“Entrávamos em pânico quando a máquina ligada à fotocomposição apresentasse problemas”

Durante 35 anos, Augusta Lucéu acompanhou por dentro a evolução tecnológica, os desafios e os bastidores da produção do Jornal de Angola. Da era da fotocomposição aos modernos sistemas de paginação digital, a antiga técnica revive uma carreira marcada por longas madrugadas de trabalho, espírito de equipa e episódios que ajudam a preservar a memória do primeiro diário de Angola independente.
Augusta Lucéu, antiga fotocompositora e, mais tarde, paginadora do Jornal de Angola, admitida em Janeiro de 1989 e reformada em 2024, partilhou memórias que ajudam a preservar a história do primeiro e, durante muitos anos, único diário de Angola independente. Aos 23 anos, foi submetida a testes e entrevistas que culminaram com a sua admissão naquele que viria a ser o seu primeiro emprego, na então área de Fotocomposição, posteriormente designada Paginação. “Quando comecei a trabalhar, fui apresentada ao sector pela chefe de secção, Alzira Júnior, e pela chefe de turno, Ilda Rosa. Existia o turno das 10 às 15 horas, o das 15 às 21 horas, liderado por Ana Augusta, e os turnos das 21 horas à meia-noite e da meia-noite ao fecho, coordenados por colegas como Barros, Rui Jacinto e Adriano Neto”, recordou. Segundo Augusta Lucéu, tratava-se de um trabalho essencialmente colectivo e de elevada responsabilidade. Sempre que um turno estivesse desfalcado, a equipa em serviço permanecia até à conclusão de todo o trabalho. Na época, explicou, a Fotocomposição exigia que a máquina de leitura dos textos fosse previamente programada com um disco para receber os conteúdos já produzidos. Vencedora do Prémio Palanca Negra Gigante, na categoria feminina de Melhor Paginadora, em 2023, Augusta Lucéu destacou a importância da área. “A nossa secção era tão importante que podíamos trabalhar com textos de todas as editorias. Sempre que houvesse necessidade, éramos chamados, a qualquer hora. Fazíamos praticamente tudo, incluindo a publicidade. A estrutura do jornal mudou muito ao longo dos anos”, afirmou. Momentos de tristeza e fadigaApesar do espírito de equipa, Augusta Lucéu reconhece que o trabalho estava longe de ser um “mar de rosas”. Um dos maiores desafios surgia quando os computadores apresentavam falhas e os textos desapareciam. “Os computadores eram MDT. Os trabalhos eram enviados para a reveladora e gravados em disquetes. Muitas vezes, por problemas nos discos, os dados desapareciam e tínhamos de começar tudo novamente. Era preparar os dedos e voltar a escrever naqueles teclados, cujas teclas eram tão duras que chegavam a provocar dores”, contou. Relativamente aos horários, explicou que o trabalho sempre foi organizado em três turnos rotativos. Em diversas ocasiões, quem entrava às 16 horas permanecia até ao fecho da edição, já de madrugada ou mesmo pela manhã, quando o turno seguinte estivesse desfalcado ou algum colega faltasse. “Mesmo cansados, tínhamos de continuar, porque o jornal tinha de sair.” Acrescentou que a reveladora, equipamento ligado ao processo de fotocomposição, avariava frequentemente. “Quando isso acontecia, principalmente a chefia entrava em pânico, porque sabíamos que teríamos um dia muito difícil. Mesmo assim, ninguém abandonava o trabalho antes de o jornal seguir para a impressão. Muitas vezes, já exaustos e cheios de sono, só então descíamos para apanhar o transporte.” Como se processava o trabalhoAugusta Lucéu explicou que a Redacção enviava os textos dactilografados em “linguados” (folhas sebentas em formato A4 onde os jornalistas redigiam manualmente as matérias), que depois de passar pela Revisão chegava a Fotocomposição, actualmente chamada Paginação. Os fotocompositores digitavam os textos nos computadores MDT e encaminhavam-nos para a Off-Set. “Depois de digitalizados, enviávamos os textos para a Off-Set, onde eram produzidas as películas. Estas seguiam para a montagem e, posteriormente, para a impressão, que constituía a fase final do processo.” A antiga