-se com liderança, integridade, disciplina e, sobretudo, com o reconhecimento daqueles que diariamente honram a farda.


