O Dia Mundial da Igualdade Feminina nasceu nos Estados Unidos, em 1973, para assinalar a aprovação da 19.ª Emenda à Constituição que em 1920 garantiu às mulheres o direito de voto. Mais do que celebrar uma vitória histórica, Este dia recorda um princípio universal: a cidadania plena não pode ser negada em função do género.
De acordo com a 19ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, a igualdade feminina significa que todas as mulheres devem poder viver sem discriminação, escolher, aprender, trabalhar, liderar e sonhar em condições iguais às dos homens. Não é privilégio, é justiça. Não é concessão, é um direito humano fundamental.
Hoje, a nível mundial, a igualdade continua a ser um ideal em construção. Do acesso desigual ao poder político e económico às disparidades salariais e à violência de género, a realidade mostra que a promessa da igualdade ainda não está cumprida.
Em Angola, a presença de mulheres nas diversas áreas das Ciências, desde as Sociais às Exactas, tem aumentado significativamente nos últimos anos.
Apesar disso, realidade ainda é marcada por desafios relacionados com estereótipos de género, insegurança e resistência à liderança feminina, de acordo com gestora de Tecnologia e Informação para a área de Infra-estrutura da empresa CBS-Angola, Rita Chicoco.
Em declarações ao Jornal de Angola, Rita Chicoco disse que um dos primeiros obstáculos enfrentados pelas mulheres é o de natureza mental. De acordo com a profissional, ao ingressar numa área tradicionalmente associada aos homens, muitas mulheres questionam a própria capacidade para desempenhar determinadas funções.
Apesar das experiências, afirmou que não precisou lutar pelo reconhecimento dentro da empresa em que trabalha. “Encontrei um ambiente em que as mulheres têm oportunidades de assumir responsabilidades e cargos de liderança”, explicou.
Na opinião da projectista Elizabeth Mbuta, que trabalha na empresa Traços e Pontos, disse que construir uma carreira numa área predominantemente masculina continua a ser um desafio para muitas mulheres. As dificuldades, recordou, começam ainda na formação académica, onde a presença masculina continua, em muitos casos, a ser superior à feminina.
“Foi por meio do trabalho e da persistência que consegui ultrapassar esse desafio”, disse a profissional, que não vê diferença entre a capacidade dos homens e das mulheres para exercer profissões ligadas à Arquitectura, Engenharia ou outras áreas técnicas.
A funcionária da Microlab Makiesse Samuel explicou que, hoje em dia as mulheres têm mais oportunidades no mercado de trabalho. A Engenheira Informática acredita que ainda existe um sentimento de repulsão em função dos testemunhos que se ouve de outras mulheres.
Locutura de Rádio
Já a locutora da Rádio Despertar, Maria Chipa, defende que a competência, preparação, coragem, trabalho e persistência são elementos fundamentais para conquistar a liderança e contribuir para uma maior inclusão social e igualdade feminina.
Para a locutora, apesar do crescimento da presença feminina em posições de destaque, a igualdade de oportunidades para homens e mulheres ainda não é plena. “Os homens continuam a ter maior presença em determinados cargos de liderança, realidade que exige mudanças nas políticas de gestão”, apontou.
Luísa Rogério
Na opinião da jornalista Luísa Rogério, uma mulher é diferente de um homem do ponto de vista físico. “Os homens têm mais força naturalmente, mas isso não pode impedir as mulheres de fazer tudo. A minha experiência provou que ambos têm os mesmos direitos, apesar de, infelizmente, nem sempre as mesmas oportunidades, sobretudo em sociedades como as nossas. É preciso reconhecer que Angola é uma sociedade marcada por muita discriminação ainda, muito machismo e pelo patriarcado”, criticou.
Ascensão da mulher
A transformação dos padrões sociais e a criação de condições para que homens e mulheres tenham as mesmas oportunidades nos espaços profissionais e tomada de decisão é, para muitos profissionais, a resposta para vencer os desafios da igualdade de género.
O psicólogo Ludovino Neto disse que entre os factores psicológicos associados ao processo da igualdade de género está na compreensão sobre a educação tradicional, que paralisou profundamente a ideia de separação de funções, tendo em atenção o género, colocando a mulher para o mero papel de doméstica, mãe e educadora.
De acordo com o especialista, os preceitos e estereótipos de género afectam a autoestima e a confiança profissional, assim como ajudam a sublinhar a condição de mulher, submetendo esta a um plano inferior, quer do ponto de vista físico, quer o psicoemocional. O especialista realçou que a necessidade das mulheres provou sempre as suas competências que podem provocar desgaste psicológico. “O acto de solicitar constantemente provas de competência decorre do ego masculino, que tende sempre a procurar na mulher o convencimento”, afirmou.
