Insegurança Alimentar Atinge Níveis Alarmantes E Expõe Falhas Do Estado

Segundo os dados do FIES, uma parcela significativa da população vive em situação de insegurança alimentar moderada a grave. Na prática, isso traduz-se em famílias que reduzem o número de refeições, adultos que sacrificam a própria alimentação para alimentar os filhos e crianças expostas a défices nutricionais com consequências irreversíveis no seu desenvolvimento físico e cognitivo.
Isso mesmo confirmaram à nossa reportagem os cidadãos João Bernabé e Dorotéia, taxista e vendedeira ambulante de ocupação: “Mano, você escolhe, ou comem os filhos ou come você. Está mal!”.
A gravidade da situação não é apenas estatística — é estrutural. O relatório aponta que a insegurança alimentar em Angola está profundamente ligada à pobreza persistente, ao desemprego elevado e à fragilidade do sistema produtivo nacional. Num país com vastos recursos agrícolas, a incapacidade de garantir comida suficiente para a sua população revela um paradoxo gritante e, sobretudo, uma falha de governação.
Especialistas alertam que a dependência excessiva das importações de bens alimentares continua a agravar o problema. Com a volatilidade dos preços internacionais e a desvalorização da moeda nacional, o acesso a alimentos básicos torna-se cada vez mais difícil para a maioria da população. O resultado é um ciclo vicioso: menos poder de compra, pior alimentação, mais vulnerabilidade social.
No meio rural, onde se esperaria maior resiliência alimentar, o cenário é igualmente preocupante. A falta de investimento consistente na agricultura familiar, a ausência de infraestruturas de escoamento e o limitado acesso a crédito e insumos agrícolas perpetuam a baixa produtividade. O campo, que deveria ser solução, transforma-se em mais um epicentro da crise.
Já nas áreas urbanas, especialmente em Luanda, o custo de vida elevado agrava a insegurança alimentar. O crescimento desordenado das periferias, aliado ao desemprego e à informalidade, cria bolsões de pobreza onde a alimentação adequada é um luxo distante. Aqui, a fome não é visível nas estatísticas oficiais do dia-a-dia, mas está presente nos pratos vazios de milhares de famílias.
Apesar dos sucessivos discursos políticos sobre diversificação da economia e aposta na produção nacional, o relatório do INE evidencia um desfasamento entre a retórica e a realidade. Programas públicos anunciados com pompa raramente se traduzem em melhorias concretas na mesa dos cidadãos. A ausência de políticas eficazes e monitoradas levanta sérias dúvidas sobre a capacidade do Executivo em enfrentar um problema que é, antes de tudo, humano.
Organizações internacionais têm reiterado a necessidade de Angola reforçar as políticas de proteção social e investir de forma estratégica na segurança alimentar. No entanto, a resposta institucional continua aquém da urgência. Sem uma intervenção coordenada, que envolva produção, distribuição e acesso, o país corre o risco de agravar ainda mais os indicadores nos próximos anos.
O FIES 2025 não deixa margem para complacência: a fome em Angola não é apenas consequência de fatores externos, mas também resultado de decisões internas — ou da falta delas. Num país onde a riqueza natural contrasta com a pobreza alimentar, a pergunta impõe-se: até quando a insegurança alimentar continuará a ser tratada como um problema secundário?


