Professores enfrentam diferentes desafios em Luanda, Huíla, Bié e Cunene, desde a adaptação às novas tecnologias e à Inteligência Artificial até às dificuldades de transporte, condições de trabalho e barreiras linguísticas
Ser professor em Angola significa exercer uma profissão marcada por realidades distintas. Enquanto nos grandes centros urbanos os docentes procuram acompanhar a evolução tecnológica e o novo perfil dos alunos, noutras regiões do país o exercício da profissão continua condicionado por longas distâncias, dificuldades de transporte, limitações nas escolas e barreiras linguísticas.
A formação contínua, as condições de trabalho, a valorização profissional e a adaptação às novas tecnologias estão entre os principais desafios colocados aos professores. Num contexto marcado pela transformação do perfil dos alunos e pelo avanço da Inteligência Artificial, especialistas defendem actualização permanente das competências docentes para responder às novas exigências do ensino.
No município do Sequele, a chefe de Secção de Educação e Ensino, Manuela Andrade, considera fundamental reforçar as competências dos professores para melhorar o rendimento escolar. A responsável, licenciada em Pedagogia e mestranda em Psicologia do Desenvolvimento, aponta a gestão de conflitos, a pedagogia diferenciada, a literacia digital, a comunicação assertiva e a empatia como competências necessárias ao exercício da profissão.
Entre as medidas adoptadas no município, destacou o acompanhamento pedagógico, o reforço das Zonas de Influência Pedagógica (ZIP), a formação contínua local e a articulação com parceiros sociais e o sector privado.
Manuela Andrade defende ainda maior aproximação entre escola e família, disponibilização de recursos de ensino e aprendizagem e investimento no auto-aperfeiçoamento dos professores. Para a responsável, o Estado e os promotores do ensino particular devem igualmente investir no desenvolvimento intelectual e académico da classe docente.
“Sem eles, as nossas infra-estruturas e centralidades seriam apenas betão,mas, são os professores que lhes dão alma e futuro”, afirmou.
Formação para responder às novas exigências
A docente do Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED) de Luanda Mbiyavanga Queria considera a formação inicial e contínua determinante para a qualidade do trabalho docente. Com mais de três décadas de experiência no Ensino Superior, reconhece a existência de condições para o exercício da profissão, mas considera que ainda não são suficientes para garantir plenamente a qualidade do trabalho.
A académica defende que o perfil do professor deve corresponder às exigências da função e às características diversificadas dos alunos. No ISCED, explicou, a formação permite aos futuros professores desenvolver conhecimentos científicos e adquirir ferramentas para lidar com diferentes perfis de estudantes e situações do ambiente escolar.
Apesar disso, considera necessária a actualização dos currículos perante as transformações do sistema educativo.
Mbiyavanga Queria chama igualmente a atenção para o domínio da Língua Portuguesa, enquanto língua de ensino em Angola. Mesmo os estudantes preparados para leccionar Matemática, Inglês, Francês ou História, precisam de dominar a língua para transmitir os conteúdos de forma adequada.
A preparação psicopedagógica constitui outro componente fundamental. Para a académica, o professor deve compreender as características, necessidades e dificuldades de cada estudante. “Cada aluno é um aluno”, salientou.
Inteligência Artificial cria novos desafios
O avanço das tecnologias digitais acrescentou novas exigências ao trabalho docente. A professora de História do I Ciclo no Colégio Éden, no município do Sequele, Domingas Agostinho, considera o uso inadequado da Inteligência Artificial um dos desafios actuais da profissão.
Para a docente, as ferramentas digitais devem servir de apoio à aprendizagem e não substituir o esforço individual dos alunos. “O nosso maior desafio é fazer com que os nossos alunos estudem no verdadeiro sentido da palavra, que é aprender”, afirmou.
Domingas Agostinho, que escolheu a docência pelo gosto de transmitir conhecimentos e pela influência do ambiente familiar, defende maior participação dos encarregados de educação na formação dos filhos e na valorização da figura do professor.