A falta de mulheres na liderança, disse, pode influenciar a ambição profissional das gerações mais novas. Os estudos académicos reconhecidos, apontou, demonstraram que colocar mulheres em posições de liderança ajuda a criar sociedades mais justas e equilibradas, tendo em conta a sua atitude e estrutura emocional.
“As mudanças psicológicas, sociais e institucionais são necessárias, pois permitem a mudança de mentalidade, virada para a valorização e o empoderamento da mulher, um passo importante e socialmente conveniente, tendo em conta as evidências no mundo em que hoje vivemos”, realçou.
Algumas medidas, recordou, como a definição de quotas para a ocupação de cargos por mulheres, podem ajudar na protecção de género, mas também reforçar os estereótipos. “Por isso, o mais importante é apostar numa educação no sentido da mudança de mentalidade”, aconselhou.
Papel da formação
O sociólogo Samuel Xilo destacou a formação profissional como um dos principais critérios para garantir a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. As escolhas para cargos e funções, realçou, não devem ocorrer com base no género, mas sim na competência, seriedade, assiduidade e desempenho.
“Não vamos colocar homens a ocupar determinadas funções simplesmente por serem homens, nem mulheres apenas para compor uma estatística equilibrada. A escolha deve ser feita pelo mérito”, afirmou.
Para o sociólogo, essa imparcialidade é fundamental para o crescimento de qualquer empresa, organização, Governo e da própria sociedade. A igualdade, defendeu, não significa favorecer alguém pelo género, mas sim garantir condições justas para que homens e mulheres demonstrem as suas capacidades.
O especialista afirmou que a pouca presença de mulheres em cargos de liderança e decisão são factores sociais, económicos, culturais e religiosos que ainda condicionam a progressão profissional feminina.
As mulheres, acrescentou, representam mais de metade da população nacional, mas continuam sub-representadas nos espaços de poder e decisão. “Temos duas possibilidades, ou as organizações estão a promover com base na competência, ou existem factores ligados ao género e ao sexismo a interferir. O problema surge quando a composição não reflecte o mérito”, explicou.
Na opinião de Samuel Xilo, tal medida não se trata de defender que uma mulher representará melhor os interesses da classe feminina, mas sim garantir que diferentes experiências sociais estejam presentes nos locais onde se tomam decisões, sublinhando que o papel das organizações da sociedade civil e das Organizações Não Governamentais é incentivar a participação política e social das mulheres, sobretudo em temas como violência, protecção social e acesso ao emprego.
Maternidade e os desafios do progresso feminino
Entre os principais desafios enfrentados pelas mulheres na questão a maternidade é um dos maiores, por criar entraves durante a caminhada profissional.Como é o caso de Yolanda Jaime , que tem 27 anos de carreira na Educação. Ela recorda que iniciou a actividade docente quando os filhos ainda eram pequenos, leccionando inicialmente a 4.ª e a 6.ª classes.
A professora, mãe de três filhos, explicou que a conciliação entre maternidade e carreira profissional não constitui um grande obstáculo no início da sua vida profissional, porque teve o apoio de outras pessoas para auxiliar nos cuidados familiares.
“Mas sei que nem todas as mulheres tiveram, ou têm a mesma oportunidade”, salientou, acrescentando que hoje não existe distinção significativa entre homens e mulheres, para si, no sector da Educação. “Ambos têm a possibilidade de alcançar cargos de responsabilidade”.
Por sua vez, a enfermeira Kerisma João frisou que as mulheres deveriam trabalhar, de modo a despertarem outras profissionais a terem uma mente mais aberta na execução das suas tarefas. “As mulheres devem ser mais ousadas na esfera laboral, não se oprimir, porque eu sei que elas são capazes de fazer seu trabalho de maneira a contribuir para uma sociedade melhor e mais inclusiva”, realçou.
No entender de Adalgisa Uacunzo, cofundadora da organização Kuzuela Muhatu, os homens ainda têm uma mentalidade conservadora sobre a questão da maternidade e chegam a considerar a gravidez como uma total incapacidade, embora que algumas mulheres durante o processo de gravidez adoecem algumas vezes, passam por algumas dificuldades, mas ainda assim, isso não impede elas de trabalhar.
Outro factor importante, realçou, é a falta de políticas inclusivas nas empresas. “Muitas organizações ainda não estão a criar politicas que permitam incluir, apoiar e garantir melhores condições para as mulheres no mercado”.
