“Jó, descrito na Bíblia, sofreu de tala”, afirma Rei do Bailundo ao abordar crenças sobre doenças e sofrimento

O Rei do Bailundo, Tchongolola Tchongola, afirmou esta segunda-feira, 13, que Jó, personagem descrita na Bíblia, sofreu de “tala”, ao defender que determinadas doenças e sofrimentos podem estar associados a causas espirituais e crenças tradicionais.
As declarações foram feitas durante o programa “Ponto e Vírgula”, da Rádio Correio da Kianda, realizado na sua embala, onde o soberano abordou a forma como a cultura ovimbundu interpreta alguns problemas de saúde e de sofrimento humano.
Segundo o Rei do Bailundo, o sofrimento vivido por Jó corresponde ao que, na tradição local, é designado por “tala”.
“Quando olhamos mesmo na história de um elemento que foi o homem fiel do próprio Deus, que é Jó, aquilo é tala, que tinha uma dor da ponta da unha até à ponta do cabelo, todo o corpo se arranhando, aquilo é tala”, afirmou.
Na sua intervenção, Tchongolola Tchongola defendeu que a “tala” tem uma dimensão espiritual e que o tratamento médico, por si só, não é suficiente enquanto a causa espiritual não for removida.
“Às vezes leva tempo para se curar, porque a tala é um demónio que entra no corpo da pessoa. Esse demónio, se não sair, vai cavando a ferida aos poucos. Só tem que se remover esse demónio e depois colocar o medicamento”, declarou.
O soberano acrescentou que, na sua visão, mesmo os melhores cuidados hospitalares podem não produzir resultados se a origem espiritual do problema não for resolvida.
“A tala é uma realidade, existe”, reforçou.
Durante a mesma intervenção, o Rei do Bailundo afirmou que, dentro da cultura ovimbundu, existem famílias que preservam práticas associadas ao feitiço, as quais, segundo disse, são transmitidas de geração em geração.
“Existem subculturas, aquelas famílias que preservam tudo o que é mal, preservam mesmo o balaio do feitiço da família. E, às vezes, isso passa de geração em geração”, afirmou.
Tchongolola Tchongola revelou ainda que, na sua embala, já foram queimados vários objectos que classificou como estando ligados a essas práticas, sustentando que tem presenciado situações que reforçam a sua convicção sobre a existência da feitiçaria.
O Rei do Bailundo disse igualmente que algumas das pessoas identificadas na embala como praticantes de feitiçaria ocupam, posteriormente, cargos de responsabilidade em igrejas, instituições públicas e outros sectores da sociedade.
As declarações foram proferidas no âmbito de uma reflexão sobre as crenças tradicionais, a cultura ovimbundu e a forma como essas comunidades interpretam determinadas doenças e o sofrimento humano.