“Hoje, muitas vezes, é por causa de nós, encarregados, que não transmitimos em casa o papel do professor na vida dos nossos filhos”, afirmou.
Com 62 anos e mais de quatro décadas de carreira, António Camata iniciou a actividade docente em 1983, no Uíge, e chegou a Luanda em 1997, onde concluiu a licenciatura no ISCED. Actualmente, coordena os cursos de História e Geografia e lecciona Metodologia, Prática e História no Magistério Mutu-ya-Kevela.
Para o docente, contribuir para a formação das novas gerações continua a ser o principal atractivo da profissão. Considera existir actualmente maior reconhecimento social da classe, mas defende a actualização permanente dos professores perante as transformações científicas, tecnológicas e culturais.
“Cada dia que passa é de actualização, porque as técnicas, ou seja, as inovações, são praticamente por segundo”, afirmou.
Família e escola no mesmo caminho
Entre os encarregados de educação, Jossué Bunga considera os professores determinantes na formação integral das crianças, não apenas pela transmissão de conhecimentos, mas também pela contribuição na construção da personalidade e preparação para a vida na sociedade.
No Dia Mundial dos Professores, deixou uma mensagem de gratidão aos profissionais da Educação e apelou para que continuem firmes na missão de educar, ensinar e instruir, sem perder a dimensão humana.
Tina Ribeiro considera responsabilidade dos professores preparar os alunos com conhecimentos e competências para o exercício futuro de uma profissão. A encarregada lamenta, por outro lado, atitudes de alguns alunos e encarregados de educação que desvalorizam a figura do professor.
Entre os estudantes, Mara Beatriz, do Magistério Mutu-ya-Kevela, considera o professor uma figura próxima da família e recorda particularmente o incentivo recebido da professora Duvaline, que a encorajou a manter a fé durante um período de dificuldades.
Rosevander Carvalho, estudante da 11.ª classe do curso de Matemática e Física, considera os professores fundamentais para a formação dos profissionais existentes na sociedade e destaca a paciência demonstrada pelos docentes na transmissão dos conhecimentos.
Ensino particular pede novas competências
O presidente da Associação Nacional do Ensino Particular (ANEP), António Pacavira, defende uma “ressignificação” da formação docente, com a inclusão de programação, Inteligência Artificial e outras competências tecnológicas, para responder ao perfil dos alunos da chamada geração Alfa.
“Nós precisamos de ressignificar a formação de professores para podermos ter professores com um perfil adequado a atender à expectativa dos alunos, das famílias e às necessidades da sociedade”, afirmou.
Pacavira apontou também a questão salarial como um dos principais desafios do ensino particular, defendendo o cumprimento do salário mínimo nacional pelos promotores de colégios. A ANEP tem promovido formações para reforçar as competências técnicas, académicas e linguísticas dos professores e ampliar as suas oportunidades no mercado de trabalho.
No âmbito do Dia Mundial dos Professores, a associação promove, entre 5 de Outubro e 22 de Novembro, a terceira edição do projecto “Professor por um dia”, iniciativa que aproxima os encarregados de educação da realidade dos docentes, permitindo-lhes acompanhar e experimentar, durante um dia, a actividade numa sala de aula.
Quando ensinar começa antes da sala de aula
Na Huíla, onde 17.490 docentes asseguram o ensino a mais de 818 mil alunos, a realidade acrescenta outras exigências ao exercício da profissão. Distância, acompanhamento pedagógico e formação permanente estão entre as questões destacadas por responsáveis, professores e alunos.
O director do Gabinete Provincial da Educação, Fernando Sakolela, defende o acompanhamento permanente dos docentes, através da observação de aulas, reuniões pedagógicas, avaliação do desempenho e contacto regular entre direcções e professores.
Para o responsável, o trabalho docente inclui também acompanhar o aproveitamento, identificar dificuldades e procurar soluções para melhorar o ensino. Aponta ainda a valorização profissional, melhores condições de trabalho e formação contínua como factores importantes para o desempenho dos professores.