A jornalista Luísa Rogério defendeu a inserção de politicas públicas e quotas, para dar mais oportunidade e afirmação às mulheres nas direcções das instituições. “Devíamos ter mais mulheres como directoras e PCA. É preciso dar-lhes a oportunidade de tentar e também de errar. E para que isso aconteça, é necessário investir em formação e treinamento”, afirmou.
Segundo a jornalista, as famílias também devem educar tanto homem como mulheres, incentivando-os, principalmente, a estudar. “Enquanto continuarmos a pensar que a principal ou primeira função da mulher é a reprodutiva e o trabalho é uma questão secundária, dificilmente teremos esse equilíbrio”, salientou.
A enfermeira Kerisma João, funcionária da empresa Edições Novembro, aconselhou as mães a fazerem um esforço para conciliar a vida familiar e a carreira profissional. “É preciso que não deixem os sonhos de lado para poder cumprir com o papel de mãe. Façam um programa para conseguir conciliar o trabalho e a casa”, frisou.
A vontade de vencer numa profissão dominada por homens
Conhecida como um dos rostos femininos mais marcantes do Jornalismo impresso, Luísa Rogério começou a dar os primeiros passos na construção de uma carreira de quatro décadas, aos 18 anos de idade, num período difícil da História de Angola, marcado pelo auge da guerra.
“Sempre quis ser e percebi, com o passar dos anos, que tinha vocação. Por isso lutei pelo que desejei e sabia fazer bem. Trabalho há cerca de 40 anos como jornalista e iniciei o meu percurso no Jornal de Angola”, conta.
Ao longo da carreira, lembrou, já colaborou com muitos outros órgãos de comunicação social, angolanos e estrangeiros. “Como reconhecimento pelo empenho, fui nomeada subeditora antes dos 20 anos.
Com 30 e poucos anos, fui eleita secretária-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos. Sou membro da Federação Internacional de Jornalistas, desde 2019, e do Comité Executivo da Federação Africana de Jornalistas, desde 2013, organização que já cheguei a assumir a presidência interina. Actualmente, sou presidente da Comissão da Carteira e Ética”, recordou.
O percurso, disse, não foi fácil. “Tive muitas dificuldades. Lutei bastante para me afirmar. Mas sempre soube o que queria”, revelou, além de contar que teve de se esforçar mais do que a maioria para se impor. “Haviam mais homens na profissão e por isso, enquanto algumas pessoas tinham de ler um livro, eu precisava ler um volume deles. Me tornei um 'rato de biblioteca”, lembrou.
Quando a oportunidade surgiu para fazer formação no Brasil, disse, aproveitou para “decorar” o maior número possível de livros. “Ficava na biblioteca durante muitas horas a ler, porque os meus colegas tinham conhecimentos que eu não tinha”.
Um outro desafio nesse percurso, disse, surgiu com a maternidade. Nessa altura, contou, percebeu a vulnerabilidade feminina. “Lembro que, aos meus 26 anos, engravidei pela primeira vez, na altura era editora de Sociedade. Devido às alterações hormonais causadas pela gestação, tive de ficar em casa durante um longo período e, por causa da ausência, fui exonerada ao cargo”, referiu.
Depois de pouco tempo, continuou, voltou ao trabalho e passou a fazer muitas reportagens, várias viagens. “Fui repórter de guerra, mas nessa altura tive muito apoio. A minha mãe e a minha avó cuidavam muito bem dos meus filhos, durante a minha ausência. A minha filha mais velha cresceu, praticamente, nos corredores do jornal. Eu ia à consulta muitas vezes com ela. Depois, se não fosse o pai, outra pessoa ou colega levava-a para casa”.
Hoje, ao fazer uma retrospectiva, a jornalista acredita que a trajectória como repórter de guerra ensinou-a a ter equilíbrio, principalmente sobre o que deve ser escrito e publicado. “Quando escrevo, sempre penso se é relevante, ou não, e quais as consequências. Aprendi com a vida, engolindo sapos. Essa também foi uma dificuldade que tive de me adaptar, moldar a minha personalidade impulsiva e guerreira, quase a essa forma de ser e de estar”, destacou.
Uma luta com história
Celebrar o Dia da Igualdade Feminina é lembrar as conquistas do passado e transformar essa memória em compromisso irrevogável de futuro. É recusar retrocessos e afirmar que a igualdade é um pilar da democracia e um motor de progresso coletivo.
A celebração desta data destaca, igualmente, a necessidade urgente de combater a discriminação, alcançar a igualdade salarial, garantir representação política e erradicar a violência contra a mulher.
Neuza Sacuxipo e Marisa Quienda Lúcia Mateus