técnica recorda um ambiente de forte camaradagem entre os colegas. “Tivemos um ambiente de trabalho muito amigável e solidário, bastante diferente da realidade actual.” Ao recordar a evolução tecnológica, explicou que a redacção passou das máquinas de escrever (dactilografar) para os computadores MDT, depois para os MPT, posteriormente para os Mac e, finalmente, para os Macintosh, equipamentos mais modernos. “Depois dos textos compostos, enviávamo-los para a impressora, posteriormente para o Dolev e, só depois, para a Off-Set, onde eram feitos os cortes das películas. Em seguida, o material seguia para a montagem, onde era colocado nas chapas para impressão do jornal.” A câmara escuraOutro dos sectores mais delicados era a Reveladora, conhecida como câmara escura. “Nessa área não podia entrar luz. Trabalhava-se praticamente no escuro devido ao processo químico utilizado. Era um ambiente muito sensível e não devíamos entrar sem máscara.” Segundo Augusta Lucéu, muitos colegas receavam trabalhar naquele espaço devido aos riscos para a saúde, sobretudo doenças pulmonares. “Tínhamos um colega, já falecido, conhecido por Dominguinho, que era quem normalmente se disponibilizava para ajudar aqueles que evitavam entrar na Reveladora. Também recebíamos leite diariamente por causa da exposição aos produtos químicos.” Comparando o passado com a actualidade, destaca que hoje a paginação beneficia de ferramentas muito mais avançadas. “Antigamente limitávamo-nos a compor os textos e as fotografias eram colocadas apenas na montagem. Hoje, com programas como Photoshop e InDesign, é possível tratar imagens, definir tamanhos de letra e visualizar toda a paginação no computador.” Chamados de volta durante a madrugadaA antiga paginadora lembra que nem sempre o trabalho terminava quando a equipa deixava as instalações do jornal. “Houve ocasiões em que já estávamos em casa e éramos novamente chamados, de madrugada, porque os textos tinham desaparecido dos computadores e era preciso refazer todo o trabalho.” Os anos de 1992 e seguintes foram particularmente difíceis. Devido à escassez de transporte, os trabalhadores eram frequentemente recolhidos por camiões que transportavam bobinas (enormes rolos de papel que pesava mais de 1 tonelada) para as rotativas. “Éramos chamados a qualquer hora. Fazíamos publicidade, trabalhávamos para todas as editorias e dávamos resposta a tudo o que fosse necessário. A estrutura do jornal mudou muito”, disse. Nem tudo era mau Apesar das dificuldades, Augusta Lucéu considera que a sua passagem pelo Jornal de Angola, os longos 35 anos de trabalho, foi igualmente marcada por conquistas pessoais. “Consegui construir uma casa no Prenda, outra no Gamek e adquirir uma viatura.” Recorda ainda que, apesar das dificuldades vividas em 1992, houve melhorias salariais que beneficiaram muitos trabalhadores. “Não foram apenas momentos difíceis. Houve aumentos salariais que muitos colegas souberam aproveitar. Mais tarde, com a chegada de José Ribeiro, voltámos a ter uma melhoria salarial significativa, algo de que muitos ainda se lembram.” Episódios marcantesEntre os episódios mais marcantes, Augusta Lucéu recorda as constantes falhas de energia, numa época em que o Jornal de Angola ainda não dispunha de geradores. Essas interrupções obrigavam, por vezes, o jornal a sair apenas no dia seguinte ou a recorrer às instalações de outras gráficas para concluir a impressão. Fora do jornal, viajando no tempo, a paginadora reformada recorda que viveu também situações curiosas. Por exemplo, conciliava o emprego com a venda de bebidas durante o dia. Muitos vizinhos estranhavam o facto de, ao final da tarde, encerrar o negócio para seguir rumo à Baixa de Luanda, onde está situado o Jornal de Angola. "Houve pessoas que chegaram a pensar que eu me dedicava à prostituição. Um senhor chegou mesmo a seguir a viatura de serviço para descobrir onde eu ia. Quando viu que eu entrava no Jornal de Angola, pediu desculpa e confessou que era isso que algumas pessoas comentavam."