Entre a distância e a sala de aula
O director da Escola n.º 60, José de Oliveira, explica que o acompanhamento dos docentes é feito através das planificações, reuniões e visitas às salas de aula, permitindo identificar dificuldades e apoiar a melhoria dos métodos de ensino.
Para Eugénia Dungula, com 16 anos de serviço, chegar diariamente à escola constitui um desafio. A professora percorre um trajecto longo entre a residência e o local de trabalho, enfrentando dificuldades de transporte e o desgaste das deslocações.
Com 35 anos de carreira, Carla Etelvina aponta a preparação das aulas, o acompanhamento individual dos alunos e a formação permanente como preocupações. Já Joaquina Isau, com 40 anos de docência, resume a profissão em três elementos: dedicação, responsabilidade e gosto pelo ensino.
O professor visto pelos alunos
Os alunos também valorizam o acompanhamento dos docentes. Alana Morgado, 12 anos, e Sandra Irene Cambiete, 11, ambas da 6.ª classe, destacam a explicação dos conteúdos e o apoio para superar dificuldades.
Suzano Júnior, 12 anos, e Isabel Hakale, 13, também da 6.ª classe, valorizam a relação com os professores e o acompanhamento fora da sala de aula. Emanuel Capitango Domingos, da 2.ª classe, destaca a explicação das matérias e a correcção dos exercícios.
Para os responsáveis da Educação e gestores escolares, a participação dos encarregados de educação é igualmente necessária, sobretudo perante dificuldades de aprendizagem ou problemas de comportamento.
A realidade da Huíla acrescenta, assim, outra dimensão aos desafios da profissão: a qualidade do ensino também depende das condições concretas em que o professor chega à escola, trabalha e acompanha cada aluno.
Línguas locais são desafios nas comunidades
Se na Huíla as condições de deslocação e o acompanhamento pedagógico revelam parte das dificuldades enfrentadas pelos docentes, no Cunene a realidade coloca outra questão no centro do processo de ensino: a comunicação entre professor e aluno num contexto de diversidade linguística.
No município do Cuanhama, o director municipal da Educação, Pelágio Kamusisi, considera o domínio das línguas locais e a adaptação à realidade sociocultural das comunidades importantes para o exercício da profissão.
O responsável explicou que a colocação dos professores é feita pelas estruturas locais em função das necessidades de cada comunidade, podendo levar docentes para localidades cuja língua predominante desconhecem. Nessas circunstâncias, defende o desenvolvimento de estratégias que facilitem a comunicação e a transmissão dos conteúdos.
“É necessário que o professor se adapte à língua dos alunos e que os alunos, por sua vez, se adaptem à língua em que são ensinados”, afirmou.
Pelágio Kamusisi reconhece que os primeiros tempos podem ser particularmente exigentes, tanto para o professor, ao compreender a realidade linguística local, quanto para os alunos, perante as dificuldades de compreensão da Língua Portuguesa.
Dificuldades existentes na escola
As dificuldades prolongam-se dentro da escola, que enfrenta carência de carteiras, material didáctico e condições adequadas nas salas de aula.
O director Trindade Mussengue considera prioritária a construção de uma infra-estrutura definitiva, incluindo uma residência para funcionários.
A medida permitiria reduzir as deslocações diárias e garantir maior estabilidade ao corpo docente.
Apesar das limitações, a escola beneficia do programa de merenda escolar. Segundo o responsável, a iniciativa contribuiu para reduzir o absentismo dos alunos.
Comunicação influencia aprendizagem
Professor de línguas angolanas e Língua Portuguesa no Magistério Dr. António Agostinho Neto, em Ondjiva, Adilson Kambindangola, considera a comunicação entre professor e aluno essencial para o sucesso da aprendizagem.
O docente chama a atenção para situações em que os alunos têm uma língua angolana como materna, enquanto os professores colocados nessas comunidades não a dominam. A diferença linguística pode dificultar a compreensão dos conteúdos e exigir metodologias ajustadas às características dos estudantes.
Adilson Kambindangola defende o reforço do ensino das línguas angolanas, considerando o domínio de mais de uma língua importante para ampliar as competências linguísticas dos alunos e valorizar a diversidade cultural.
