A busca pelo lucro e as falhas na regulação são apontadas por académicos como factores que ajudam a explicar os problemas de qualidade no ensino superior em Angola. Os especialistas defendem maior controlo sobre a abertura e o funcionamento das instituições, bem como uma melhor planificação dos cursos.
O sociólogo Agostinho Paulo considera que algumas instituições de ensino superior são criadas mais pela oportunidade de gerar riqueza do que pela preocupação com a qualidade da formação. Para o académico, a entrada de interesses económicos no sector tem sido acompanhada, em alguns casos, pelo incumprimento dos padrões exigidos para o funcionamento das universidades.
Agostinho Paulo alerta que a falta de cumprimento desses requisitos acaba por afectar a qualidade da formação e pode contribuir para o fraco desempenho de muitos licenciados e mestres.
“O capitalismo sufocou o ensino superior em Angola. Os empresários compreenderam que uma das oportunidades de riqueza é construir um instituto superior, sem observar os padrões necessários para que uma universidade funcione”, afirmou.
O académico Fábio Manuel também aponta problemas na regulação da oferta formativa e na planificação dos cursos. Na sua avaliação, não basta aumentar o número de instituições e formações, sendo necessário garantir que os cursos tenham qualidade e estejam ligados às necessidades do país.
“Angola precisa de regular e planear a formação superior. O Estado não pode ficar indiferente perante cursos sem qualidade, excesso de determinadas formações ou uma oferta universitária que não esteja alinhada com as necessidades do país”, defendeu.
Os académicos entendem que o Estado deve reforçar a fiscalização das instituições e acompanhar com maior rigor a abertura e o funcionamento dos cursos, de modo a evitar a expansão de formações sem condições adequadas ou com pouca utilidade para as necessidades do mercado e do desenvolvimento nacional.
O debate sobre a qualidade do ensino superior ocorre num contexto em que Angola procura reforçar os mecanismos de garantia da qualidade. No âmbito da terceira fase da iniciativa HAQAA, o INAAREES obteve 3,6 pontos numa escala de zero a cinco, sendo enquadrado entre os sistemas que cumprem apenas parcialmente os padrões internacionais de garantia da qualidade.
Para os académicos, o resultado reforça a necessidade de melhorar a regulação, a fiscalização e o planeamento da oferta formativa, garantindo que a expansão do ensino superior seja acompanhada por padrões adequados de qualidade.