A tradução de conteúdos exige igualmente rigor, sobretudo quando uma ideia precisa de ser transportada de uma língua para outra sem perder o significado. “Traduzir uma determinada palavra requer muito cuidado, porque, se não tivermos atenção, podemos mudar o sentido”, advertiu.
Transformação de barreiras
Natural de Benguela e colocada no município da Kafima, a professora do ensino primário Victória Sassia enfrentou dificuldades iniciais por não dominar a língua local. O apoio da comunidade e da família do soba, onde permaneceu durante os primeiros dois anos, facilitou a adaptação.
Para superar a barreira linguística, passou a recorrer a expressões locais durante as aulas e a pedir aos alunos que fizessem a tradução para português. A estratégia melhorou progressivamente a comunicação e, segundo a docente, contribuiu para o domínio da Língua Portuguesa. Actualmente, cerca de 90 por cento dos alunos da turma conseguem falar e escrever em português.
Victória Sassia destaca ainda o papel da comissão de pais, que contribui para aproximar escola, professores, alunos e famílias.
A experiência do Cunene mostra que, em determinados contextos, ensinar começa pela construção de uma linguagem comum entre quem ensina e quem aprende. E a linguagem é o principal veículo que relaciona o pensamento e a linguagem.
Vencer o isolamento pelo ensino
Se no Cunene a comunicação entre professor e aluno é condicionada pela diversidade linguística, no Bié as distâncias e as condições de acesso colocam outros obstáculos ao exercício da profissão. Longe dos centros urbanos, ensinar pode significar percorrer longos trajectos, enfrentar vias de difícil acesso e trabalhar em escolas com recursos limitados.
Na aldeia de Sassongo, município da Chipeta, a cerca de 10 quilómetros da sede municipal e 35 do Cuito, professores percorrem, diariamente, longas distâncias para garantir o funcionamento da única escola da comunidade, a Escola Primária Nossa Senhora da Paz de Sassongo.
António Sapalo é um dos docentes que inicia a jornada às cinco horas da manhã. A distância e o estado das estradas tornam o percurso particularmente difícil, sobretudo durante a época chuvosa.
Sem transporte público directo, os professores recorrem a motorizadas de três rodas, conhecidas por “caleluia”. Quando as chuvas tornam as vias intransitáveis, alguns são obrigados a pernoitar na sede municipal para chegar a tempo à escola no dia seguinte.
Adaptação ás ferramentas digitais
Nos centros urbanos do Cuito, Chinguar e Andulo, onde algumas escolas dispõem de melhores condições e recursos tecnológicos, os desafios estão mais ligados à adaptação, às ferramentas digitais e ao novo perfil dos alunos.
No Cuito, o professor do ensino secundário Diamantino Lote considera a Inteligência Artificial um dos desafios actuais. Para o docente, o acesso facilitado às novas tecnologias exige orientação para evitar que substituam a leitura, a reflexão e o esforço individual.
“Hoje em dia, os alunos confiam mais na Inteligência Artificial do que naquilo que é dito pelo professor”, afirmou, defendendo o uso das novas ferramentas como apoio à aprendizagem.
Diferentes realidades pelo pais
De Luanda ao Bié, passando pela Huíla e pelo Cunene, as experiências revelam diferentes faces da mesma profissão. Nas cidades, os professores procuram acompanhar a evolução tecnológica e as mudanças no perfil dos alunos e nas comunidades mais afastadas, enfrentam distâncias, dificuldades de transporte, limitações de infra-estruturas e barreiras linguísticas.
Apesar das diferenças, permanece comum o compromisso de ensinar e acompanhar os alunos. A realidade observada nas quatro províncias mostra que valorizar o professor exige não apenas reconhecimento, mas também condições, formação e meios para o exercício da profissão.
No Dia Mundial dos Professores, as diferentes vozes convergem numa ideia: formar uma nova geração exige professores preparados para as mudanças e condições que lhes permitam transformar conhecimento em aprendizagem.




